Ratzinger pós-Vaticano II. Resenha sobre a nova biografia de Bento XVI

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10 Dezembro 2021

 

“Como no primeiro volume [da biografia de Bento XVI], Peter Seewald lança uma luz simpática e apreciativa sobre o 'mistério de Ratzinger': progressista e conservador, amado e criticado, forte e fraco. A explicação de Seewald é que Joseph Ratzinger permaneceu o mesmo, enquanto o mundo passava por uma série de convulsões. E ele estava no centro da tempestade não por acaso, mas porque percebeu de forma mais aguda do que a maioria o que essas mudanças significavam: a era do dogma marxista estava passando, apenas para ser substituída por uma ideologia relativista que era mais sutilmente subversiva e, de fato, manipulativa. É por isso que a infância e a adolescência de Ratzinger são tão importantes”, escreve Jean Duchesne, cofundador da edição francesa da revista Communio e executor literário do cardeal Jean-Marie Lustiger e do padre Louis Bouyer, em artigo publicado por First Things, 06-12-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis o artigo.

 

Nova biografia de Bento XVI,
escrita pelo jornalista alemão Peter Seewald
(Foto: Divulgação)

Menino bávaro, tímido, intensamente católico, amante de gatos e de música, crescido na Alemanha nazista, torna-se um pensador acadêmico de primeira classe e, então, contra sua própria vontade, sucessivamente arcebispo de Munique, defensor da doutrina da Igreja no Vaticano e, finalmente, Papa – antes de renunciar sensacionalmente. Tal história não pode deixar de inspirar biógrafos, e quem mais conseguiu roer esse osso premiado foi, sem dúvida, o jornalista alemão Peter Seewald. Seewald foi criado como católico, mas se tornou um ateu de esquerda na juventude, antes de trabalhar para jornais respeitados como Der Spiegel, Stern e Süddeutsche Zeitung. Desde 1996, ele publicou cerca de meia dúzia de conversas ou livros sobre o cardeal Ratzinger-Bento XVI, todos traduzidos para as principais línguas do mundo. Os encontros de Seewald com Ratzinger ajudaram a levá-lo de volta à fé; eles também produziram seu maior feito, uma biografia monumental de 1.200 páginas lançada em um volume em alemão e dois volumes em inglês: o segundo acaba de ser publicado.

Como no primeiro volume, ele lança uma luz simpática e apreciativa sobre o “mistério de Ratzinger”: progressista e conservador, amado e criticado, forte e fraco. A explicação de Seewald é que Joseph Ratzinger permaneceu o mesmo, enquanto o mundo passava por uma série de convulsões. E ele estava no centro da tempestade não por acaso, mas porque percebeu de forma mais aguda do que a maioria o que essas mudanças significavam: a era do dogma marxista estava passando, apenas para ser substituída por uma ideologia relativista que era mais sutilmente subversiva e, de fato, manipulativa. É por isso que a infância e a adolescência de Ratzinger são tão importantes. A biografia escrita por Seewald mostra claramente não só que os católicos bávaros piedosos como ele resistiram intuitivamente ao nazismo e foram oprimidos de muitas maneiras (sutis ou não), mas também que ficaram consternados ao ver que alguns cristãos aceitaram acomodação com a ideologia hitleriana. Esta experiência é semelhante à que o jovem Karol Wojtyla teve de enfrentar na Polônia durante a ocupação alemã e depois sob o regime marxista. Se os dois homens compartilhavam os mesmos insights teológicos, uma razão pode muito bem ser que eles já haviam sobrevivido a provações idênticas que tanto desafiaram quanto fortaleceram sua clarividência e crenças centrais. Os dois jovens perceberam que o totalitarismo proibia o acesso pessoal a verdades necessariamente transcendentes.

Seewald persuasivamente identifica três discursos como momentos decisivos, não apenas na vida de Ratzinger, mas na história moderna. Duas são óbvias: a homilia de Ratzinger no funeral de João Paulo II em 2005, que fez os cardeais concluírem que ele era, nas palavras do então cardeal Bergoglio, “o único homem com estatura, sabedoria e experiência necessária para ser eleito” – e seu breve anúncio de sua renúncia em 2013. Um esclarecedor “posfácio” final, uma pergunta e resposta de sete páginas com o papa emérito, deixa claro que sua renúncia definitivamente não foi devido a nenhum escândalo ou crise: ele simplesmente sabia que estava muito fraco para atender às demandas físicas do trabalho.

O primeiro dos três discursos que Seewald aponta foi o que Ratzinger escreveu para o cardeal Frings em 1961. O discurso argumentou que um novo concílio era bem-vindo, porque o catolicismo sempre havia aproveitado ao máximo a cultura contemporânea e os avanços científicos e tecnológicos mudaram o mundo desde o Vaticano I. Mas ele também previu que o domínio do Ocidente secularizado seria desafiado pelas culturas asiática e africana. Concluiu que a Igreja pode contar com as renovações espirituais, litúrgicas, bíblicas e teológicas já em curso para promover a comunhão a que aspira a humanidade e que nenhuma ideologia pode proporcionar. O discurso impressionou João XXIII e deu o tom para o Vaticano II, que de fato se inspirou nessas novas tendências. Ratzinger desempenhou um papel fundamental no Vaticano II como conselheiro teológico; foi também no Concílio que fez amizade com Henri de Lubac e Karol Wojtyla.

Como Seewald argumenta, Ratzinger permaneceu fiel a esses insights; foram Küng e outros, não ele, que enlouqueceram após o Vaticano II, se passando por profetas e alegando que o Concílio não tinha ido longe o suficiente. É verdade que os primeiros trabalhos de Ratzinger lhe renderam a reputação de “modernista” em alguns círculos, graças à sua ênfase – em contraste com a então dominante escola neoescolástica – no relacionamento pessoal do cristão com Cristo. Ele sustentou, por exemplo, que Tomás de Aquino era menos sistemático e mais sutil do que seus seguidores, e que São Boaventura deveria ser lido não apenas como um filósofo na tradição platônica agostiniana, mas como abrindo caminho para uma experiência mística mais profunda de Deus.

Seewald não explora em profundidade os primeiros escritos de Ratzinger, ou seus primeiros passos acidentados na academia. (Ele teve que abandonar a primeira parte de sua tese de doutorado sobre Boaventura, um sinal de sua originalidade perturbadora.) Em geral, o tratamento de Seewald do pensamento de Ratzinger é bastante incompleto. Introduções mais adequadas podem ser encontradas em obras de Aidan Nichols, Georg Weigel e Elio Guerrero. Esses autores demonstram que a vida de Ratzinger se ateve à experiência religiosa, para encontro existencial dos crentes com os ensinamentos da Igreja e a liturgia, e também para a influência inevitável da cultura contemporânea sobre a compreensão da religião e da prática católica. Ele estava genuinamente interessado em novas ideias e debates atuais, e não criticava sistematicamente, mas sempre avaliou acuradamente suas implicações. Como prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, e depois como Papa, Ratzinger esteve distante da caricatura de “Rottweiler de Deus”: ele mais objetivava comunicar os fundamentos do cristianismo do que observar o que estava ocorrendo no mundo e os possíveis distúrbios dos crentes.

A narrativa de Seewald é meticulosa, a ponto de o leitor às vezes perder o fio da meada. Às vezes, parece que o biógrafo não quer deixar de lado nenhum pedaço da impressionante massa de informações contextuais que acumulou. Além disso, nem tudo é preciso. Um francês levantará uma sobrancelha ao ler que o teólogo dominicano Marie-Dominique Chenu, era belga; ou que o cardeal Ratzinger foi premiado com a Legião de Honra, tanto em Roma (no Volume I, capítulo 19: verdadeiro), quanto em Paris (no Volume II, capítulo 6: falso) no mesmo dia; ou que foi eleito para a Académie Française (na verdade, era a Academia de Ciências Morais e Políticas); ou que os revolucionários de 1789 perseguiram os jesuítas, cuja ordem depois foi dissolvida em 1763. Além disso, a história do nascimento da revista teológica internacional Communio (Volume II, capítulo 8) é um tanto superficial e não corresponde ao que os ainda vivos, como eu, lembram vividamente: os princípios fundamentais – descentralização editorial, pontes com a cultura secular e a participação de acadêmicos leigos – são ignorados, assim como o papel-chave do cardeal jesuíta francês Jean Daniélou. Essas aproximações lançam dúvidas sobre as toneladas de detalhes factuais que não podem ser verificados.

No entanto, o livro é escrito de forma nítida, consistentemente divertido e frequentemente instigante; através das observações de Seewald e sua coleta de testemunhos de outras pessoas, ele revela o cara manso e perspicaz por trás da celebridade eclesiástica.

 

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