Eneva tem autorização para perfurar único bloco de gás ativo em terra indígena na Amazônia Legal

Foto: Saulo Cruz/MME

16 Janeiro 2026

Mais de 75% do território Krenyê, no Maranhão, está dentro de um bloco concedido para exploração fóssil que pode começar a ser perfurado em 2026. Vendida sob o argumento da transição energética, a expansão da produção do Complexo Termelétrico Parnaíba aposta na geração de energia e na transformação do Matopiba em corredor logístico de gás e grãos, impactando territórios quilombolas e áreas protegidas.

A reportagem é de Fábio Bispo, publicada por InfoAmazonia, 15-01-2026.

O cacique Cutetet Krenjê caminha apressado entre buritis, babaçus e jatobás. O passo firme carrega a urgência de quem reconhece quando uma ameaça se aproxima. Na noite anterior, sua expressão endureceu ao descobrir, por meio da equipe de reportagem da InfoAmazonia, que mais de metade da terra indígena (TI) Krenyê — território no Maranhão conquistado após décadas de resistência — está destinada à exploração de gás natural pela Eneva, uma das maiores produtoras privadas de energia do Brasil.

A Constituição Federal proíbe a exploração de combustíveis fósseis em terras indígenas. Artigo 231, Parágrafo 3º – O aproveitamento dos recursos hídricos, incluídos os potenciais energéticos, a pesquisa e a lavra das riquezas minerais em terras indígenas só podem ser efetivados com autorização do Congresso Nacional, ouvidas as comunidades afetadas, ficando-lhes assegurada participação nos resultados da lavra, na forma da lei. sem autorização do Congresso Nacional e sem a consulta adequada a essas populações. Mesmo assim, um bloco, o PN-T-117, cobre cerca de 75% da TI Krenyê. Ele foi concedido pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) em 2017. Dentro dele, a Eneva recebeu a licença da Secretaria Estadual do Meio Ambiente (Sema) do Maranhão para a perfuração de pelo menos dois poços, um deles a 20 quilômetros do território. Esse é o único caso de um bloco de petróleo e gás ativo, nesse caso em fase de exploração, com sobreposição a uma terra indígena na Amazônia Legal. A Amazônia Legal ocupa 5.015.068,18 km², correspondentes a cerca de 58,9% do território brasileiro. Ela reúne nove estados: Acre, Amazonas, Rondônia, Roraima, Tocantins, Pará, Amapá, Mato Grosso e uma parte do Maranhão..

Isso é o que revela análise do especial Fueling Ecocide (Alimentando o Ecocídio, em tradução livre para o português), sobre exploração de petróleo em áreas protegidas em todo o mundo, realizada pela InfoAmazonia e veículos internacionais. Coordenada pelo coletivo de jornalistas Environmental Investigative Forum (EIF) e pela rede de meios European Investigative Collaborations (EIC), a investigação mostra que licenças de exploração e produção de petróleo e gás obtidas por empresas do setor avançam sobre mais de 7 mil áreas protegidas no mundo, apesar das legislações vigentes e dos esforços para preservar zonas-chave de biodiversidade. Ao todo, a sobreposição chega a 690 mil km², uma área maior do que a França.

No Maranhão, além do território Krenyê, os blocos da Eneva na região também estão sobrepostos a pelo menos cinco territórios quilombolas —Matões Moreira, Pitoró dos Pretos, Mocorongo, Santo Antônio dos Pretos e Peixes — e sobre áreas de alta sensibilidade ambiental, como nascentes de rios e zonas prioritárias para a conservação da biodiversidade.

Exploração de gás no Parnaíba

O Complexo Termelétrico do Parnaíba abriga seis usinas de geração de energia elétrica, que são abastecidas pelo gás extraído nos blocos concedidos à Eneva. A empresa detém, no total, 15 blocos de produção e exploração de gás, somando mais de 3 milhões de hectares. Um deles, o bloco 117, está sobreposto à terra indígena (TI) Krenyê. Outros blocos da empresa também estão sobrepostos a Territórios Quilombolas e próximos ao Parque Estadual do Mirador.

Bloco 117 ocupa mais de 75% da TI Krenyê

O bloco 117 é o único ativo (nesse caso, em exploração) com sobreposição a uma terra indígena em toda a Amazônia Legal. Ele ocupa mais de 75% da TI Krenyê.

Em março de 2025, a Eneva recebeu licença da Secretaria Estadual do Meio Ambiente (Sema) para a perfuração de dois poços na área do bloco, mas nunca consultou ou informou os indígenas sobre a situação.

Perfuração autorizada próxima à TI Krenyê

Uma das perfurações previstas no bloco 117 está a cerca de 20 km da TI Krenyê e, a outra, a 33 km.

Procurado pela InfoAmazonia, o Ibama informou que a área sobreposta à terra indígena tem que ser excluída do bloco 117, já que a exploração nesses territórios é vedada pela Constituição.

Quilombos também são impactados

Os blocos da Eneva também estão sobrepostos a pelo menos cinco territórios quilombolas — Matões Moreira, Santo Antônio dos Pretos, Mocorongo e Pitoró dos Pretos estão sobrepostos ao bloco PN-T-68.

Já o quilombo Peixes está sobreposto ao PN-T-119, mais próximo da área para a qual o complexo se expande nos últimos anos.

Mosaico de áreas protegidas

O bloco também está próximo ao Parque Estadual do Mirador. Atualmente, o recorte dos blocos acompanha o limite da área protegida, mas isso pode mudar: as comunidades indígenas e populações tradicionais propõem aumentar a proteção nesta área e recompor cerca de 100 mil hectares excluídos do parque em 2009, pela Assembléia Legislativa do Maranhão, criando o Mosaico do Mirador. Ele seria formado pela unidade de conservação e por territórios indígenas ao redor, incluindo a TI Krenyê.

Com a ampliação, a área prevista para o mosaico teria sobreposição dos blocos 117 e 133 (PN-T-133).

O bloco 117 faz parte dos ativos da Eneva e serve de garantia para títulos de dívida emitidos pela empresa no mercado, usados para financiar a exploração da área. A previsão é de que as atividades de perfuração e busca de petróleo comecem “até 2026”, conforme informações divulgadas pela própria empresa.

A operação visa abastecer o Complexo Termelétrico do Parnaíba, no município de Santo Antônio dos Lopes, região centro-sul do Maranhão. O empreendimento abriga seis usinas de geração de energia elétrica, que são abastecidas com o gás que é extraído nos blocos sob concessão da Eneva. No total, a empresa detém 15 blocos, somando mais de 3 milhões de hectares — área próxima à da Suíça.

Nos últimos anos, o complexo vem ampliando a produção de gás natural liquefeito (GNL), principalmente de olho na rota do agronegócio no Matopiba (acrônimo para Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), onde está o eixo da fronteira agrícola que mais avança no país (ver mais abaixo, em Gás e agro: uma aliança com rótulo de ‘transição verde’). Os dois setores — agro e energia — aliaram-se para ocupar e transformar a região em um corredor de escoamento de gás e grãos.

A InfoAmazonia perguntou à Eneva sobre o licenciamento para perfurações no bloco 117 e sobre os casos de sobreposições aos territórios, mas a empresa não respondeu a esses questionamentos. Em nota, a empresa afirmou apenas que “todos os projetos da Eneva são conduzidos com rigor técnico e absoluto respeito à legislação ambiental, aos direitos das comunidades locais e aos trâmites legais estabelecidos pelos órgãos competentes”.

A reportagem voltou a questionar se a empresa havia comunicado os indígenas Krenyê sobre a exploração de gás em seu território, mas, mais uma vez, a Eneva não respondeu diretamente aos nossos questionamentos. A companhia apenas completou que “reafirma que cumpre integralmente os procedimentos exigidos pelos órgãos competentes para a obtenção das licenças e autorizações, atuando com transparência e responsabilidade em todas as etapas dos seus projetos”.

Terra indígena e bloco criados quase ao mesmo tempo

Cutetet nos leva até o alto de um chapadão, por onde a floresta se espalha como um manto verde pelo Cerrado maranhense até perder de vista — toda essa área está dentro do bloco 117, na região de transição entre o Cerrado e a Amazônia.

O cacique lamenta que os indígenas nunca tenham sido informados de que parte do território está destinado à exploração de gás: “aqui, nesse lugar, nós fazemos os nossos rituais. Conquistamos essa terra com muita luta mesmo, e ela agora é sagrada para nós. O povo Krenyê sofreu para chegar até aqui. Desde 1946 que somos terceirizados, vivendo de migalhas, por isso vamos lutar por essa terra, como sempre fizemos na nossa história”.

O processo de criação da terra indígena teve início em 2013, após uma decisão judicial que determinou à Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) a demarcação e destinação de uma nova área para garantir o direito territorial do povo Krenyê.

O retorno à Pedra do Salgado — território ancestral em Vitorino Freire (MA), de onde os Krenyê foram expulsos na primeira metade do século XX — não era mais viável, pois a área foi considerada incapaz de assegurar a reprodução física e cultural do povo, por estar tomada por pastagens, capoeiras e com seus mananciais assoreados. Em casos extraordinários, como o dos Krenyê, o reconhecimento do direito territorial das comunidades indígenas pode ocorrer na modalidade de Reserva Indígena, em parceria com os órgãos agrários estaduais e federais. A União pode comprar, desapropriar ou receber em doação imóveis que serão destinados à constituição do território.

Cutetet guarda, com certo orgulho, a ata de um dos encontros definitivos para a escolha da terra. Depois de visitar diversas áreas, em 28 de julho de 2016, uma comissão concordou com a compra do imóvel de pouco mais de 8 mil hectares no município de Tuntum, também no Maranhão.

O encontro foi realizado na sede da Funai, em Imperatriz, e reuniu, além da própria Fundação, representantes do povo indígena, do imóvel e do Conselho Indigenista Missionário (Cimi). Rosimeire Diniz, missionária do Cimi que acompanhou o processo, confirma que, durante a ocupação do atual território, “nunca se falou da existência de blocos de petróleo”.

“Eles conseguiram garantir esse território que já foi conquistado debaixo de muita luta, de muito sangue, mas também de muita alegria, de muito tambor, muito maracá e cantoria. Agora, eles vivem de novo uma perspectiva de que o bem-viver deles está ameaçado. Uma sobreposição dessas é um estrangulamento de toda esperança, da liberdade, deles viverem ali em comunidade depois de um histórico de muito sofrimento”, diz Diniz.

Menos de um ano depois, em 2017, a ANP anunciou um leilão, que incluía o bloco 117. O processo de demarcação já havia sido iniciado e o local destinado à reserva indígena decidido, como mostram as atas de encontros, ofícios e despachos conduzidos pela Funai, e também com o auxílio do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).

Em meio ao processo de demarcação da terra indígena, a ANP realizou a 14ª Rodada de Licitação de Blocos, que concedeu o bloco 117 à Parnaíba Gás Natural, comprada no ano seguinte pela Eneva. A resolução do Conselho Nacional de Política Energética, que autorizou o leilão, foi publicada em 11 de abril de 2017. O contrato de concessão foi assinado em janeiro de 2018.

Também no início de 2018, após a autorização do leilão e diante da demora para confirmar a negociação, os indígenas decidiram ocupar a terra. “O negócio já estava acertado, a Funai disse que só precisava do dinheiro para fazer a compra. Nós decidimos ocupar”, lembra o cacique.

Em dezembro daquele ano, a Funai anunciou a compra da Fazenda Vão do Chapéu e Outras, pertencente à agroindústria SC Agro Florestal LTDA, por R$ 14,1 milhões. Embora a negociação com a empresa tenha sido concluída ainda em 2018, os indígenas só foram informados em fevereiro de 2019, após a confirmação do pagamento à SC Agro Florestal. Na ocasião, o então presidente da Funai, Franklimberg de Freitas, esteve no território e entregou a escritura da reserva indígena aos Krenyê. O imóvel foi registrado, finalmente, como patrimônio da União de usufruto do povo Krenyê.

A Eneva assinou, portanto, um contrato de concessão em meio ao processo de demarcação do território indígena, reconhecido oficialmente no mesmo ano. As duas decisões, uma para explorar e outra para proteger, criaram um conflito até agora silencioso.

À InfoAmazonia, a ANP negou qualquer irregularidade no processo de leilão do bloco 117. Em nota, o órgão afirmou que “a homologação da TI Krenyê ocorreu apenas em 2018, após a realização da 14ª Rodada pela ANP, que foi em 2017”. Segundo a agência, o processo para o leilão seguiu as normas vigentes na época, incluindo manifestação conjunta da ANP, do Ibama e de órgãos ambientais estaduais.

Em junho de 2017, a ANP enviou ofício à Funai pedindo uma “breve análise das áreas em estudo para a 14ª Rodada” com o objetivo de “evitar quaisquer sobreposições das áreas a serem oferecidas com as Terras Indígenas”. No entanto, segundo a ANP, o órgão indigenista não se manifestou.

“Assim, a oferta do bloco seguiu todo o rito processual vigente à época, e, portanto, não houve erro na inclusão do bloco PN-T-117 no leilão da 14ª Rodada”, afirmou em nota.

Questionada, a Funai não respondeu a InfoAmazonia sobre como se deu a comunicação com outros órgãos a respeito do processo de demarcação do território Krenyê, nem sobre quais medidas serão adotadas para garantir os direitos da comunidade indígena.

Licença para perfurar

Em 2025, a Sema do Maranhão licenciou ao menos dois poços dentro do bloco 117. A reportagem procurou o órgão estadual por diferentes vias: fomos até a sede em São Luís, entramos em contato com a assessoria de imprensa, pedimos informações sobre o licenciamento por meio da Lei de Acesso à Informação e solicitamos providências à ouvidoria.

O objetivo era obter um documento público: o processo de licenciamento do bloco 117, com os respectivos poços já licenciados para perfuração. Por e-mail, o órgão ambiental estadual negou a existência do conflito territorial com a TI Krenyê: “de forma preliminar, a Sema ressalta que os licenciamentos das atividades da Eneva no Maranhão não apresentam interferência em terras indígenas localizadas no estado”. Além disso, o órgão não esclareceu à reportagem sobre a existência de poços licenciados no bloco 117. A InfoAmazonia só obteve a informação sobre a autorização dos dois poços para exploração por meio de pesquisa no Diário Oficial do Estado.

Após ser informado pela reportagem sobre a sobreposição do bloco à terra indígena Krenyê, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) disse que a área “não poderá ser explorada e terá que ser excluída [do bloco exploratório]”.

“A exploração de petróleo em terras indígenas não se encontra regulamentada no Brasil e hoje ela é vedada. Portanto, caso alguma nova TI seja implementada posteriormente à aquisição [do bloco], essa área sobreposta deverá ser retirada do objeto do licenciamento”, esclareceu o órgão ambiental federal.

Em 2021, a TI já estava definitivamente demarcada. Mesmo assim, no ano seguinte (2022), a ANP renovou o prazo contratual da Eneva para o cumprimento da fase exploratória, mantendo os mesmos limites da área licitada em 2017. A exploração deve começar até maio de 2026, que é o prazo final para início da fase de perfuração da área do bloco. A advogada Juliana de Paula Batista, especialista em direitos indígenas, avalia que pode ter havido uma falha de comunicação entre os órgãos do governo federal, mas ressalta que, com a demarcação do território, prevalece o direito dos povos indígenas.

“A terra indígena foi comprada. Agora, precisa ser retirada da base da ANP. Mas se a terra já estava em processo de compra, a ANP não poderia simplesmente colocar em leilão”. A outra opção para que não se criasse o conflito, segundo a advogada, “seria a Funai não ter realizado a compra dessa área e buscado outra área”.

À reportagem, a Funai reafirmou que a exploração de combustíveis fósseis em terras indígenas não é regulamentada, o que configura “um impedimento à exploração de blocos exploratórios incidentes em terras indígenas”. Também disse que cabe aos operadores cumprirem as exigências ambientais para o licenciamento da atividade, “sendo essencial para que os impactos sejam levantados”. Questionado, o órgão indigenista não esclareceu se foi informado e consultado sobre as licenças concedidas no ano passado para as perfurações no bloco 117.

Impactos antigos

A exploração de gás na Bacia do Parnaíba ganhou impulso em 2008, quando a MPX Energia, empresa criada pelo empresário Eike Batista, adquiriu o primeiro bloco na região — mais tarde, a companhia se tornaria a Eneva. O projeto adotou o modelo “reservoir-to-wire”, que integra extração e produção do gás, construindo usinas termelétricas próximas às jazidas de gás. Em 2013, a alemã E.ON injetou capital, justamente quando ocorreu a construção do Complexo Termelétrico do Parnaíba, em Santo Antônio dos Lopes (MA).

A chegada do empreendimento foi marcada por conflitos fundiários e remoções forçadas. A antiga comunidade Demanda, formada há quase um século, ficou impedida de acessar uma área de 900 hectares comprada pela Eneva. Privadas dos babaçuais e dos igarapés, as famílias perderam suas principais fontes de subsistência. Segundo os Ministérios Público Federal (MPF) e Estadual (MP/MA), cerca de 6 mil pés de babaçu foram derrubados para dar lugar às usinas.

Em 2015, os órgãos ingressaram com ações judiciais contra a Eneva e o governo estadual, apontando omissão da Secretaria Estadual de Meio Ambiente na fiscalização e na adoção de medidas de proteção às populações afetadas. Além do reassentamento das famílias, foram solicitadas indenizações por danos morais coletivos e a implementação de medidas compensatórias e mitigatórias, ainda em curso na comunidade.

Um laudo antropológico encomendado pelo MPF revelou falhas graves nos estudos de impacto e descumprimento das condicionantes ambientais. O documento, assinado pela antropóloga Maristela de Paula Andrade, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), alertava para o risco de cooptação das organizações comunitárias e criação de uma dependência econômica da companhia, uma previsão que, segundo o advogado Diogo Cabral, da Rede de Agroecologia do Maranhão (Rama), acabou se confirmando: “diante das circunstâncias, seria inevitável que surgisse uma dependência das comunidades em relação à empresa”.

O reassentamento foi, então, incluído como medida compensatória, segundo o MPF. Em 2016, as famílias foram deslocadas para a beira da BR-135, em dois núcleos batizados de Nova Demanda. Hoje, parte dos moradores trabalha em projetos ligados à Eneva — do fornecimento de alimentos para a prefeitura aos coffee breaks corporativos, além de serviços nas oficinas da planta de geração de energia.

Quase dez anos depois, as famílias mudaram o estilo e o modo de vida. Nilldete Vieira de Melo Silva, 53 anos, que antes vivia da quebra do coco babaçu, em uma casa de taipa, agora cultiva maracujá e integra a Associação de Produtores Familiares Rurais Agroecológicos Nova Demanda (APRAND).

Ela reconhece que a atuação do Ministério Público melhorou as condições de negociação e, consequentemente, o cumprimento das compensações à comunidade.

“Melhorou, as casas são todas de alvenaria, estavam mobiliadas, cada uma com três hectares de terra por família. Recebemos cursos e treinamentos”, conta. Hoje, ela participa do projeto “Elas Empreendedoras”, também promovido pela Eneva.

Mesmo assim, persistem problemas estruturais e a dependência econômica. Moradores relatam quedas de energia constantes, e algumas casas apresentaram rachaduras que exigiram reconstrução. Em agosto do ano passado, a escola local precisou ser fechada pelo mesmo motivo. Além disso, praticamente todos os serviços e entregas da associação dependem da intermediação da Eneva ou de empresas indicadas por ela.

Em Capinzal do Norte, município vizinho ao Complexo, onde a companhia apoia a Associação das Quebradeiras de Coco Babaçu (AMQCB), as mulheres relatam escassez de palmeiras e restrição de acesso aos babaçuais que ainda restam, quase todos dentro de fazendas privadas.

“Hoje a gente precisa ir muito longe para pegar o coco, e dependemos de um carro da prefeitura para trazer e quebrar em casa”, afirma Maria Vilani Lopes, 32. A AMQCB paga R$ 6 pelo quilo do coco, que é transformado em produtos. “Em um dia bom eu consigo quebrar 10 quilos”, conta.

Área vulnerável

Pareceres ambientais apresentados em 2015 e 2017, durante os processos de oferta dos blocos em leilões da ANP, apontam que a região da Bacia do Parnaíba foi classificada como de alta sensibilidade ecológica, principalmente pela biodiversidade local. O primeiro parecer também recomendou que fossem consideradas as unidades de conservação, os territórios indígenas e quilombolas nos licenciamentos.

Dois blocos, 117 e 133, têm uma parte localizada na zona de amortecimentoÁrea no entorno de uma unidade de conservação (UC) com normas e restrições específicas para minimizar impactos negativos de atividades humanas na UC. Ela serve como um “filtro” contra ruídos, poluição e expansão urbana, protegendo a UC de efeitos de borda e fragmentação de habitat. As atividades dentro da ZA são permitidas, desde que não representem risco à área protegida, e seu licenciamento ambiental pode depender da autorização do órgão gestor da UC. do Parque Estadual do Mirador, uma área prevista para a criação do Mosaico do Mirador — categoria especial de gestão territorial que integra diferentes unidades de conservação e outras áreas adjacentes. O território é voltado à proteção das nascentes dos rios Alpercatas e Itapecuru, de espécies ameaçadas, como a onça-parda, e das comunidades tradicionais que vivem na região, entre elas os povos Krenyê e Canela, além de moradores do interior e do entorno do parque.

O mosaico deverá recompor parte de uma área de cerca de 100 mil hectares excluída do Parque do Mirador em 2009, pela Assembleia Legislativa do Maranhão.

Mapa do Mosaico do Mirador, que pretende integrar diferentes áreas protegidas em área onde estão dois blocos de gás da Eneva (Foto: Luis Ushirobira/InfoAmazonia).

O agricultor e líder comunitário Joaquim Alves de Souza, presidente da Cooperativa Agroecológica pela Vida do Cerrado Sul Maranhense (Coopevida) e conselheiro do Parque Estadual do Mirador, vive na linha de frente dessa disputa.

“Nós estamos na entrada do Matopiba, esse monstro que avança sobre a agricultura familiar e as comunidades tradicionais. O mosaico é uma forma de juntar terras indígenas, o parque e as comunidades para que a gente possa se proteger e continuar vivendo bem nesses territórios”, contou Souza, que atualmente está empenhado na implantação de sistemas agroflorestais, que integram o cultivo de pomares, grãos e hortaliças ao meio ambiente.

Assim como a maioria dos habitantes da região, Souza não sabe detalhes da exploração de gás. “Esses grandes projetos, do gás ou do agronegócio, terminam sendo prejudiciais para todo mundo que ainda resiste no campo. A terra passa a valer mais, vem a pressão pra vender, e o pequeno agricultor, sem apoio nem assistência técnica, acaba sendo empurrado para fora”.

Para o advogado Diogo Cabral, a ausência de transparência e diálogo para exploração de gás nesta região viola o direito à consulta livre, prévia e informada (CLPI) das populações afetadas: “a Convenção 169 assegura o direito das populações tradicionais de serem consultadas sobre qualquer projeto ou ato administrativo que cause impactos sobre seu modo de ser e existir. E posso garantir que não teve processo de consulta. Isso envolve povos indígenas, as quebradeiras de coco babaçu e as comunidades quilombolas”.

Em algumas comunidades, como o quilombo Matões Moreira — totalmente sobreposto por um bloco de gás do complexo, o PN-T-68 —, a InfoAmazonia identificou campos de produção de gás a menos de 5 quilômetros dos limites do território. “É uma forma de produção violenta, que impacta diretamente o modo de vida dessas comunidades. Elas tinham que ser ouvidas”, defende Cabral.

Exploração x desenvolvimento

Santo Antônio dos Lopes está entre os municípios brasileiros que mais recebem royalties da exploração de gás e petróleo. Segundo o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o PIB per capita local chega a R$ 210 mil, o 48º maior do Brasil — quase quatro vezes o de Santos, cidade do maior porto do país. A renda média dos empregados formais é de 3,9 salários mínimos, uma das mais altas do Brasil na comparação entre municípios.

Mas os números mascaram uma desigualdade. O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) é baixo, ocupando a 4.921ª posição entre os 5.570 municípios brasileiros, e apenas 12% dos domicílios têm acesso à rede de esgoto. No centro da cidade que abastece o país com energia, o esgoto ainda corre pelas calçadas.

Moradores que vivem nas proximidades do Complexo relatam piora na qualidade da água, quedas de energia e problemas respiratórios. Na região, há poços de extração de gás da Eneva, onde é possível observar a queima do gás natural excedente — prática especialmente comum em áreas remotas da Amazônia, onde a falta de infraestrutura dificulta sua captura e processamento.

“No começo, meus filhos reclamavam de dor de cabeça, mas depois a gente se acostumou. Às vezes o cheiro de gás é forte, deve fazer mal, mas ninguém explica nada”, diz Raimundo Nonato Sabino, dono de um alambique de cachaça que funciona há três gerações no mesmo lugar. Desde 2010, eles dividem o espaço do terreno com quatro poços de produção de gás. A torre queima o excedente extraído quase que ininterruptamente.

Pela ocupação do lote, segundo Sabino, a Eneva paga R$ 6 mil mensais, como aluguel e pela inutilização de parte da área onde ele não pode mais plantar cana para abastecer o alambique. Um dos filhos trabalha na planta de gás da empresa.

Gás e agro: uma aliança com rótulo de ‘transição verde’

Nos últimos anos, além de ampliar a exploração do combustível fóssil para geração de energia, a Eneva tem investido pesado na produção de GNL, apresentado como alternativa para “descarbonizar” cadeias produtivas e como “combustível da transição”. A expectativa da empresa é aumentar essa produção em até 50%, até 2027. Desde 2024, a companhia promove o projeto do que chama de “maior corredor logístico rodoviário com foco na redução de emissões de CO2”. A iniciativa é voltada para o escoamento de produtos produzidos no Matopiba em caminhões movidos a GNL, que prometem ser até 20% menos poluentes que os motores a diesel.

O plano une a indústria do gás e o agronegócio sob o mesmo argumento da “transição energética”, consolidado em uma joint venture entre Eneva e Virtu, empresa nacional de logística de transporte, em parceria com a sueca Scania. A Eneva fornece o combustível; a Scania, os caminhões movidos a GNL; e a Virtu, o transporte de cargas.

Procurada pela reportagem, a Scania afirmou que “mantém um firme compromisso de produzir e comercializar veículos para seus clientes, oferecendo soluções e tecnologias que contribuam com o desenvolvimento da redução de emissão de gases de efeito estufa, especialmente no setor de transporte e logística”. Questionada, a Scania não respondeu se sabia das sobreposições de blocos de gás da Eneva com territórios protegidos.

O Plano Decenal de Expansão de Energia 2032, elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética do governo federal, prevê a construção de um gasoduto do complexo maranhense a Barcarena, no Pará, onde o GNL será carregado diretamente em navios-tanque que vão transportar o combustível para outras partes do mundo.

No segundo trimestre de 2025, a produção do Complexo do Parnaíba cresceu 381% em relação ao mesmo período do ano passado.

Segundo dados do 5º Inventário de Emissões Atmosféricas em Usinas Termelétricas do Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema), as usinas Parnaíba I e V, do complexo da Eneva no Maranhão, lideraram as emissões de CO2 para geração de energia elétrica em 2024. Pelo menos três das cinco usinas da Eneva em operação no Parnaíba estavam entre as 10 que mais emitiram CO2 para geração de energia elétrica no ano passado.

A atenção dispensada às termelétricas como alternativa energética impede que o país amplie a participação das energias renováveis no modelo energético, segundo Ricardo Baitelo, gerente de projetos do Iema e doutor em planejamento energético pela Universidade de São Paulo (USP): “se olhar com uma lupa, não há transição energética nesse modelo. Todo o movimento é para aumentar a produção. Ainda vamos enfrentar muito esse discurso da volta das térmicas”.

Segundo o inventário, as termelétricas a gás emitiram cerca de 13,2 milhões de toneladas de CO₂ em 2024 — praticamente a mesma emissão gerada pelo desmatamento registrado em Altamira, no Pará, que foi o segundo município mais desmatado no mesmo ano (12,9 MtCO2)— e mais da metade das emissões de todas as térmicas, incluindo as movidas a óleo e carvão.

“Se criou uma lenda de que o gás natural é o combustível da transição. Nós já estamos vivendo os efeitos das mudanças climáticas na pele, e, mesmo assim, continuamos apostando em combustível fóssil”, explica Anton Altino Schwyter, analista de projetos do Iema e doutorando em energia pela USP.

Notas

1. Com pesar, a InfoAmazonia informa que o cacique Cu’tetet Krenjê faleceu em 3 de janeiro de 2026, após o fechamento desta reportagem. Cu’tetet, infelizmente, nunca saberá o desfecho da história em relação ao próprio território. Em nota, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) do Maranhão o descreveu como um “grande guerreiro, sábio, uma grande liderança, articulador da Teia de Povos e Comunidades Tradicionais”. Em homenagem nas redes sociais, parentes disseram que Cu’tetet “não partiu. Ele retornou à aldeia dos ancestrais. Sua força vive no povo Krenyê”.

2. Esta investigação contou com o apoio do Journalismfund Europee do IJ4EU (Investigative Journalism for Europe)

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