Propriedade e poder nas origens do domínio masculino. Artigo de Vinzia Fiorino

Foto: Unsplash

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

27 Novembro 2024

 "É cúmplice, portanto, continuar a classificar a violência masculina como um fenômeno residual e em via de extinção, como um fraco legado de um passado que está fisiologicamente destinado a acabar. Inclusive porque o número de feminicídios não mostra sinais de diminuição". 

O artigo é de Vinzia Fiorino, presidente da Sociedade Italiana das Historiadoras, publicado por Il Manifesto, 24-11-2024. A tradução é de Luisa Rabolini

Eis o artigo.  

Palavras fora de tom, fora de lugar, inadequadas aquelas do Ministro Valditara na apresentação oficial da Fundação que leva o nome de Giulia Cecchettin. Não nos interessa segui-lo em seu caminho, o da suposta responsabilidade dos migrantes “irregulares” pelas violências contra as mulheres, o que, aliás, é desmentido pelos dados. O que nos interessa, em vez disso, é reiterar com veemência e simplicidade que esse tipo de violência é cometido por homens contra mulheres e que, portanto, é inequivocamente o gênero - não a cor da pele nem a condição social ou de emprego - que está no centro do problema.

Intervimos como estudiosas que, nas últimas décadas, produziram numerosos, rigorosos e valiosos estudos que identificaram no antigo (e europeu) ius corrigendi um dos começos dessa história: abolido somente em 1956, ele consistia no direito do homem de “educar e corrigir”, mesmo com o uso da força, a esposa e os filhos e representava um dos muitos locais da construção do domínio masculino. Igualmente crucial é o que, com Carla Lonzi, podemos continuar a chamar de “arquétipo da propriedade”, ou seja, os corpos das mulheres como objetos sexuais e de posse exclusiva do pater familias. Um tipo de propriedade e uma forma de poder, que os maridos tradicionalmente exerceram sobre suas esposas, tão profundos e originais que sobreviveram a muitas cesuras revolucionárias - da francesa de 1789 à russa de 1917 - e a qualquer hipótese de teorias filosóficas contratualistas que reivindicavam os direitos civis e políticos, não por acaso reconhecidos por muito tempo apenas para os homens.

Esses dois pilares de uma ordem social secular certamente foram questionados e profundamente modificados durante um período de grandes mudanças que podem ser totalmente atribuídas ao movimento feminista, que na Itália foi generalizado, capilar e de massa. E que justamente na dinâmica poder/sexualidade centrou sua reflexão, seu interesse teórico e suas principais reivindicações políticas. No entanto, é evidente que a longa série de reformas jurídicas que resultaram disso - apesar de sua imprescindível importância - nunca poderiam ter mudado a ordem simbólica ligada ao patriarcado.

É cúmplice, portanto, continuar a classificar a violência masculina como um fenômeno residual e em via de extinção, como um fraco legado de um passado que está fisiologicamente destinado a acabar. Inclusive porque o número de feminicídios não mostra sinais de diminuição: mais 120 mulheres foram mortas por seus parceiros desde o assassinato de Giulia Cecchettin, lembrou seu pai Gino.

O fenômeno nos questiona e revela mudanças sociais mais recentes: apesar de uma ideia, infelizmente sempre ativa, que vê a história como uma linha evolutiva e progressiva, o fenômeno está se intensificando em relação a um crescimento sistêmico da violência que diz respeito ao aumento dos conflitos armados, à dimensão cruenta de uma cultura visual tremendamente invasiva e anestesiante, especialmente para os mais jovens, a uma profunda transformação antropológica que torna cada vez menos distinguíveis os regimes da realidade daqueles do imaginário e do falso. E, no entanto, com relação a todas essas transformações mais recentes, se reativa fortemente o antigo desejo de um modelo feminino como guardião do vínculo social, garantidor de uma ordem nacional soberanista, que se tornou essencialmente um corpo silenciado e subjugável. Fenômenos complexos e parcialmente contraditórios dos tempos em que vivemos.

Continuaremos a aprofundar o tema, também sob uma nova perspectiva: aquela que investigar as muitas estratégias implementadas por sujeitos representados de forma muito simplista como vítimas, como presas indefesas, mas que são, em vez disso, protagonistas de histórias de resistência e de autodefesa no plano do imaginário e dos saberes.

Leia mais