Francisco advertiu Israel que os ataques a civis em Gaza são “crimes de guerra”

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09 Janeiro 2024

  • Francisco abriu o ano diplomático do Vaticano perante os embaixadores credenciados junto à Santa Sé: o apelo por dois Estados, a rejeição à invasão russa, as críticas ao regime da Nicarágua, o cuidado com o meio ambiente como caminho para a paz e a "aberrante" maternidade de substituição, estão entre os temas.

  • "Não devemos esquecer que as violações graves do direito internacional humanitário são crimes de guerra, e não basta evidenciá-los, é necessário preveni-los".

  • "Confio que a comunidade internacional promova com determinação a solução de dois Estados (...) assim como um estatuto especial (...) para a Cidade de Jerusalém, de modo que israelenses e palestinos possam finalmente viver em paz e com segurança".

  • "A situação da Nicarágua continua sendo preocupante; é uma crise que persiste há muito tempo com consequências dolorosas para toda a sociedade nicaraguense, em particular para a Igreja Católica", após a perseguição a bispos e padres no país da América Central.

A reportagem é de Hernán Reyes Alcaide, correspondente no Vaticano, publicada por Religión Digital, 08-01-2024.

Um olhar abrangente pela paz a 360 graus, que integra de forma abrangente não apenas os conflitos abertos em todo o mundo, mas também suas causas, consequências e possíveis soluções. Em um discurso no qual revisou corajosamente e com determinação a situação mundial, o Papa Francisco considerou hoje que os ataques a civis nos conflitos em curso na Ucrânia e Gaza são "crimes de guerra" e rejeitou que sejam considerados "danos colaterais", ao mesmo tempo que renovou seu apelo para a adoção de dois Estados para Israel e Palestina durante seu discurso tradicional ao corpo diplomático credenciado no Vaticano, no qual também lamentou a situação preocupante na Nicarágua.

Em um contexto onde parece não haver mais uma distinção clara entre os alvos militares e civis, não há conflito que não acabe de alguma forma atingindo indiscriminadamente a população civil. Os eventos na Ucrânia e em Gaza são uma evidência clara disso", lamentou Francisco ao dirigir sua mensagem aos embaixadores de todo o mundo na chamada Sala das Bênçãos do Palácio Apostólico.

"Não devemos esquecer que as violações graves do direito internacional humanitário são crimes de guerra, e não é suficiente evidenciá-los, mas é necessário preveni-los", enfatizou o pontífice em seu discurso, considerado o ponto central da diplomacia do Vaticano para o ano. Segundo informações do Vaticano, atualmente há 184 Estados que mantêm relações com a Santa , dos quais 91 têm representação em Roma.

Para o Papa, "pode ser que não percebamos que as vítimas civis não são danos colaterais; são homens e mulheres com nomes e sobrenomes que perdem a vida".

O Papa na ocasião de seu discurso ao Corpo Diplomático acreditado junto à Santa Sé. (Foto: Reprodução | Vatican News)

Ataque terrorista em Israel e resposta em grande escala

Em uma análise dos conflitos abertos no mundo e dos grandes desafios para 2024 em termos de paz, o pontífice expressou novamente sua preocupação com a guerra no Oriente Médio e condenou "o ataque terrorista à população de Israel em 7 de outubro passado, no qual tantos inocentes foram feridos, torturados e brutalmente assassinados, e muitos outros foram tomados como reféns".

Após condenar "qualquer forma de terrorismo e extremismo", Francisco afirmou em seu discurso que "não é assim que as disputas entre os povos podem ser resolvidas; na verdade, isso as torna mais difíceis, causando sofrimento a todos".

"De fato, o que provocou foi uma forte resposta militar de Israel em Gaza, que resultou na morte de dezenas de milhares de palestinos, principalmente civis, incluindo muitas crianças, adolescentes e jovens, e provocou uma situação humanitária gravíssima com sofrimentos inimagináveis", desenvolveu Jorge Bergoglio.

Nesse contexto, Francisco reiterou seu apelo "a todas as partes envolvidas para que concordem com um cessar-fogo em todos os fronts, inclusive no Líbano, e para a libertação imediata de todos os reféns em Gaza" e pediu "que a população palestina receba ajuda humanitária e que os hospitais, escolas e locais de culto tenham toda a proteção necessária".

"Confio que a comunidade internacional promova com determinação a solução de dois Estados, um israelense e um palestino, bem como um estatuto especial internacionalmente garantido para a Cidade de Jerusalém, de modo que israelenses e palestinos possam finalmente viver em paz e segurança", solicitou para o futuro da região.

Nesse contexto, o Papa se uniu às vozes que alertam para uma possível regionalização da guerra e afirmou que "o atual conflito em Gaza desestabiliza ainda mais uma região frágil e carregada de tensões".

"Que a comunidade internacional encoraje as partes envolvidas a empreender um diálogo construtivo e sério e a buscar soluções novas para que o povo sírio não tenha que continuar sofrendo devido às sanções internacionais", exemplificou, antes de também expressar preocupação com a situação no Líbano.

Dois anos de guerra na Ucrânia

Além do conflito no Oriente Médio, a mensagem do Papa centrou-se no que ele considerou "os quase dois anos de guerra em larga escala da Federação Russa contra a Ucrânia" e lamentou que "a desejada paz ainda não tenha encontrado lugar nas mentes e nos corações, apesar das inúmeras vítimas e da enorme destruição".

"Não se pode permitir que um conflito que está se deteriorando cada vez mais se prolongue, em prejuízo de milhões de pessoas", destacou sobre a guerra iniciada em fevereiro de 2022.

Após pedir por diversas situações na Ásia e África, o Papa manifestou sua "preocupação também com a tensa situação no Cáucaso Meridional entre Armênia e Azerbaijão, exortando as partes a chegarem à assinatura de um tratado de paz".

A situação na América Latina e o caso da Nicarágua

Ao lembrar da situação nas Américas, Francisco afirmou que, embora não haja guerras abertas na região, "existem fortes tensões entre alguns países, por exemplo, entre Venezuela e Guiana, enquanto em outros, como Peru, observamos fenômenos de polarização que minam a harmonia social e enfraquecem as instituições democráticas".

Assim, ele afirmou que "a situação da Nicarágua ainda é preocupante; é uma crise que se prolonga há algum tempo, com consequências dolorosas para toda a sociedade nicaraguense, especialmente para a Igreja Católica", após a perseguição a bispos e sacerdotes no país centro-americano.

"A Santa não cessa de convidar para um diálogo diplomático respeitoso do bem dos católicos e de toda a população", destacou nesse contexto.

Além de pedir uma redução nos gastos com armamentos e exigir soluções para as crises migratórias abertas no mundo, especialmente no Mediterrâneo.

Em um discurso com uma visão abrangente sobre a paz, o Papa também mencionou os avanços obtidos na cúpula climática COP28 do fim do ano passado e, nesse âmbito, afirmou que há "desastres que também são atribuíveis à ação ou negligência humana e que contribuem gravemente para a atual crise climática, como o desmatamento da Amazônia, que é o pulmão verde da Terra".

O sinal de aprovação duplo a Meloni

Além de sua visão geopolítica, o Papa mais uma vez expressou sua defesa intransigente da vida desde a concepção até a morte natural e considerou explicitamente a maternidade de substituição como lamentável. Assim, em um claro apoio à proposta da primeira-ministra italiana Giorgia Meloni para que a prática seja considerada um crime universal (ou seja, passível de julgamento também para seus cidadãos, mesmo que seja cometido no exterior), Francisco se juntou a esse apelo.

"O caminho para a paz exige respeito à vida, a toda vida humana, começando pela do feto no útero materno, que não pode ser suprimido nem transformado em produto comercial", afirmou nesse contexto.

"Nesse sentido, considero deplorável a prática da chamada maternidade de substituição, que ofende gravemente a dignidade da mulher e da criança; e é baseada na exploração da situação de necessidade material da mãe. Um filho é sempre um presente e nunca o objeto de um contrato. Portanto, faço um apelo para que a comunidade internacional se comprometa a proibir universalmente essa prática", acrescentou depois.

Colonizações culturais

Num plano semelhante, ele voltou a evidenciar suas críticas à chamada "ideologia de gênero" e a considerou parte das "colonizações culturais" da modernidade.

Para o Papa, "novos direitos, nem sempre compatíveis com os originalmente definidos e nem sempre aceitáveis, deram origem a colonizações ideológicas, entre as quais a teoria de gênero ocupa um lugar central, sendo extremamente perigosa porque apaga as diferenças em sua pretensão de igualar a todos", disse.

Além das definições sociais, também no campo migratório, o Papa pareceu apoiar os apelos de Roma, que, juntamente com outros países da região, busca envolver toda a Europa na gestão por meio do aprimoramento do sistema de cotas.

"Diante desse desafio, nenhum país pode ficar sozinho e nenhum pode pensar em abordar a questão de forma isolada, através de uma legislação mais restritiva e repressiva, aprovada às vezes sob a pressão do medo ou em busca de um consenso eleitoral", afirmou, mostrando sua satisfação com o compromisso da União Europeia de "buscar uma solução comum por meio da adoção do novo Pacto sobre Migração e Asilo, embora apontando algumas de suas limitações, especialmente no que se refere ao reconhecimento do direito de asilo e ao perigo de detenção arbitrária".

Nota

A íntegra do discurso do Papa Francisco ao Corpo Diplomático, no dia 08-01-2024, pode ser lido, em português, aqui.

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