01 Outubro 2024
"Estou pensando nos pobres, que têm mil rostos - migrantes, doentes, idosos, desempregados, sem-teto, pessoas sozinhas... - e que na Igreja continuam a ser meros destinatários de atos de caridade, sem que a provocação inerente a suas vidas seja compreendida. Citei três assuntos não por acaso, pois estou convencida de que deles emana uma profecia para a Igreja e da Igreja", escreve Paola Bignardi, pedagoga, ex-presidente da Ação Católica, em artigo publicado por Avvenire, 29-09-2024. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Mulheres, jovens, pobres: uma palavra evangélica pode fazer aflorar o futuro. O Sínodo dos Bispos que terá início na terça-feira, 2 de outubro, no Vaticano, despertou muitas expectativas no povo de Deus, que está experimentando cada vez mais as dificuldades de uma vida cristã e eclesial nestes tempos sem precedentes. As formas atuais de vida cristã foram concebidas e vivenciadas em um tempo diferente do atual. Por outro lado, a temporada que estamos vivendo é como se tivesse despencado sobre nós: acima de tudo, a velocidade com que a mudança ocorreu desorientou as comunidades cristãs e desorientou os fiéis. A mudança de época da qual o Papa Francisco fala com frequência é realmente uma mudança de pele, não de roupa, com tudo de doloroso que isso acarreta.
Há uma grande necessidade de esperança, virtude robusta e severa, para dar alma às expectativas, para impedir que elas se transformem em desilusão.
Muitos cristãos esperam que o Sínodo alimente sua esperança com escolhas que toquem os problemas vivos das pessoas deste tempo. Estou pensando nas mulheres, em uma sociedade que ainda está longe de reconhecer seu valor, e na Igreja que, para além das afirmações de princípio, as deixa em uma condição de marginalidade. Estou pensando nos jovens, cuja inquietação e perplexidade lutam para serem ouvidas e acolhidas. Estou pensando nos pobres, que têm mil rostos - migrantes, doentes, idosos, desempregados, sem-teto, pessoas sozinhas... - e que na Igreja continuam a ser meros destinatários de atos de caridade, sem que a provocação inerente a suas vidas seja compreendida. Citei três assuntos não por acaso, pois estou convencida de que deles emana uma profecia para a Igreja e da Igreja. Em diferentes formas, são uma provocação para os cristãos; é tarefa da Igreja dar-lhes voz e tornar audível seu apelo à sociedade. Muitos cristãos esperam que o Sínodo diga uma palavra evangélica sobre essas três condições, sabendo que é precisamente essa tríplice atenção que fará emergir percursos de renovação da comunidade cristã e de sua maneira de proclamar a Palavra que é esperança.
Se o Sínodo se contentar em falar sobre questões internas, o trabalho poderá acabar em fechamentos estéreis. A profecia da Igreja, penso eu, passa hoje por essas três condições que contêm uma graça para todos. Trata-se, então, de alimentar a esperança do dia prometido, o dia em que “seus filhos e as suas filhas profetizarão, os velhos terão sonhos, os jovens terão visões” (Joel 2,28). A esperança começa hoje, é verdadeira hoje e atravessa a vida.
Pede-se à Igreja de hoje a coragem de fazer as mudanças que a tornem a Igreja de hoje, para que o Evangelho seja contemporâneo. Vêm-me à mente as palavras intensas e fascinantes do Papa João XXIII na abertura do Concílio, quando indicou uma meta para aquela assembleia histórica que começou naquele distante 11 de outubro de 1962: não discutir esta ou aquela doutrina, mas fazer com que o ensinamento perene da Igreja fosse ao encontro do homem de nosso tempo. Talvez nos seja pedido hoje que comecemos a viver o Concílio novamente.
Agora que temos uma consciência clara de que o homem contemporâneo - homens e mulheres de hoje - está vivendo uma aventura humana sem precedentes e gostaria de ser ajudado a entender como o Evangelho pode ir ao encontro de sua vida, liberando a presença do Espírito que habita nele.
Este Sínodo acontece às vésperas da abertura do Jubileu: uma coincidência nada trivial, que dá coragem às escolhas de novidade a que o Sínodo é chamado. No ano do Jubileu, milhares de peregrinos viajarão para Roma ou para as várias igrejas jubilares. Que ali, na experiência da reconciliação, possam experimentar a novidade, a novidade de suas vidas em sintonia com uma Igreja em busca de novos caminhos de autenticidade evangélica para viver a missão recebida. O Jubileu, como nos lembra a Escritura, era um ano de libertação, de descanso para a terra, de emancipação dos escravos, de perdão das dívidas: escolhas para um novo começo, quase em busca de uma inocência original. Celebrar o Jubileu significa acreditar que tudo pode começar de novo. Dá muita esperança pensar que há na relação com Deus um tempo de possível recomeço: tempo para nos libertarmos do que prende nossos impulsos e restaurar a graça dos começos. Se isso é verdade para cada um de nós, também é verdade para a Igreja.
Que o Sínodo, no limiar do Jubileu, possa se valer dessa graça para realizar escolhas de novidade.
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