Vaticano: a “revolução cultural” segundo Francisco. Artigo de René Poujol

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06 Fevereiro 2024

E se Christoph Théobald acabasse por nos deixar otimistas quanto ao resultado do Sínodo?

O artigo é de René Poujol, jornalista francês, publicado em seu blog, 30-01-2024. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Existem, para cada um de nós, livros que incitam uma mudança, porque nos transportam para outra dimensão da reflexão sobre temas que nos interessam. É o que aconteceu comigo com “Un nouveau concile qui ne dit pas son nom ?” (“Um novo concílio que não é chamado de concílio”) (1) do teólogo jesuíta franco-alemão Christoph Théobald. O livro documenta o enraizamento da sinodalidade na Tradição da Igreja. Descreve e argumenta a expansão realizada pelo Papa Francisco: da colegialidade episcopal cara ao Vaticano II à sinodalidade de todo o Povo de Deus, de acordo com o espírito do Concílio. Mas, acima de tudo, acaba por nos convencer de que poderia será a entrada do catolicismo numa nova era “messiânica” da sua história. E que esse fato evidente acabará por se impor contra todas as reticências, especialmente eclesiásticas. É preciso ler, com urgência!

Christoph Théobald é um dos nossos melhores teólogos, participou, como especialista, na primeira Assembleia que se realizou em Roma em outubro de 2023. Portanto, ele viveu-a de dentro, depois de ter observado e analisado as fases preparatórias. O seu livro recorda-nos os momentos essenciais desse Sínodo sobre a sinodalidade: a sua convocação oficial pelo Papa Francisco em 10 de outubro de 2021, as diferentes etapas: paroquiais, diocesanas, nacionais e depois continentais da consulta preventiva até à realização da primeira sessão. Destaca os traços mais importantes, ora convergentes, ora divergentes, dos vários textos de síntese provenientes das Igrejas de todos os países e continentes, fielmente assumidos nos documentos oficiais como o Instrumentum laboris. Mas acima de tudo coloca a sua rica cultura teológica e histórica a serviço da contextualização e colocação em perspectiva desse Sínodo. E é aqui que se torna apaixonante.

O “novo” Sínodo como implementação do Concílio

Não é por acaso que o autor abre o primeiro capítulo recordando as afirmações do Cardeal Martini, arcebispo de Milão, já falecido, por ocasião do Sínodo sobre a Europa de 1999. Evocando em seu discurso “questões disciplinares e doutrinárias pouco evocadas nos dias de hoje...” publicamente expressou a sua convicção sobre a urgência de um novo concílio. Sabemos que o Vaticano II nasceu da percepção do Papa "bom" João XXIII da necessidade de uma "atualização" da Igreja católica para tentar preencher a distância que havia sido criada com o mundo moderno. No próprio espírito do Concílio, essa atualização não poderia ser considerada concluída no encerramento dos trabalhos. Por essa razão, Paulo VI, já em 1965, tinha instituído o Sínodo dos Bispos. Com os limites que conhecemos e que estão sublinhados – trinta e cinco anos mais tarde – a partir da proposta de um novo Concílio pelo Cardeal Martini. Hoje, relata Christophe Théobald, a Comissão Teológica Internacional interpreta a sinodalidade de acordo com o Papa Francisco como um convite a superar a “soleira de um novo ponto de partida... seguindo os passos do Concílio Vaticano II” (2).

Em resposta a muitas objeções formuladas por várias partes, especialmente no ambiente eclesiástico e retomadas por alguns fiéis, o livro insiste na inserção da prática sinodal na Tradição. "Desde os primórdios da Igreja e das Assembleias de Jerusalém”, escreve, o caminho sinodal é o único que sempre permitiu “resolver os conflitos”. De fato, foi a Assembleia de Jerusalém, com a presença dos dois “pilares” da Igreja nascente que eram Pedro e Paulo, que decidiu não impor a circuncisão para os convertidos vindos do paganismo. Lemos nos Atos dos Apóstolos: “Então pareceu bem aos apóstolos e aos anciãos, com toda a igreja...” (Atos 15,22). Houve então um “discernimento” coletivo… de toda a Igreja!

Na fé, o povo de Deus é infalível

Christoph Théobald sublinha que o retorno a essa prática original constitui a inovação mais importante introduzida pelo Papa Francisco no dispositivo mais restrito estabelecido por Paulo VI. Passa-se de uma sinodalidade reservada apenas aos bispos, na colegialidade, para uma sinodalidade de todo o povo de Deus, como na origem. E isso tanto na fase inicial de consulta (questionário mundial) como no discernimento final, já que a Assembleia foi ampliada para setenta não-bispos.

Essa “ampliação”, comenta o teólogo, está perfeitamente em conformidade com os textos conciliares, que reconheciam “a infalibilidade na fé” de todos os batizados (LG 12). Mesmo que na Igreja a decisão final permaneça de tipo hierárquico, como, ao que parece, na Assembleia de Jerusalém.

A sinodalidade como forma de regular a vida na Igreja

Outra característica da evolução introduzida pelo Papa Francisco: a passagem de um sínodo - seja diocesano, nacional, continental ou universal - concebido como "evento" específico, convocado de tempos em tempos pela autoridade legítima, para a sinodalidade como "processo" habitual de deliberação e de discernimento na vida eclesial. O que levou o Cardeal Hollerich, secretário geral do Sínodo, a dizer numa conferência em novembro passado: “A sinodalidade começará na paróquia ou não acontecerá” (3). Aquele é evidentemente o primeiro lugar onde, de maneira regular, os fiéis e o clero podem, com igual dignidade batismal, aprender a ouvir-se, a fazer uma releitura do que viveram, a decidir o que seria desejável para a comunidade e a discernir entre si como cada um, dependendo carismas que lhe são reconhecidos, pode contribuir para isso.

A vontade de começar da vida, portanto de realidades culturais diversas, em todos os níveis: paróquias, dioceses, igrejas para países ou continentes… não é desprovida de consequências. Abre à possibilidade de respostas diferentes de acordo com as necessidades de uns e de outros. O que evidentemente atrapalha o centralismo romano.

Christoph Théobald comenta: “O que está em jogo é a difícil saída de uma uniformização pós-gregoriana (a partir do século XI) e sobretudo 'colonial' da Igreja latina, e a transição à sua diferenciação geográfica e cultural". De fato, é o verdadeiro desafio de um “sínodo sobre a sinodalidade", do qual Francisco espera acima de tudo, mais que respostas a questões individuais específicas (celibato sacerdotal, lugar das mulheres na Igreja...) que valide o princípio de uma maior autonomia das Igrejas particulares para melhor responder às necessidades e especifica as modalidades (4). Para Christoph Théobald não há dúvida: “A sinodalização da Igreja é uma verdadeira 'revolução cultural'".

Um Sínodo que não apague nenhum dos “problemas sensíveis”

É difícil fazer aqui uma apresentação exaustiva da obra. Digamos novamente que Christoph Théobald não se exime de nenhuma das questões e nenhuma das reticências levantadas por esse processo, alimentadas pelo temor, legítimo, de pôr em perigo a Unidade da Igreja, ou mesmo a integridade do depósito da fé. Mas ressalta como a consciência viva desses “riscos” está presente nos próprios documentos preparatórios do Sínodo que optaram por não fugir de nenhum dos “problemas sensíveis”. Incluindo as consequências das mudanças pastorais que possam questionar os fundamentos da doutrina. Certamente, nunca a própria instituição havia tão abertamente “se posto em perigo” aceitando colocar tudo sobre a mesa. Não para se tornar mais frágil ou para “destruir a Igreja” como ouve-se em alguns lugares, mas, pelo contrário, apostando na possibilidade de que, iluminado pelo Espírito Santo, o "povo de Deus", reunido em torno dos seus pastores, saiba superar as suas divisões e encontrar caminhos de futuro. “A sinodalidade é o caminho que Deus espera da Igreja no terceiro milênio", dizia o Papa Francisco já em 2015 no seu discurso por ocasião do 50º aniversário da instituição sinodal.

Em todos os lugares da Igreja, formar para a “conversação no Espírito”

Nesse ponto, o caminho para superar possíveis divergências e chegar a um consenso também provisório em relação à “longa marcha” da Igreja, reside na “conversação no Espírito” como método de trabalho. Foi essa “conversação no Espírito” que prevaleceu nas diversas etapas do processo sinodal. Como em Roma, onde se viu, por exemplo, sentar-se à mesma mesa oito pessoas (cerca de cinquenta mesas): uma jovem mulher e um cardeal da Cúria, com igual tempo de palavra. Em que todos se expressavam em rodada e depois, numa segunda rodada, falavam o que haviam encontrado de positivo nas intervenções dos outros, antes de iniciar um debate destinado a construir uma posição comum. Em suma: a realização de um processo de conversão pessoal aberto à consciência comum das reformas a serem abordadas. A contagem de votos da Assembleia de outubro indica que a maioria das 273 votações foi alcançada com maioria superior a 95% dos participantes: cardeais, bispos e não bispos, clero e leigos, homens e mulheres, provenientes dos cinco continentes.

A verdade é que a experiência dos 370 delegados reunidos em Roma em torno do Papa, por mais rica que seja, não é imediatamente transmissível a 1,3 bilhões de católicos em todo o mundo, se eles próprios não tiverem feito a experiência de tal “sinodalidade”. Disso deriva a urgência paroquial acima destacada. Tal convicção leva o autor a reconhecer-se incerto quanto ao resultado final do Sínodo, levando em conta as reticências encontradas. No entanto, a sua convicção parece segura: “Somente levando a sério as resistências em diferentes níveis (...) pode-se esperar que o atual processo sinodal se transforme em via de pacificação, se não de reconciliação e criatividade a serviço da presença missionária da Igreja nas nossas sociedades e no nosso planeta”. E mais adiante: “O atual processo sinodal nos oferece a oportunidade inesperada (um kairós) de sair de uma repetição estéril dessas oposições”.

Por um “messianismo cristão” renovado?

Mas o livro de Christoph Théobald convida-nos a ir mais longe na reflexão. Para ele, existem dois possíveis leituras da sinodalidade na Igreja. “Ou se insere – como uma concessão – na estrutura hierárquica da Igreja, dominante no segundo milênio da sua história, ou torna-se a base de uma nova figura da eclesialidade cristã e católica adaptada ao nosso contexto”. E o contexto é precisamente o que Francisco descreve como uma “mudança de época” da qual o Vaticano II não conseguiu se aperceber plenamente na sua implementação. Pela incapacidade de esclarecer ou superar a distinção entre “poder sagrado” e “status secular”, incapacidade de se abrir a um “messianismo cristão" de total alteridade em relação "ao outro e a todos os outros" que acreditam de forma diferente, sejam eles judeus, seguidores de outras religiões ou ateus. Se a sinodalidade é um convite a “caminhar juntos” é precisamente, em última análise, à toda a humanidade que se dirige a proposta, um convite feito a cada um, independentemente de suas convicções, de entrar em diálogo, de dedicar tempo ao encontro, à escuta e ao discernimento a serviço de todos e do futuro da nossa casa comum: a terra. Salvo depois, para o cristão, confessar ao longo do caminho Aquele que o faz viver. Porque essa é a vocação última de uma Igreja cujos limites ninguém conhece...

Da inquietude à esperança…

Permita-me um último desenvolvimento pessoal aqui. Com esse livro redescobri a emoção que me tomou aos vinte anos, ao ler os primeiros textos do Concílio (...), como, no verão de 2013, ao ler a entrevista do Papa Francisco às revistas jesuítas (5). Na época escrevi “Como uma carta recebida quarenta e cinco anos depois”, aludindo ao encerramento de um Concílio do qual, como outros, me sentia órfão. Eis que Christoph Théobald alimenta aqui minha certeza de que o pontificado de Francisco deve ser lido precisamente como uma superação da visão de leitura “literal” do Vaticano II e, em vez disso, como uma inserção na fidelidade do melhor do Espírito que o vivificava. Ele cita esta frase de Ghislain Lafont: “Minha convicção é que com o Vaticano II não estamos lidando com uma nova reforma, mas com uma nova etapa da história da Igreja que começou”.

Quem lê regularmente o meu blog sabe o quanto a minha adesão ao processo sinodal iniciado pelo Papa Francisco foi acompanhada desde o início por uma verdadeira inquietude. Que diz respeito em parte ao desconhecido sobre as propostas que serão formuladas no próximo outono, no final da segunda sessão da Assembleia Sinodal. Diz respeito também às conclusões que o Papa Francisco tirará dela na sua exortação apostólica que terá, então, valor magisterial.

Para dizer a verdade, a minha preocupação diz respeito sobretudo à forma como esse Sínodo será “recebido” no sentido de aceito, compreendido e lealmente implementado. Uma preocupação alimentada pela pouca atenção percebida entre os nossos bispos e ainda mais entre uma franja não negligenciável do clero, muitas vezes jovem, como notaram muitos observadores, na França e noutros países. O paradoxo, expresso em palavras cuja subjetividade e talvez injustiça admito, é sentir a ação profética de um Papa talvez travada por clérigos nostálgicos de outra visão de Igreja, mais tradicional, próxima de um catolicismo identitário, se não simplesmente patrimonial. Esse sentimento em mim vem de longe. Em 2018 intitulei um artigo: “Será o Papa Francisco o Gorbachev da Igreja católica?”, ou seja, mais admirado externamente do que ouvido pelos seus fiéis?

O questionamento, para mim, continua presente, tantos são numerosos aqueles que persistem em acreditar que Francisco não terá sido mais do que “um momento passageiro ruim” antes de redescobrir a Igreja “de sempre”, certa de possuir, ela sozinha, a única Verdade. Em relação a uma sucessão, que chegará mais cedo ou mais tarde, temo menos um possível retrocesso do que uma desobediência generalizada. Peço desculpas àqueles que possam se sentir ofendidos por essa afirmação.

A minha sensação – o meu medo – era que a desilusão e o desânimo de alguns não fossem proporcionais à esperança neles nutrida pelo pontificado de Jorge Mario Bergoglio. Com, como consequência, a escolha de seguir, depois de tantos outros, o caminho do exílio sem volta. Eu estava nesse ponto, há oito dias, antes de abrir o livro de Christoph Théobald. Ao lê-lo, encontrei tamanho alívio, tamanha convicção de que a visão de Francisco é verdadeiramente profética, a ponto de fazer entrar o catolicismo numa nova era, que um medo específico se dissolveu. Porque vislumbrei aquela que poderia ser a alternativa ao exílio. Aquela de comunidades crentes que colocam em prática essa eclesiologia “como adultos”, com ou sem os seus padres e os seus bispos, sem pedir nada a ninguém, mas esperando tudo! “Pois é necessário que haja divergências entre vocês, para que sejam conhecidos quais entre vocês são aprovados.” (1Cor 11,19)

Referâncias

1.Christoph Théobald, Un nouveau concile qui ne dit pas son nom? “ Ed. Salvator, 2023, 192 p., 18€.

2.Comissão Teológica Internacional, Sinodalidade na vida e na missão da Igreja. n°9. Texto disponível no site do Vaticano.

3.Cardeal Hollereich, Conferência 15 de novembro de 2023 em Arlon (Bélgica) Cathobel

4.Como não projetar essa grade de leitura sobre a tempestade presente em torno da Fiducia supplicans?

5.Entrevista retomada no livro: "L'Eglise que j'espere". Flammarion/Etudes 2013, 240 p.

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