O clamor do Papa diante do Corpo Diplomático: "Estamos diante de sociedades cada vez mais polarizadas"

Foto: Vatican News

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10 Janeiro 2025

  • Estamos diante de sociedades cada vez mais polarizadas, nas quais se cultiva um sentimento geral de medo e desconfiança em relação ao próximo e ao futuro.

  • É inaceitável falar de um suposto 'direito ao aborto', que contradiz os direitos humanos, em particular o direito à vida.

  • Nenhuma criança é um erro ou culpada por existir, assim como nenhum idoso ou doente pode ser privado de esperança ou descartado.

  • De modo algum podemos aceitar o bombardeio de populações civis ou o ataque a infraestruturas vitais para a subsistência. Não podemos aceitar ver crianças morrerem de frio porque hospitais foram destruídos e a rede energética de um país foi danificada.

A reportagem é de Jesús Bastante, publicada por Religión Digital, 09-01-2025.

 

"Como eu gostaria que este 2025 fosse verdadeiramente um ano de graça, rico em verdade, perdão, liberdade, justiça e paz!" 184 países mantêm relações diplomáticas com a Santa Sé. Trata-se, sem dúvida, do Estado mais relevante do ponto de vista político e global. O país menor, e o que mais se faz ouvir.

Foi isso que deve ter pensado o Papa Francisco nesta manhã, ao lançar um dos seus discursos mais importantes do ano, no qual traçou uma espécie de "Estado da Humanidade", marcado pela guerra, pelo ódio, pela desinformação e pelas perspectivas de que essa "terceira guerra mundial em pedaços" se torne uma realidade. Ele o fez por meio de seu "porta-voz", Filippo Ciampanelli, devido a um resfriado que impediu o Papa de ler as mais de dez páginas do texto.

Na voz de Ciampanelli, Francisco enviou várias mensagens aos representantes dos países do mundo, tendo como base o Jubileu deste 2025. "Começamos este ano enquanto o mundo está assolado por inúmeros conflitos, grandes e pequenos, mais ou menos conhecidos, e também pela persistência de atos execráveis de terror, como os ocorridos recentemente em Magdeburgo, Alemanha, ou em Nova Orleans, Estados Unidos", delineou Francisco, dentro de "contextos sociais e políticos cada vez mais exacerbados por crescentes contradições".

"Estamos diante de sociedades cada vez mais polarizadas, nas quais se cultiva um sentimento geral de medo e desconfiança em relação ao próximo e ao futuro", advertiu Bergoglio, que condenou "a criação e a difusão contínua de notícias falsas, que não apenas distorcem a realidade dos fatos, mas terminam por distorcer as consciências, gerando falsas percepções da realidade e criando um clima de suspeita que fomenta o ódio, prejudica a segurança das pessoas e compromete a convivência civil e a estabilidade de nações inteiras". Os atentados contra o presidente da Eslováquia ou contra o próprio Donald Trump são exemplos disso.

A lógica do encontro frente à lógica do confronto

"Meu desejo para este novo ano é que o Jubileu possa representar, para todos, cristãos e não cristãos, uma oportunidade de repensar também as relações que nos unem, como seres humanos e comunidades políticas; de superar a lógica do confronto e abraçar, em vez disso, a lógica do encontro; para que o tempo que nos aguarda não nos encontre como vagabundos desesperados, mas como autênticos peregrinos da esperança", insistiu, reivindicando o valor da diplomacia como "o único caminho para romper as correntes de ódio e vingança que aprisionam e para desativar as bombas do egoísmo, do orgulho e da soberba humana, que são a razão de toda vontade beligerante que destrói".

Vivemos um tempo em que "a negação de verdades evidentes parece ganhar terreno", em que "uns e outros têm a tendência de criar sua própria 'verdade', ignorando a objetividade do que é verdadeiro". Essas tendências são alimentadas pelo mau uso da Inteligência Artificial e dos meios de comunicação.

Diante disso, apontou o Papa, "uma diplomacia da esperança é, antes de tudo, uma diplomacia da verdade", pois "onde falta o vínculo entre realidade, verdade e conhecimento, a humanidade deixa de ser capaz de dialogar e de se compreender (…). O relato bíblico da Torre de Babel mostra o que acontece quando cada um fala apenas a 'sua' língua".

Colonização ideológica e cultura do cancelamento

"Trata-se de uma verdadeira colonização ideológica que, segundo programas planejados em escritórios, tenta erradicar as tradições, a história e os vínculos religiosos dos povos", denunciou Francisco, que alertou para "a cultura do cancelamento", que "não tolera diferenças e se concentra nos direitos dos indivíduos, negligenciando os deveres em relação aos outros, especialmente aos mais fracos e vulneráveis".

Nesse contexto, acrescentou: "É inaceitável, por exemplo, falar de um suposto 'direito ao aborto', que contradiz os direitos humanos, em particular o direito à vida". "Nenhuma criança é um erro ou é culpada por existir, assim como nenhum idoso ou doente pode ser privado de esperança ou descartado", ressaltou.

Após reivindicar a "Declaração de Helsinque" de 1975, o Papa lamentou que "as instituições multilaterais" surgidas após a Segunda Guerra Mundial "já não parecem capazes de garantir a paz e a estabilidade, a luta contra a fome e o desenvolvimento para os quais foram criadas, nem de responder de maneira verdadeiramente eficaz aos novos desafios do século XXI, como as questões ambientais, de saúde pública, culturais e sociais, além dos desafios impostos pela inteligência artificial. Muitas delas precisam ser reformadas".

Ameaça crescente de uma guerra mundial

"Diante da ameaça cada vez maior de uma guerra mundial, a vocação da diplomacia é favorecer o diálogo com todos, inclusive com os interlocutores considerados mais 'incômodos' ou que não são reconhecidos como legítimos para negociar", destacou o Papa, expressando seu desejo de que "toda a comunidade internacional se esforce, antes de tudo, para pôr fim à guerra que há quase três anos banha de sangue a aflita Ucrânia e que causou um enorme número de vítimas, inclusive muitos civis".

Ao mesmo tempo, clamou por "um cessar-fogo e a libertação dos reféns israelenses em Gaza, onde há uma situação humanitária gravíssima e ignóbil". "Meu desejo é que israelenses e palestinos possam reconstruir os pontes de diálogo e de confiança mútua, a partir dos mais pequenos, para que as gerações vindouras possam viver juntas, em paz e segurança, em ambos os estados, e que Jerusalém seja a 'cidade do encontro', onde cristãos, judeus e muçulmanos vivam em harmonia e respeito", rezou o Papa.

"A guerra é sempre um fracasso, e o envolvimento de civis, sobretudo crianças, assim como a destruição das infraestruturas, não são apenas uma derrota, mas equivalem a permitir que entre os dois contendores o único a vencer seja o mal. Não podemos aceitar de forma alguma que se bombardeiem populações civis ou se ataquem infraestruturas vitais para a subsistência. Não podemos aceitar ver crianças morrerem de frio porque os hospitais foram destruídos e a rede energética de um país foi danificada", destacou o Papa, que também lembrou os conflitos persistentes no Sudão, no Sahel, no Chifre da África ou em Moçambique, assim como no Congo, "onde a população é afetada por graves deficiências sanitárias e humanitárias, agravadas às vezes pela praga do terrorismo, o que provoca perdas de vidas humanas e o deslocamento de milhões de pessoas".

Venezuela e Nicarágua

Myanmar e Haiti também apareceram nas preocupações papais, junto com Venezuela, Bolívia, Colômbia e Nicarágua. "Penso na Venezuela e na grave crise política em que está envolvida. Ela só poderá ser superada com a adesão sincera aos valores da verdade, da justiça e da liberdade, por meio do respeito à vida, à dignidade e aos direitos de cada pessoa — incluindo os daqueles que foram presos devido aos acontecimentos dos últimos meses — graças ao repúdio a qualquer tipo de violência e, desejavelmente, ao início de negociações de boa fé e voltadas para o bem comum do país".

"Penso finalmente na Nicarágua, onde a Santa Sé, que está sempre disposta a um diálogo respeitoso e construtivo, segue com preocupação as medidas adotadas em relação a pessoas e instituições da Igreja e faz votos para que todos tenham garantidos adequadamente a liberdade religiosa e os demais direitos fundamentais", acrescentou.

Respeito à liberdade religiosa

Francisco também defendeu a liberdade religiosa e o "respeito à consciência dos indivíduos e à possibilidade de manifestar publicamente a própria fé e pertencimento a uma comunidade", denunciando "as crescentes expressões de antissemitismo, que condeno firmemente", mas também as "numerosas perseguições" na África e na Ásia, e "as formas mais 'delicadas' de limitação da liberdade religiosa que às vezes se observam inclusive na Europa, onde aumentam as normas legais e as práticas administrativas que 'limitam ou anulam na prática os direitos que as Constituições reconhecem formalmente a cada crente e a grupos religiosos'".

Pensando na Síria, onde "depois de anos de guerra e devastação, parece que está percorrendo um caminho de estabilização", Francisco rogou para que "a integridade territorial, a unidade do povo sírio e as necessárias reformas constitucionais não sejam comprometidas por ninguém, e que a comunidade internacional ajude a Síria a ser uma terra de convivência pacífica onde todos os sírios, incluindo sua componente cristã, possam se sentir plenamente cidadãos e participar do bem comum desta querida nação".

Liberar todos os escravizados

Em seu discurso, o Papa também exigiu "eliminar a escravidão de todos os ordenamentos jurídicos", desde a tradicional até a atual escravidão laboral, a das toxicomanias e, especialmente, o tráfico de seres humanos. "É necessário cuidar das vítimas desses traficantes, que são os próprios imigrantes, obrigados a percorrer a pé milhares de quilômetros na América Central como no deserto do Saara, ou a ter que atravessar o mar Mediterrâneo ou o Canal da Mancha em embarcações improvisadas e abarrotadas, para depois terminar rejeitados ou clandestinos em uma terra estrangeira".

"Com grande pesar, percebo, no entanto, que as migrações ainda estão cobertas por uma nuvem escura de desconfiança", lamentou o Papa, que insistiu na necessidade de "um compromisso comum para investir no âmbito da cooperação para o desenvolvimento, de modo que se contribua para erradicar algumas das causas que induzem as pessoas a emigrar".

Como já fizera em sua bula de proclamação do Jubileu, e recordou em sua mensagem para o Dia da Paz, o Papa pediu o fim da pena de morte, a criação de um fundo para a erradicação da fome com dinheiro proveniente da indústria de armas ou o perdão das dívidas econômicas e ecológicas aos países mais vulneráveis.

Nota do Instituto Humanitas Unisinos - IHU

A íntegra do discurso do Papa Francisco ao Corpo Diplomático, pode ser lido, em português, aqui.

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