A Igreja ainda é muito eurocêntrica e pouco africana. Artigo de Donald Zagoré

Foto: Christian Chavarria Ayala | C_Kastner_flm

Mais Lidos

  • Conhecer Jesus. Artigo de Eduardo Hoornaert

    LER MAIS
  • Freira de 82 anos é morta em convento brasileiro

    LER MAIS
  • Para o pesquisador e membro do coletivo Aceleracionismo Amazônico, é necessário repensar radicalmente as possibilidades políticas tributárias de um paradigma prenhe de vícios modernos

    Pensar de modo abolicionista produz uma ética da generosidade. Entrevista especial com Bräulio Marques Rodrigues

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

27 Mai 2023

À luz da comemoração do Dia Mundial da África no dia 25 de maio, o teólogo e padre católico Donald Zagoré, SMA afirma que um ethos eurocêntrico ainda permeia e quer dominar a Igreja universal.

Zagoré é presbítero católico da Costa do Marfim e membro da Sociedade das Missões Africanas (SMA). O artigo é publicado por La Croix International, 24-05-2023. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

Em sua reflexão sobre a música sacra em sua obra póstuma “Che cos’è il Cristianesimo. Quasi un testamento spirituale” [O que é o cristianismo. Quase um testamento espiritual] (Mondadori, 2023), o falecido Papa Bento XVI levanta uma questão pertinente que merece ser analisada profundamente e sob vários ângulos. A questão é esta: “Como o Concílio pode ser implementado em sua inteireza?”.

Che cos’è il Cristianesimo. Quasi un testamento spirituale, de Bento XVI (Foto: Divulgação)

De fato, o que ocorreu no Concílio Vaticano II (1962-1965) foi a atualização da universalidade da Igreja Católica. Como podemos entender essa noção de universalidade e como podemos vivê-la, já que ela é a própria essência da Igreja? O conceito de universalidade da Igreja pode ser compreendido de uma forma muito simples em dois níveis.

A sombra do eurocentrismo

Em primeiro lugar, essa universalidade significa que a Igreja é para todos, e Bento XVI esclarece isso muito bem com estas palavras: “‘Católica’: esse atributo da Igreja (...) recorda-nos que a Igreja de Jesus Cristo nunca concerniu a um único povo ou a uma única cultura, mas que, desde o início, ela foi pensada para toda a humanidade”.

Isso significa que a Igreja é propriedade de todos. Não é de forma alguma uma propriedade exclusiva de uma parte da humanidade. Nesse sentido, a lógica seria que todos – sem exceção de cor de pele, localização geográfica ou cultura – pudessem participar ativamente, com suas qualidades e dons, da vida da Igreja.

Mas esse ideal esbarra em uma certa hierarquia de valores na atualização dessa dinâmica fraterna na Igreja. A tragédia é quando essa hierarquia de valores é levada em frente por figuras importantes da Igreja.

Bento XVI infelizmente faz este comentário que deixa muitos de nós perplexos:

“No âmbito das diferentes culturas e religiões, está presente uma grande literatura, uma grande arquitetura, uma grande pintura e uma grande escultura. E, por toda a parte, também a música. No entanto, em nenhum outro âmbito cultural existe música de igual grandeza àquela nascida no âmbito da fé cristã: de Palestrina a Bach, de Handel até Mozart, Beethoven e Bruckner. A música ocidental é algo único, que não tem nada igual em outras culturas. E isso – parece-me – deve nos fazer pensar (...) Ela encontra a sua origem mais profunda, em todo o caso, na liturgia do encontro com Deus.”

Essa abordagem carrega consigo as sementes da supremacia ocidental sobre as outras culturas no campo católico. Isso abre as portas a graves discriminações, relegando os outros povos e suas culturas para o segundo plano. É a expressão atípica da manifestação da cultura europeia como a alma do cristianismo. Isso certamente influenciou muito o cristianismo, mas não é o centro dele. O cristianismo foi construído pela mistura de várias culturas.

Foi e ainda é muito difícil libertar a Igreja do eurocentrismo. E a África é o continente que mais sofre com isso, devido à colonização, que continua sendo a expressão de sua derrota cultural, política, econômica e até religiosa.

Há um ethos europeu que considera a África como inferior ou menor, o que explica a dificuldade da África e de seu povo de desfrutarem de um espaço real de expressão e de ação dentro da Igreja, especialmente em suas esferas mais altas. É necessário desconstruir essa mentalidade de supremacia cultural e religiosa, sobretudo no atual contexto em que a Europa já não é uma garantia dos valores cristãos.

E isso nos abre para o segundo aspecto da universalidade da Igreja.

A Igreja Católica e a cultura

Em segundo lugar, a universalidade (catolicidade) significa que a Igreja é católica porque é idêntica no seu fundamento em cada cultura, até mesmo em todas as culturas. Isso significa que os valores e as virtudes que emergem a partir de sua essência não podem variar de uma cultura para outra. A essência da Igreja é Cristo, e Cristo é a expressão dos valores e das virtudes que promovem a vida em sua forma mais radical.

É aí, de fato, onde se encontra toda a complexidade em relação à cultura europeia hoje dentro da Igreja Católica. Essa cultura europeia, que por muito tempo se considerou a alma do catolicismo, já não carrega mais consigo os valores e as virtudes que o catolicismo defende. Também parece ser uma cultura que se distancia cada vez mais da prática religiosa sacramental, o lugar por excelência onde “Cristo renova sua presença e sua vida em nós” (Robert Sarah, “Catechism of the Spiritual Life”, Paris, 2022). A cultura europeia não é mais cristã.

A tragédia é que um ethos europeu tem dificuldade de aceitar essa realidade e quer impor sua percepção sobre toda a Igreja, com uma tendência a querer reescrever a doutrina da Igreja Católica para trazer à tona novas tendências. Sendo universal, a Igreja não pode de forma alguma ter valores e virtudes contraditórios. Isso abriria as portas para uma feroz luta política pelo controle das altas autoridades da Igreja.

Mas não é preciso se desesperar. A Igreja é obra de Jesus Cristo. Como ele disse a Pedro: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja. E as portas do inferno jamais poderão vencê-la” (Mt 16,18).

Leia mais