Os Estados Unidos combatem em nome de Deus. Artigo de Luca Caracciolo

Foto: The White House/Reprodução X

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09 Março 2026

"As biografias dos dois líderes excluem sua vocação para o martírio (deles, não de outros). Não nos surpreenderia se, de repente, eles abandonassem a guerra apocalíptica em favor do pragmatismo prosaico. Um compromisso com a realidade que poderia levá-los a uma trégua suja disfarçada de vitória total e definitiva, como já aconteceu após a campanha de junho passado. Se isso não acontecer, os apocalípticos terão tido razão. Póstuma", escreve Luca Caracciolo, jornalista e analista geopolítico italiano, diretor da revista Limes, em artigo publicado por La Repubblica, 08-03-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Notícias de última hora da casa de Trump: os Estados Unidos não vão perder tempo em mudar o regime iraniano; simplesmente querem escolher um "bom chefe" que assine sua rendição incondicional. "Procura-se um Badoglio?", diríamos nós, italianamente. Em comprensação, Trump está empenhado em mudar o regime estadunidense. O ideal almejado é a monarquia teocrática. O presidente-rei quer se libertar da Constituição: "Respondo à minha moralidade e ao meu espírito". Dito e feito. Congresso sedado, Suprema Corte contornada, Estado profundo expurgado, governo mergulhado no caos entre oportunistas astutos (Rubio), lealistas exaltados (Hegseth) e desleais silenciosos (Vance).

Trump está subvertendo a democracia liberal do país. E, como estamos nos Estados Unidos, um país fundado em sua própria religião, a revolução trumpiana se autoproclama numa missão celestial.

Confirmada pelas orações pelo presidente taumaturgo, proferidas no Salão Oval pelo pregador da vez. Estamos assistindo à nacionalização de Jesus Cristo segundo cânones apocalípticos de viés evangélico. Em 6 de março, trinta deputados democratas escreveram ao inspetor-geral do Departamento de Defesa — não "Guerra", definição oficial, porque em uma revolução em curso, cada um se chama como bem entende — para denunciar o catecismo em tom de cruzada imposto às tropas por alguns comandantes. Eles explicam que "os ataques estadunidenses e israelenses aceleram o retorno de Jesus Cristo" porque respondem ao "plano de Deus". Isso está em consonância com a interpretação do governo, que "apresenta publicamente a política estadunidense no Oriente Médio em termos explicitamente religiosos". A guerra contra o Irã está escrita na Bíblia. A Fundação para a liberdade religiosa dos militares estadunidenses cita dezenas de denúncias semelhantes de unidades inteiras: "Esta manhã, nosso comandante abriu o relatório de prontidão para o combate nos advertindo para não nos assustarmos com o que está acontecendo conosco na linha de frente. Ele nos ordenou a dizer às nossas tropas que 'tudo faz parte do plano divino de Deus', com referência específica ao Livro do Apocalipse sobre o Armagedom e do iminente retorno de Jesus Cristo." O grande final: "O presidente Trump foi escolhido por Jesus para acender o fogo no Irã que provocará o Armagedom e marcará seu retorno à Terra."

Proclamar "Deus está conosco" não traz boa sorte. No entanto, revela o grau de semelhança entre os líderes estadunidenses e israelenses. Em guerra por Nosso Senhor contra o Diabo/Amaleque. Contudo, seis meses atrás, o próprio Trump havia reunido a nata do comando do país para mobilizar as Forças Armadas contra o "inimigo interno". Enquanto isso, as mídias divulgam trechos do relatório do Pentágono que desaconselhara o ataque ao Irã. Os Estados Unidos estão vivenciando uma mudança de temporada sob a bandeira do princípio da contradição: o sim anuncia o não, e vice-versa. A não-estratégia estadunidense teve seu auge quando a superpotência podia se dar ao luxo de errar tudo antes de acertar a manobra certa. Esse tempo acabou. Não se pode dominar o mundo olhando-se no espelho sem se debruçar à janela. Mas se você se considera um enviado do Supremo, não pode agir de outra forma, sob pena de sucumbir a tentações terrenas.

Seja qual for o resultado militar da cruzada contra a "teocracia iraniana" — o espelho de Trump não o alertou de que os Pasdaran, e não os teólogos Imami, estão no comando em Teerã — a Casa Branca continua estando em perfeita consonância escatológica com a extrema-direita judaica. Exceto por uma diferença nada secundária: muitos evangélicos estadunidenses são antissemitas ferrenhos. Agora sabemos o propósito desta guerra: o fim do mundo. Trump é profeta de Deus, junto com Netanyahu. Enquanto as guerras de Bibi minam o pró-israelismo genético dos Estados Unidos e dividem sua diáspora judaica, a sintonia entre os ultrarreligiosos de ambos os lados forja a aliança abençoada por Deus. Inabalável?

Duvidamos.

As biografias dos dois líderes excluem sua vocação para o martírio (deles, não de outros). Não nos surpreenderia se, de repente, eles abandonassem a guerra apocalíptica em favor do pragmatismo prosaico. Um compromisso com a realidade que poderia levá-los a uma trégua suja disfarçada de vitória total e definitiva, como já aconteceu após a campanha de junho passado. Se isso não acontecer, os apocalípticos terão tido razão. Póstuma.

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