13 Abril 2026
O presidente dos EUA insulta o Papa ao partir para uma viagem histórica à África, depois que Prevost elevou a voz e convocou uma vigília de oração pela paz na Basílica de São Pedro. Bispo Coakley: "Estou com o coração partido por palavras tão depreciativas." Padre jesuíta Martin: "Anticristão."
A reportagem é de Iacopo Scaramuzzi, publicada por La Repubblica, 13-04-2026.
Numa atitude sem precedentes, Donald Trump atacou Leão XIV pelas crescentes críticas à guerra no Irã e no Líbano feitas pelo primeiro Papa americano da história. O presidente dos EUA atacou o Pontífice diretamente com uma publicação em sua plataforma de mídia social, Truth, e com declarações diante das câmeras na véspera da histórica viagem de Prévost à África, a primeira vez que o Papa pisa em solo argelino.
As palavras de Trump
“O Papa Leão é fraco no combate ao crime e péssimo em política externa”, escreveu Trump na rede Truth Social. Ele fala sobre o “medo” do governo Trump, mas não menciona o medo que a Igreja Católica e todas as outras organizações cristãs sentiram durante a Covid, quando prenderam padres, pastores e qualquer outra pessoa por celebrarem serviços religiosos, mesmo ao ar livre e mantendo distâncias de três ou até seis metros. Eu gosto muito mais do irmão dele, Luís, porque Luís é totalmente Maga. Ele entende, enquanto Leão não! Eu não quero um Papa que ache normal o Irã ter uma arma nuclear. Eu não quero um Papa que ache terrível que os Estados Unidos tenham atacado a Venezuela, um país que enviava quantidades enormes de drogas para os Estados Unidos e, pior ainda, esvaziava suas prisões — incluindo assassinos, traficantes e pistoleiros — enviando-os para o nosso país. E eu não quero um Papa que critique o Presidente dos Estados Unidos quando estou fazendo exatamente o que fui eleito para fazer, com uma vitória esmagadora, reduzindo os índices de criminalidade a níveis recordes e criando o melhor mercado de ações da história. Leão deveria ser grato porque, como todos sabem, ele foi uma surpresa chocante. Ele não estava em nenhuma lista para se tornar Papa e foi colocado lá pela Igreja apenas por ser americano, e acreditava-se que essa era a melhor maneira de lidar com o Presidente Donald J. Trump. Se eu não estivesse na Casa Branca, Leão não estaria no Vaticano. Infelizmente, Leão é fraco em relação ao crime, fraco em relação às armas nucleares, e eu não gosto nada disso, nem gosto do fato de ele estar se reunindo com simpatizantes de Obama como David Axelrod, um perdedor da esquerda, um daqueles que queriam prender os fiéis e o clero. Leão deveria se recompor como Papa, usar o bom senso, parar de ceder à esquerda radical e se concentrar em ser um grande Papa, não um político. Isso está lhe causando grande sofrimento e, mais importante, está prejudicando a Igreja Católica! Presidente Donald J. Trump.”
Pope Leo said he will continue to speak out against war despite sharp criticism from US President Donald Trump, telling reporters that the Christian message is being “abused” and that he does not want to enter a direct war of words with the president. pic.twitter.com/xeIOUvUQPW
— Al Jazeera English (@AJEnglish) April 13, 2026
Sem precedentes
No passado, não faltaram desentendimentos entre os ocupantes da Casa Branca e os Papas: George W. Bush não apreciou as críticas de João Paulo II ao Iraque e o próprio Trump, durante seu primeiro mandato, teve uma troca de farpas com Francisco, que definiu como "não cristãos" aqueles que constroem muros para impedir a entrada de migrantes (a referência era ao muro entre os Estados Unidos e o México), mas nunca aconteceu de um presidente dos Estados Unidos em exercício atacar um Papa com uma linguagem tão frontal e virulenta.
As críticas de Leão
O ataque ocorre após o Papa ter criticado cada vez mais veementemente a guerra no Irã e no Líbano, desencadeada pela Casa Branca e por Israel nos últimos dias. Já durante a Semana Santa, Leão XIV considerou "inaceitáveis" as ameaças de Trump de destruir o Irã (vamos aniquilar, disse ele, "uma civilização inteira") e usou os ritos da Páscoa para criticar a guerra e repudiar aqueles, incluindo os colaboradores de Trump, que buscavam justificar a iniciativa militar com linguagem religiosa. No sábado à noite, ele convocou uma vigília de oração pela paz na Basílica de São Pedro, onde, entre outras coisas, afirmou que a oração é "uma barreira contra as ilusões de onipotência que estão se tornando cada vez mais imprevisíveis e agressivas".
BREAKING:
— EWTN News (@EWTNews) April 13, 2026
Speaking to reporters aboard the papal plane to Algeria on Monday, Pope Leo XIV said:
“I think that the people who read will be able to draw their own conclusions: I am not a politician, I have no intention of entering into a debate with him. Rather, let us always seek… pic.twitter.com/ul7NPV6aj3
O caso do Pentágono
Nos últimos dias, também surgiram notícias de que, após o discurso que o Papa proferiu em janeiro ao corpo diplomático acreditado junto à Santa Sé, no qual denunciou o fato de que “a guerra está de volta à moda” e denunciou a violação do direito internacional, o então núncio apostólico nos Estados Unidos, Cardeal Christophe Pierre, foi convocado pelo Pentágono, que expressou sua irritação.
Os bispos reagem
Em uma breve declaração divulgada ontem à noite, o presidente da Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos, D. Paul S. Coakley, respondeu a Trump: "Estou com o coração partido por o presidente ter escolhido escrever palavras tão depreciativas sobre o Santo Padre. O Papa Leão XIV não é um rival, nem um político. Ele é o Vigário de Cristo que fala a partir da verdade do Evangelho e pelo cuidado das almas."
A defesa dos jesuítas
Entre os primeiros a comentar a controvérsia de Trump estava o jesuíta americano James Martin, que escreveu na revista X: “Duvido que o Papa Leão XIV perca o sono por causa disso antes de iniciar sua peregrinação à África. Mas nós, os demais, deveríamos. Porque ele está desconectado, é pouco caridoso e anticristão. Não há limite para essa sordidez moral?”
Na Itália, outro jesuíta, o padre Antonio Spadaro, também comentou na revista X: “Se Leão fosse irrelevante, não mereceria uma palavra. Em vez disso, ele é questionado, nomeado, combatido: um sinal de que suas palavras têm impacto. É aqui que emerge a força moral da Igreja. Não como um contrapoder, mas como um espaço em que o poder é julgado por um critério que não controla. Leão não responde no terreno da controvérsia e, por essa mesma razão, permanece inalcançável. Ele é livre. E essa liberdade, desarmada e desarmante, é talvez o que mais perturba. E, ao mesmo tempo, o que mais importa.”
Nota do IHU
A íntegra da homilia do Papa Leão XIV proferida no sábado, 11-04-2026, pode ser lida, em português, aqui.
Cardinal McElroy’s powerful, resonant words at last night’s vigil for peace end with a summons to move from prayer to action, so as not to allow Trump and Netanyahu to resume their immoral, illegal, brutal, life-destroying, destabilising war of choice. pic.twitter.com/QVV2Uyko8T
— Austen Ivereigh (@austeni) April 12, 2026
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