24 Janeiro 2026
"Trump e Leão representam duas visões americanas de poder. O tempo dirá qual visão prevalecerá. Mas o contraste já é visível: uma igreja experimentando esperança e coesão renovadas sob a liderança de Leão e uma nação — e o mundo — vivenciando tensões e fragmentação crescentes sob as políticas de Trump", escreve Stan Chu Ilo, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 21-01-2026.
Stan Chu Ilo é um padre católico da Diocese de Awgu, na Nigéria. Ele também é professor sênior de pesquisa no Centro para o Catolicismo Mundial e Teologia Intercultural da Universidade DePaul, em Chicago, e presidente da organização Amigos da Rede Católica Pan-Africana (PACTPAN). É autor de Ética Ecológica Africana e Espiritualidade para o Florescimento Cósmico e editor do Manual do Catolicismo Africano.
Eis o artigo.
Existe um profundo anseio por líderes verdadeiramente transformadores — líderes capazes de extrair o melhor de nós, reparar nossas instituições fragilizadas e desgastadas e restaurar a direção moral da vida pública. Em um mundo ferido, marcado por exaustão, polarização e desconfiança, as pessoas não estão apenas pedindo eficiência ou força; elas buscam uma liderança que possa curar, reumanizar e semear esperança onde o cinismo se enraizou.
É nesse anseio que muitos agora observam, com curiosidade e preocupação, os dois americanos mais proeminentes no cenário global: o presidente Donald Trump e o Papa Leão XIV. Cada um ocupa uma posição de extraordinária influência. Trump preside um dos Estados-nação mais poderosos da história, exercendo imensa autoridade política, econômica e militar. Leão, por outro lado, lidera o que muitos consideram a instituição religiosa mais influente do mundo, cujo alcance se estende por culturas, continentes e séculos. Ambos trouxeram personalidades e visões morais distintas para seus cargos e, ao fazê-lo, remodelaram as expectativas — positivamente para alguns, alarmantemente para outros — sobre o que significa liderança em nossa época.
Embora ambos ainda estejam no primeiro ano de seus mandatos — Trump completou o primeiro ano de seu segundo mandato em 20 de janeiro, Leão XIV foi eleito papa em 8 de maio — o contraste de estilo e substância já é inegável. Não se trata simplesmente de um contraste de temperamento ou retórica, mas de visão: diferentes compreensões de poder e do que significa liderar pessoas feridas em um mundo fragmentado. Um modelo de liderança gravita em torno da dominância, do espetáculo e da consolidação da autoridade pessoal; o outro aponta para a humildade, a moderação, a escuta sinodal e o trabalho lento e exigente de acompanhamento. No crescente espaço entre essas duas figuras reside uma questão mais profunda que pressiona nossa época: de que tipo de liderança o mundo precisa para ser reparado em vez de ainda mais dilacerado?
Em menos de um ano à frente da Igreja de Roma, Leão XIV, de forma discreta, porém decisiva, reformulou o ofício papal por meio da gentileza, da reverência à tradição e da proclamação do Evangelho. O presidente Trump, por outro lado, trouxe para a presidência suas características já conhecidas: um compromisso com o nativismo, uma ideologia apocalíptica de "América Primeiro" e uma busca renovada pelo poder americano por meios transacionais, coercitivos e, muitas vezes, unilaterais. Da Venezuela à Nigéria, da Groenlândia a Taiwan, a política externa de Trump sinaliza não parceria, mas domínio. Nesse sentido, o primeiro ano de Trump tornou dolorosamente vívida a advertência de Alexis de Tocqueville: observando os Estados Unidos, o mundo pode discernir tanto a promessa quanto o perigo da democracia.
Uma lição que Leão XIV oferece a Trump e a outros líderes mundiais que governam é o uso curativo do poder. Essa lição foi apresentada com muita clareza por David Gibson em seu recente artigo no The New York Times, " Papa Leão XIV confronta Trump em seus próprios termos". Gibson apresenta Leão XIV e Trump como a personificação de duas gramáticas de poder radicalmente diferentes no cenário global. Para Trump, o poder é pessoal e exercido sobre os outros — frequentemente demonstrando impaciência com instituições, normas e procedimentos que, em sua visão, retardam a necessidade de ações decisivas.
O poder de Leão, em contraste, é paciente, mediado e institucional. Não busca visibilidade ou domínio, mas sim durabilidade. Trump opera em ciclos eleitorais e noticiários, enquanto Leão opera no tempo civilizacional. Leão afirma a capacidade de ação dos outros e os convida a um espaço amplo para diálogo e engajamento mútuo e automediador, visando construir pontes de amor e amizade para reparar o mundo sobre os alicerces da justiça e da paz. Enquanto Trump trata o poder como algo a ser exercido, Leão o trata como algo a ser gerido.
O contraste aqui não é simplesmente entre poder político e poder religioso, mas sim entre duas visões de como a autoridade funciona no mundo: o poder como intervenção coercitiva versus o poder como orientação moral e memória institucional, moldando o futuro não por meio de ordens, mas preservando as condições para a reconstrução após rupturas. O poder deve ser usado pelos líderes de hoje para expandir as fronteiras das ideias, da sabedoria e da capacidade de ação, para que a sociedade global seja construída coletivamente, e não através da visão restrita dos interesses nacionais americanos.
Nesse contexto dinâmico, como reimaginar o poder como uma força para o bem no mundo? A liderança de Leão demonstra que uma graça restauradora acompanha a autoridade quando esta é exercida não como dominação, mas como uma força para promover o bem comum. Uma das passagens mais luminosas de Dilexi Te (Parágrafo 120) captura a essência da visão de Leão:
Uma Igreja que não impõe limites ao amor, que não conhece inimigos a combater, mas apenas homens e mulheres a amar, é a Igreja de que o mundo precisa hoje.
Essa abordagem teológica do "outro" não é sentimental: é profundamente política. O poder começa com a percepção. A forma como os líderes enxergam os outros determina como eles agem em relação a eles. A forma como eles enxergam a instituição que lideram determinará como eles a servem.
Trump poderia aprender com Leão abandonando a retaliação como princípio de governo. Assim como Leão, ele poderia redescobrir a inclusão. A América é mais forte não quando restringe sua identidade, mas quando honra sua história como um caldeirão cultural — uma sociedade enriquecida pela diversidade, em vez de ameaçada por ela.
Trump e Leão representam duas visões americanas de poder. O tempo dirá qual visão prevalecerá. Mas o contraste já é visível: uma igreja experimentando esperança e coesão renovadas sob a liderança de Leão e uma nação — e o mundo — vivenciando tensões e fragmentação crescentes sob as políticas de Trump. Os caminhos são claros. Um leva à cura e à vida. O outro, ao caos e à dominação. E a história, como sempre faz, dará seu veredicto.
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