Uma tragédia americana. Artigo de Michele Serra

Foto: Wikimedia Commons | The White House

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12 Março 2026

"A invocação a Deus por causas de guerras, destruição do inimigo, massacre de primogênitos e coisas semelhantes é tão válida, em termos culturais e em relação à pequena evolução cerebral que o Homo sapiens conseguiu alcançar, quanto o canibalismo e os sacrifícios humanos."

O artigo é de Michele Serra, jornalista, escritor e roteirista italiano, publicado por La Repubblica, de 11-03-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

Como fechamento ideal para um belo discurso à base de “destruir” e “esmagar”, o ministro da Guerra estadunidense, o senhor Hegseth, recitou o Salmo 144 da Bíblia diante dos jornalistas - espere-se atônitos - uma das muitas invocações que as tribos antigas dirigiam ao seu deus local em busca de proteção na guerra, simultaneamente amaldiçoando e aniquilando as tribos inimigas.

A invocação a Deus por causas de guerras, destruição do inimigo, massacre de primogênitos e coisas semelhantes é tão válida, em termos culturais e em relação à pequena evolução cerebral que o Homo sapiens conseguiu alcançar, quanto o canibalismo e os sacrifícios humanos. Estamos, portanto, ainda ali, naquelas paragens arcaicas onde, com justificada consternação, vemos subjugado o Irã por seu clero feroz (e os colonos israelenses roubando terras e vidas dos palestinos da Cisjordânia sem sequer suspeitar serem ladrões e violentos: porque está escrito na Bíblia que aquelas terras lhes pertencem. Deve tratar-se de um deus do Registro de Imóveis).

Mas por que Hegseth desperdiça o único álibi decente que lhe resta (agir contra a intolerância despótica da teocracia), transformando a terceira Guerra do Golfo em um clássico futebolístico entre devotos de religiões opostas? Por obtusidade? Por fanatismo? Por descuido? Só ele pode saber. Nós sabemos, porém — sem qualquer possibilidade de equívoco — que na liderança do exército mais poderoso do mundo está um fanático religioso. Em que século estamos? Sempre no mesmo, meus caros: há três ou quatro mil anos.

PS: Mas o Papa americano não tem nada a dizer sobre essa tragédia americana?

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