Incêndios na Patagônia: mais uma prova de como condições climáticas extremas aceleram a propagação do fogo

Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

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16 Janeiro 2026

Condições mais secas permitem que as chamas se espalhem rapidamente e se tornem difíceis de combater. Árvores como os lariços, que podem viver por mais de mil anos, perdem sua capacidade de adaptação.

A reportagem é de Soledad Domínguez, publicada por El País, 16-01-2026

Hernán Mondino não consegue apagar da memória a imagem da encosta em chamas. O Parque Nacional Los Alerces, na Patagônia andina, no norte da Argentina, ardia em chamas diante de seus olhos. "Vi um redemoinho de fumaça se formar, havia ondas no lago. Tudo era impressionante e acontecia numa velocidade que eu nunca tinha visto antes", conta o bombeiro de 41 anos, enquanto caminha com o olhar fixo no céu, atento a qualquer foco de incêndio que o obrigasse a se reagrupar com seus mais de 70 colegas.

Desde 9 de dezembro, uma série de incêndios florestais, iniciados por raios durante tempestades, devastam o norte da Patagônia argentina. Os incêndios se espalharam pelas províncias de Chubut, Río Negro, Neuquén e Santa Cruz, e já queimaram mais de 25.000 hectares, segundo dados oficiais — uma área ligeiramente maior que toda a província de Buenos Aires. O impacto mais severo se concentra em Chubut, onde o fogo consumiu pelo menos 22.000 hectares e continua queimando dentro do Parque Nacional Los Alerces, onde Mondino trabalha.

“Os fogos se alastram”, descreve ele. Em um dos episódios mais extremos, o fogo percorreu 25 quilômetros em um único dia. Essa aceleração está diretamente ligada às mudanças climáticas, que estão alterando o regime de incêndios na região. Segundo Thomas Kitzberger, pesquisador do Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Técnica (Conicet) e especialista em ecologia das florestas andino-patagônicas, “estamos vivenciando secas mais longas, invernos com muito menos neve, temperaturas mais altas e maior frequência de tempestades. Tudo isso cria condições muito mais propícias a grandes incêndios”.

Kitzberger analisa, estuda e realiza cálculos. Ele trabalha com modelos climáticos desenvolvidos por climatologistas, incluindo os do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), que projetam diferentes cenários futuros para temperatura e precipitação. “O que fazemos é projetar esses cenários climáticos na região e perguntar ao modelo quanta probabilidade de incêndios ocorrerá”, explica. Em um cenário plausível de aumento de 2°C na temperatura média global até o final do século, a probabilidade de incêndios quadruplicaria no norte da Patagônia.

Os turnos dos bombeiros estão ficando cada vez mais longos. Mondino foi descansar às 3h da manhã e voltou ao trabalho poucas horas depois: o fogo é implacável. Essa mudança também está ligada à complexidade do clima. Décadas atrás, quando as condições eram mais úmidas e frias, os incêndios tendiam a ser menores e mais fáceis de controlar. Hoje, no entanto, eles são mais agressivos e se propagam mais rapidamente. “As temperaturas noturnas são mais altas, os ventos não diminuem à noite e esses incêndios continuam queimando. Quando traçamos o gráfico da área queimada anualmente nos últimos 50 anos, vemos uma tendência de aumento constante”, resume Kitzberger.

O que se perde no fogo?

Em um mapa interativo de imagens de satélite do programa Copernicus, os pontos vermelhos mostram como o fogo se alastrou, de um pequeno foco localizado para uma expansão contínua por um mosaico de terrenos e espécies — lariços ancestrais, coihues, lengas, ciprestes e ñires — que mantêm o equilíbrio ecológico da floresta andino-patagônica. “Se as árvores de alerce (Fitzroya cupressoides queimarem, estaremos perdendo a história”, alerta Javier Grosfeld, biólogo e ex-diretor regional de Conservação de Parques Nacionais no norte da Patagônia, que estuda essas árvores há anos. Ao nomeá-las, ele transmite não apenas informações, mas também emoção.

“Entrar num bosque de lariços é como entrar numa catedral”, resume ele. São árvores, formações compostas por indivíduos ancestrais, de uma escala e presença que inspiram silêncio e respeito. Os lariços podem viver até mil anos e ultrapassar os 40 metros de altura, distribuídos como indivíduos únicos dentro da floresta, com um papel ecológico insubstituível.

Essa longevidade torna-os altamente resistentes a terrenos e condições de solo extremas, desde que a umidade característica desses ambientes seja mantida. Nesse contexto, os lariços adultos podem suportar incêndios de baixa intensidade: possuem copas altas e desenvolvem uma casca muito espessa, de 10 a 15 centímetros, o que os torna isolantes térmicos, permitindo que o fogo passe muito perto sem causar danos graves. Essa resistência fica registrada no próprio tronco: forma-se uma espécie de cicatriz e, com o tempo, a árvore começa a cicatrizar esse dano. “Como um anel é produzido a cada ano, é possível datar com precisão quando um incêndio ocorreu com base nessas cicatrizes”, explica Grosfeld.

Mas essa resiliência tem seus limites. Como explica Kitzberger, cada espécie na floresta andino- patagônica está adaptada para tolerar incêndios apenas dentro de um período específico. "Cada espécie tem a capacidade de tolerar uma certa frequência de incêndios", destaca ele. Quando o fogo retorna com mais frequência do que essas florestas conseguem suportar, as árvores não têm tempo suficiente para crescer ou se reproduzir, os ciclos de regeneração são interrompidos e a persistência da floresta — por exemplo, a floresta de lariço — começa a ser comprometida.

No extremo oposto estão as árvores de lenga (Nothofagus pumilio), árvores nativas de altitude que cobrem grande parte da Patagônia andina argentina, de Neuquén e Río Negro a Chubut, Santa Cruz e Terra do Fogo. Elas crescem acima de 1.000 metros em ambientes historicamente frios e úmidos. Em climas normais, o fogo não conseguia avançar pelas florestas de lenga: seu alto teor de umidade retardava as chamas. Mas esse equilíbrio mudou com as mudanças climáticas. Hoje, muitos incêndios penetram nas florestas de lenga, e as árvores — com sua casca muito fina — não conseguem sobreviver ou se regenerar. O impacto é visível na paisagem como "mordidas": áreas onde a floresta foi queimada e nunca mais se recuperará. "Com as mudanças climáticas e o aumento do número de incêndios, a lenga é a maior perdedora", resume Kitzberger.
Políticas e ação comunitária

Além do combate direto aos incêndios, especialistas, bombeiros, ativistas e moradores concordam que o maior desafio reside na gestão de políticas públicas e ações comunitárias para a prevenção de incêndios. Na Argentina, a resposta continua focada quase exclusivamente na extinção das chamas, enquanto a prevenção, o planejamento e a coordenação progridem muito mais lentamente. “Os bombeiros conseguem extinguir quase todos os incêndios a tempo, mas quando um deles sai do controle, tragédias acontecem”, destaca Grosfeld. Raios não podem ser evitados, mas muitas outras causas podem.

A prevenção, quando implementada por meio de políticas públicas, campanhas de conscientização e participação cidadã, pode avançar rumo a uma abordagem florestal preventiva que permita, por exemplo, a remoção de material vegetal inflamável e seu uso para aquecimento com pellets ou lenha durante os invernos da Patagônia. “Nunca fizemos isso em larga escala na Argentina, mas se não começarmos agora, nunca faremos”, resume ele.

Nessa mesma linha, Kitzberger também se concentra na gestão da biomassa vegetal — tanto viva quanto morta — que se acumula em florestas e áreas habitadas e que, se não controlada, alimenta incêndios cada vez mais intensos. O problema não é apenas ambiental. "A questão é que as mudanças ecológicas estão acontecendo mais rápido do que as sociais, e é isso que está causando os problemas", diz o cientista. Parte da prevenção, ele enfatiza, envolve entender como o fogo se propaga no dia a dia, mesmo em nível doméstico: a continuidade da vegetação pode permitir que o fogo atinja as casas. Mondino resume a questão a partir de sua perspectiva no campo, ao final do dia: "Não se trata apenas de cuidar da natureza, mas também de cuidar uns dos outros. Em última análise, trata-se de sustentar nossa casa compartilhada."

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