O colapso climático chegou: contra fatos não há argumentos (2). Artigo de Heitor Scalambrini Costa

Foto: Elīna Arāja/Pexels

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26 Fevereiro 2026

"É necessário refletir e (re)agir diante da frase aludida a Giordano Bruno (...), 'ingenuidade é pedir a quem tem poder mudar o poder'. A inércia, a omissão, o boicote, a ineficaz ação dos governantes e das grandes corporações, é que têm obstaculizado medidas concretas para o enfrentamento do aquecimento global, como por ex. definir o Mapa do Caminho para além dos combustíveis fósseis, o que impõe planejamento, metas claras e financiamento", escreve Heitor Scalambrini Costa

Heitor Scalambrini Costa é professor associado aposentado da Universidade Federal de Pernambuco, graduado em Física pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP/SP), mestre em Ciências e Tecnologias Nucleares na Universidade Federal de Pernambuco (DEN/UFPE) e doutor em Energética, na Universidade de Marselha/Aix – Centro de Estudos de Cadarache/Comissariado de Energia Atômica (CEA)-França.

Eis o artigo.

Odeio os indiferentes. Como Friederich Hebell acredito que 'viver significa tomar partida'. (...) Indiferença é abulia, parasitismo, covardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes - Antonio Gramsci (filósofo marxista, escritor, jornalista, crítico literário, linguista, historiador e político italiano)

Mesmo com iniciativas propostas nas COPs para conter as emissões, ano após ano recordes são superados, com o consequente aumento na temperatura global. Seu efeito afeta a sociedade, os ecossistemas, e as economias. Já são constatadas alterações no ciclo das chuvas, das correntes marítimas e dos padrões de vento; impactos na biodiversidade com a extinção de espécies, desequilíbrios ecológicos; o aumento de doenças respiratórios, surtos de doenças relacionadas ao clima, aparecimento de novos vírus; ondas letais de calor, com maior risco de incêndios florestais, estresse térmico em humano/animais, e aumento da mortalidade; elevação do nível do mar com o derretimento inundando áreas costeiras, e aumento da vulnerabilidade de cidades e ilhas; entre outros efeitos dramáticos que comprometem a vida no Planeta.

O Painel Intergovernamental das Mudanças Climáticas (IPCC, em inglês), grupo de cientistas ligados a ONU concluíram em seus estudos, divulgados em relatórios, que o modelo de vida atual, baseado em padrões insustentáveis de produção e consumo, tem levado ao aumento da intensidade e da frequência de eventos climáticos extremos em todos os continentes, provocados pelo aquecimento global.

São as atividades humanas as principais responsáveis pelo aumento das emissões, dentre elas: a queima de combustíveis fósseis como principal fonte energética da humanidade, as mudanças no uso da terra e o desmatamento (no Brasil é a maior fonte de emissão, representando 40% do total), a agricultura (uso intensivo de fertilizantes nitrogenados, fontes significativas de metano e óxido nitroso, ambos GEE) e pecuária (processo digestivo dos animais que emite o metano), além de processos industriais.

O consenso científico é claro e unânime, a emergência climática é inegável; mesmo que alguns poucos negacionistas da ciência ainda tenham espaço na mídia, e tenham poder, caso do extremista de direita o atual presidente norte americano; e que no Brasil tem seu fiel seguidor, o ex-presidente e atual presidiário, e seus seguidores fanatizados.

Para exemplificar o que a ciência e os cientistas têm alertado sobre os efeitos das mudanças climáticas globalmente, com reflexos locais, a seguir algumas das recentes catástrofes climáticas ocorridas nas últimas semanas, associadas ao aquecimento global:

- Em dezembro de 2024 e janeiro de 2025, chuvas intensas com fortes ventanias ocorridas na gigantesca cidade de São Paulo e municípios do entorno, produziram quedas de energia elétrica, afetando mais de 4 milhões de residências.

- Tempestade de neve histórica nos EUA deixou pelo menos 30 mortos, 500 mil pessoas sem energia elétrica, e 200 milhões de pessoas sob alerta. Forte nevasca, e fortes ventos provocaram grandes apagões com linhas de energia derrubadas em todo o sul do país, além de recordes de frio no sul e leste do Hemisfério Norte. Uma forte tempestade de inverno provocou uma nevasca histórica em Toronto, na província de Ontário, no Canadá. O evento estabeleceu novos recordes de neve, paralisou o transporte e causou grandes transtornos em toda a região metropolitana.

- Várias regiões da Austrália estão sofrendo com ondas de calor que alcançaram o pico, 50oC no início de janeiro. Foi a mais severa onda de calor desde o verão de 2019-2020, conhecida como “Black Summer”, que deixou um saldo de mais de 400 mortes direta ou indiretamente relacionadas à maior onda de incêndios florestais da história recente da Oceania, consumindo mais de 24 milhões de hectares pelas chamas, e 3.000 edificações. Estima-se que 3 bilhões de animais tenham sido dizimados. Em 2026, os termômetros superaram 40°C em Melbourne e em Sydney. Em Victoria, o calor precedeu incêndios florestais que devastaram 400.000 hectares, e destruíram 900 edificações.

- Em 12 de janeiro de 2025, considerada a pior inundação da história, chuvas torrenciais em Moçambique, na África, atingiram várias regiões do país, deixando cidades inteiras alagadas, com pelo menos 700 mil pessoas desabrigadas e em torno de 125 mortas. As Nações Unidas estimaram que, entre o fim de 2025 e o início de 2026, as piores inundações da história ocorreram, com chuvas torrenciais, abrangendo cerca de 3.000 km² do território moçambicano (de um total de 801.000 km²).

- Países da Península Ibérica tiveram no início de fevereiro, regiões castigadas pelas chuvas torrenciais provocadas por ciclone. Populações de Portugal, Espanha, e sul da Itália foram atingidas por inundações e milhares de pessoas tiveram que abandonar suas casas.

- No Japão, a pior tempestade de neve dos últimos 40 anos causou sérios transtornos, e mesmo perdas de vidas humanas (ao menos 50 pessoas) no norte do arquipélago; e mais de 100 ficaram gravemente feridas.

- O Chile e a Argentina têm enfrentado temperaturas extremas e ondas de calor desde o início do ano. Em duas regiões do sul do Chile foi decretado estado de calamidade pública devido a incêndios florestais que deixaram ao menos 19 mortes e forçaram a evacuação de mais de 50 mil pessoas, e consumiu pelo menos 8,5 mil hectares. Grande parte do país estava sob alerta de calor extremo atingindo 38oC. Na Argentina, a região da Patagônia sofreu incêndios florestais devastadores provocados por raios gerados na tempestade.

- Em vários continentes, médicos têm relatado o aumento de casos de deterioração da saúde mental das populações que sofreram com catástrofes climáticas. Outro aspecto relacionado à saúde humana é o aparecimento de novos vírus e o ressurgimento de doenças infecciosas diretamente ligados às mudanças climáticas.

- As catástrofes já são uma realidade, manifestando-se em incêndios, inundações, deslizamentos de terra, ondas de calor, tempestades e secas sem precedentes. Estudos com cenários de aquecimento extremo da ordem de 30C, apontam que a mortalidade humana pode chegar a 2 bilhões, ou mesmo a espantosa cifra de 4 bilhões de óbitos.

A responsabilização, deve recair com maior peso nos maiores emissores, maiores responsáveis. Praticamente 75% de todas as emissões de GEE’s são de 10 países e corporações, somado às emissões dos super ricos responsáveis pela maior parte das emissões de gases de efeito estufa (GEE). Segundo a Stockholm Environment Institute (SEI) e a OXFAM, uma extrema "desigualdade de carbono" ocorre entre os moradores do planeta, e os mais pobres sofrem as piores consequências das mudanças climáticas.

É necessário refletir e (re)agir diante da frase aludida a Giordano Bruno (teólogo, filósofo, escritor, matemático, poeta, teórico de cosmologia, ocultista hermético e frade dominicano italiano), “ingenuidade é pedir a quem tem poder mudar o poder”.  A inércia, a omissão, o boicote, a ineficaz ação dos governantes e das grandes corporações, é que têm obstaculizado medidas concretas para o enfrentamento do aquecimento global, como por ex. definir o Mapa do Caminho para além dos combustíveis fósseis, o que impõe planejamento, metas claras e financiamento.

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