Por que a adversidade é na realidade prosperidade? Kierkegaard explica

Fonte: Pikist

Mais Lidos

  • Conhecer Jesus. Artigo de Eduardo Hoornaert

    LER MAIS
  • Freira de 82 anos é morta em convento brasileiro

    LER MAIS
  • Para o pesquisador e membro do coletivo Aceleracionismo Amazônico, é necessário repensar radicalmente as possibilidades políticas tributárias de um paradigma prenhe de vícios modernos

    Pensar de modo abolicionista produz uma ética da generosidade. Entrevista especial com Bräulio Marques Rodrigues

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

17 Setembro 2020

O filósofo dinamarquês Sören Kierkegaard conjugou como poucas vezes na história um enorme talento literário, encanto e criatividade, com profundidade psicológica e penetração filosófica. Kierkegaard compartilha estes atributos com outro grande filósofo do século XIX, Friedrich Nietzsche. Freud disse que Nietzsche era o homem que melhor conhecia a si mesmo, mas Kierkegaard é tão psicologicamente habilidoso como Nietzsche e como escritor também não é menos. Wittgenstein observou que Kierkegaard foi o pensador mais profundo do século XIX. Há alguns dias, escrevendo para El País, o filósofo e astrofísico Juan Arnau observava que, de todos os filósofos, o melhor escritor é Kierkegaard.

A reportagem é publicada por PijamaSurf, 16-09-2020. A tradução é do Cepat.

Kierkegaard, assim como Nietzsche, morreu jovem, mas foi incrivelmente fecundo. Deixou uma vasta obra que ainda que aparentemente seja muito conhecida, não é apreciada como deveria ser. Realmente não se domina muito Kierkegaard, e inclusive poderíamos dizer sem medo de errar que o filósofo dinamarquês foi subestimado. Kierkegaard pode ser lido de diversas maneiras: como polemista, como humorista, como crítico, como teólogo, como narrador e outras facetas mais, mas sempre predomina em sua obra uma capacidade de iluminar elementos da realidade e do pensamento, não tanto por meio de um relâmpago, mas por uma espécie de intrincada ourivesaria, de uma paciente recorrência que tem a contemplação como modelo.

Em uma passagem de seus Discursos cristãos, Kierkegaard nos oferece uma demonstração de sua sabedoria. Kierkegaard começa uma parte do texto dizendo: “A adversidade [Modgang] é prosperidade [Medgang]”. A esta simples frase - que em dinamarquês é também um jogo de palavras e que, além disso, podemos qualificar como um oxímoro, em suma, um elegante e elevado jogo de palavras -, Kierkegaard dedica uma reflexão de várias páginas. O filósofo destaca rapidamente que tal afirmação não é uma brincadeira ou uma mera provocação. É uma sentença verdadeira, pois realmente o mundo está de cabeça para baixo.

Kierkegaard define a prosperidade como “aquilo que me ajuda a chegar a uma meta. O que me leva a uma meta. E a adversidade é o que me impede de chegar à meta”. E acrescenta: “só aquele que possui a verdadeira concepção do que é a meta para os seres humanos, conhece também o que são a adversidade e a prosperidade”.

Kierkegaard observa um erro fundamental na maneira como as pessoas concebem o sentido da existência humana. “A meta de uns é a temporalidade, a de outros, a eternidade”. Esta é a distinção fundamental. Para as pessoas que buscam o temporal, a prosperidade é radicalmente oposta aos que buscam a eternidade. É por isso que para alguns a prosperidade se torna adversidade e para outros a adversidade se revela como prosperidade.

O mundo está de cabeça para baixo, o ser humano está confuso e persegue um objetivo falso. “A temporalidade pressupõe que todos sabem muito bem o que é a meta, de tal forma que a única diferença entre as pessoas está em se são capazes ou não de alcançá-la”. Aqui, vemos claramente uma crítica à sociedade, ao mundo convencional no qual as pessoas perseguem prazeres e conquistas mundanas como o êxito e o poder.

“O que pode impedir uma pessoa de chegar à meta? Certamente é o temporal. E de que forma? Quando o que ordinariamente se chama prosperidade leva uma pessoa a alcançar a meta da temporalidade... [e assim] fica mais longe de alcançar a meta”, avalia.

Ao contrário da temporalidade, a eternidade está em ir na contracorrente, ou seja, ir contra o que se entende comumente como prosperidade, pois, nesse caso, as pessoas não sabem qual é a meta e devem fazer uma guinada.

Em um sentido profundo, aquele que sofre, aquele que parece ser desventurado e que experimenta uma vida cheia de adversidade, goza de uma maior prosperidade, pois está mais perto de uma mudança de objetivo, de olhar para a eternidade. Mas Kierkegaard não elogia o sofrimento em si, mas o modo como é experimentado. Na realidade, só quem sofre, quem enfrenta a adversidade sem prestar atenção ao fato de que outros rotulam isto como “adversidade”, sem se alterar por ela, mantendo-se firme em sua passagem para o seu objetivo, que se dirige ao eterno, é digno da elevada meta, da própria eternidade.

A meta autêntica, segundo Kierkegaard, é a eternidade, ou seja, uma divina vida infinita, o “reino do céu”. O essencial é que não se busque algo antes. Por mais paradoxal que possa parecer, a não-busca da eternidade é a única coisa pela qual a pessoa deveria procurar. O filósofo nos diz que é necessário “renunciar voluntariamente a meta da temporalidade”. Simone Weil, uma filósofa que tem importantes paralelos com Kierkegaard, diz algo parecido: o que o ser humano deve fazer é renunciar voluntariamente a este mundo, a sua própria importância pessoal, ao que Kierkegaard chama de temporalidade, e esse “não” é, ao mesmo tempo, o “sim” à divindade.

Em última análise, o que parece ser uma maldição, algo que nos faz incapazes de “triunfar” no mundo, revela-se como uma benção, como uma inclinação para um modo de existência mais profundo. “O que se chama adversidade impede que o sujeito que sofre alcance as metas da temporalidade. A adversidade torna isso difícil para ele, talvez impossível”. Em última instância, quem vive adversidades tem maior fortuna, pois quem prospera também terá que renunciar para encontrar o verdadeiro objetivo da existência. E é mais fácil renunciar quando não se tem muito. Kierkegaard é neste aspecto muito pragmático.

O filósofo faz também um chamado a se regozijar na adversidade. Diz que há um tipo de bem-aventurança na qual a adversidade é prosperidade: “Portanto, que você também tenha fé em que a adversidade é prosperidade. Entender é fácil, acreditar é difícil... Enquanto você não acreditar, a adversidade permanece adversidade. Não ajuda que você saiba que é eternamente certo que a adversidade é prosperidade. Enquanto você não acreditar, não é verdade para você”.

Vemos aqui como o filósofo dinamarquês reconfigura e ressignifica a experiência, demonstrando tanto habilidade literária, como sabedoria religiosa. E sua tese vale tanto para a vida religiosa como para a vida secular. Pois, como disse também Nietzsche, por acaso, a adversidade não nos torna mais fortes? Não dependemos também de nossos “inimigos” para crescer? Por acaso, não é verdade que as doenças, as perdas, os obstáculos nos obrigam a nos separar do grosso da sociedade e dos sonhos coletivos e nos fazem prestar atenção naquelas coisas que são essenciais? É verdade que a adversidade é prosperidade, mas não adianta apenas conceitualizar, é necessário que se viva a adversidade como prosperidade, e que nisso haja alegria. É essa alegria na adversidade que nos permite experimentar a eternidade já no próprio tempo.

Leia mais