“Papa Francisco, voando sozinho”. A geopolítica do Vaticano entre o Ocidente e o resto. Artigo de Massimo Faggioli

Foto: Unsplash

22 Setembro 2022

 

“O papa argentino deixou para trás o alinhamento da Santa Sé com o Ocidente, mas também não pode contar com esse 'resto' do mundo. A erosão da fé no Ocidente se choca no Vaticano à falta de interlocutores credíveis nas potências globais em ascensão”, constata o historiador italiano Massimo Faggioli, professor da Villanova University, Filadélfia, EUA, em artigo publicado por La Croix International, 20-09-2022. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis o artigo.

 

A imagem do avião papal sendo escoltado por caças militares F16 no Cazaquistão durante a recente visita do Papa Francisco ao país da Ásia Central transmite uma mensagem paradoxalmente precisa e enganosa: que o papado pode contar com o apoio de Estados e líderes que têm relações formais com a Santa Sé.

 

 

Na verdade, Francisco está voando sozinho agora – não apenas no Vaticano, mas também na arena internacional.

 

O papa foi à capital Nur-Sultan para participar do VII Congresso de Líderes das Religiões Mundiais e Tradicionais, bem como para visitar a pequena comunidade católica do Cazaquistão.

 

E ele novamente apareceu como um líder da Igreja que está tentando evitar que a ruptura da ordem global, atualmente manifesta em guerras regionais, se torne uma conflagração de conflitos nucleares – um risco que a invasão russa da Ucrânia tornou mais concreto.

 

É uma mensagem profética que não deixa dúvidas sobre a posição do papa de 85 anos sobre o papel das religiões na construção de um mundo mais pacífico.

 

Mas já se foram os dias em que os líderes mundiais elogiavam, mesmo como um exercício retórico, a sabedoria do chefe da Igreja Católica.

 

Esse foi o período após a Segunda Guerra Mundial, durante a Guerra Fria, e no início da ascensão dos fundamentalismos religiosos e da ruptura da ordem internacional durante os pontificados de João XXIII, Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI.

 

A maioria das pretensões de deferência ao papado agora caiu – nos Estados Unidos de Trump e em grande parte do resto do mundo.

 

Sozinho no palco mundial

 

As últimas semanas e meses em uma área-chave da nova desordem global, entre o mar Mediterrâneo e a Ásia, mostraram como Francisco e a Santa Sé estão sozinhos agora no cenário mundial.

 

Enquanto o papa estava deixando o Cazaquistão, a 22ª reunião do Conselho de Chefes de Estado da Organização de Cooperação de Xangai – SCO já estava em andamento na cidade cazaque de Samarcanda.

 

Participaram da reunião de 15 a 16 de setembro os líderes de Estados membros como Rússia, China, Índia e Paquistão. Havia também figuras importantes de nações observadoras, como Afeganistão e Irã, e de parceiros de diálogo, como a Turquia.

 

Foi um evento que consagrou “a ascensão do resto” (do mundo), como o comentarista Fareed Zakaria chamou o desenvolvimento de outros países em um mundo definido por uma difusão de poder muito maior em comparação com a era da Guerra Fria e dos impérios antes mesmo.

 

Isso cria uma situação muito particular para o papado e a Santa Sé, representando a autoridade moral da Igreja Católica trabalhando no cenário global pela paz e pelo diálogo usando as ferramentas desarmadas da persuasão moral.

 

O momento atual de tensões crescentes na Europa (a guerra na Ucrânia), na América Latina (a situação da Nicarágua), no Oriente Médio, na África e na região do Indo-Pacífico (China, Hong Kong e Taiwan e os efeitos em cascata na Ásia como um todo) torna particularmente difícil para o Vaticano não apenas gerar, mas até mesmo falar sobre diálogo e cooperação.

 

O Vaticano tem relações complicadas especialmente com muitos dos países representados em Samarcanda, devido aos limites que seus governantes e ditadores impuseram à liberdade religiosa e aos direitos humanos.

 

Esta é uma das consequências do estado precário da democracia e do constitucionalismo que se vê atualmente em todo o mundo.

 

Alinhamento com o Ocidente? Não mais...

 

Ao mesmo tempo, sob Francisco, a visão de mundo do Vaticano nunca esteve mais distante do modelo social e político ocidental, particularmente agora que esse modelo está em crise e em guerra consigo mesmo, especialmente nos Estados Unidos.

 

Como ele disse na entrevista coletiva do voo de volta a Roma: “O Ocidente, em geral, não está no mais alto nível de exemplaridade agora. Não é uma criança em sua primeira comunhão, de forma alguma. O Ocidente tomou caminhos errados; pense, por exemplo, na injustiça social que existe entre nós”.

 

E as eleições gerais que acontecerão no próximo domingo na Itália podem produzir um resultado que pode redefinir a relação geopolítica entre o país onde o Vaticano está localizado e o resto da Europa Ocidental, dada a adoção da direita italiana por um tipo de democracia iliberal e autoritária.

 

O papa argentino deixou para trás o alinhamento da Santa Sé com o Ocidente, mas também não pode contar com esse “resto” do mundo. A erosão da fé no Ocidente se choca no Vaticano à falta de interlocutores credíveis nas potências globais em ascensão.

 

Não importa o que o papa também disse na coletiva de imprensa a bordo sobre o fato de que o diálogo exige tempo e paciência, nações como Rússia e China são cada vez mais percebidas (mesmo em Roma) como estando em desacordo com os princípios mais básicos da ordem internacional que a Santa Sé ajudou a criar ao longo do último meio século.

 

Dificuldades geopolíticas e o próximo conclave

 

Francisco e seu secretário de Estado, cardeal Pietro Parolin, frequentemente invocam a necessidade de “um novo espírito de Helsinque”.

 

Mas isso exigiria uma estrutura institucional, como a da Conferência sobre Segurança e Cooperação na Europa há 50 anos, bem como a disposição básica dos líderes mundiais para dialogar. Nenhum dos dois existe atualmente.

 

As dificuldades geopolíticas que a Santa Sé deve enfrentar na atual situação de incerteza também devem ser vistas no contexto da incerteza sobre o futuro do próprio papado.

 

A reunião de todos os cardeais em Roma, de 29 a 30 de agosto, mostrou que é ainda mais difícil do que o habitual prever quem será o próximo a ocupar a cátedra de Pedro. Esta é uma característica, não um erro, do atual Colégio de Cardeais, como fora moldado por Francisco.

 

Atualmente, há cardeais de todos os continentes e 86 países. Desses países, 68 terão pelo menos um cardeal-eleitor no final de 2022.

 

60 anos após a abertura do Concílio Vaticano II (1962-65), existem alguns países historicamente importantes para o catolicismo – como a Irlanda – que atualmente não têm cardeais-eleitores.

 

E nem os países que são importantes para o futuro da Igreja, como Austrália e China. No entanto, Nova Zelândia, Papua-Nova Guiné e Tonga têm um cardeal que pode votar em um conclave.

 

Tudo isso significa que é impossível supor muito sobre como o próximo papa abordará as relações internacionais do Vaticano. E isso é algo que os centros de poder político, diplomático e militar – tanto no Ocidente quanto no resto – conhecem muito bem.

 

 

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