Os incêndios na Patagônia argentina expõem a negligência das autoridades

Foto: Plena Mata

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13 Janeiro 2026

Os incêndios são uma consequência direta da falta de prevenção, de controles insuficientes e de políticas públicas frágeis.

O artigo é de Hernán Giardini coordenador da campanha florestal do Greenpeace Argentina, publicado por El País, 13-01-2026.

O fogo não avança sozinho. Ele avança por causa de decisões tomadas e, sobretudo, por causa daquelas que não são tomadas. Segundo dados oficiais preliminares, nestas poucas semanas de verão, mais de 21 mil hectares de floresta já foram reduzidos a cinzas na Patagônia argentina.

A região florestal andino-patagônica é uma das últimas reservas remanescentes de florestas temperadas no mundo, com mínima perturbação humana e valiosa biodiversidade. É um dos biomas mais bem preservados da Argentina.

Puerto Patriada, El Hoyo, Epuyén, Parque Nacional Los Alerces, El Turbio na província de Chubut e Parque Nacional Los Glaciares em Santa Cruz: lugares de imensa beleza, biodiversidade e água doce, agora associados ao fogo e à destruição. Paisagens que não serão apreciadas pelas gerações futuras.

Esta não é uma tragédia inesperada. Acabamos de passar por um inverno com pouca neve e chuva. A crise climática chegou e não pede permissão. Secas prolongadas, temperaturas extremas, ventos fortes, juntamente com a disseminação descontrolada de pinheiros invasores — que servem de combustível — criam um coquetel explosivo. Negar ou subestimar esse cenário é uma forma de irresponsabilidade política que custa florestas e lares.

Estima-se que 95% dos incêndios florestais sejam causados ​​por atividades humanas, seja por negligência ou intencionalmente: fogueiras mal apagadas, churrascos em áreas não autorizadas, bitucas de cigarro, queima de detritos florestais, desmatamento para pastagem e especulação imobiliária. Não se trata de um fenômeno natural inevitável. É uma consequência direta da falta de prevenção, de controles insuficientes e de políticas públicas deficientes.

Como pode um governo negar ajuda para incêndio florestal sabendo que essa região depende do turismo?

Sabotagem?

O que ganham os argentinos com essa negligência toda?
Quem sai ganhando com essa negligência toda?

Patagônia em Chamas 🔥
ARGENTINA 2026 pic.twitter.com/ZLAYpaEMzQ

— Bruno Brezenski (@bbbrezenski) January 10, 2026

Se houver responsáveis, o judiciário deve investigá-los, e não apontar o dedo de plataformas políticas. O tempo e a energia gastos na busca por bodes expiatórios deveriam ser usados ​​para fortalecer a prevenção e o combate a incêndios.

A dimensão do problema já não permite eufemismos. Em 2025, quase 32 mil hectares de florestas andino-patagônicas foram afetados por incêndios durante o verão, quatro vezes mais do que na temporada anterior. Esses foram os piores incêndios registrados na região nas últimas três décadas. Isso não é uma anomalia: é uma tendência.

No entanto, a resposta do governo tem sido oposta. A Argentina está entre os 15 países com as maiores taxas de desmatamento do mundo, e o governo federal reduziu os orçamentos da Lei Nacional das Florestas Nativas e do Fundo Nacional de Gestão de Incêndios. Menos recursos significam menos prevenção, menos controle e menos capacidade de reação, tanto para o governo federal quanto para os governos estaduais. Soma-se a isso a proposta inédita de modificar a Lei Nacional das Geleiras, colocando em risco as principais fontes de água doce do país em um contexto de crise hídrica cada vez mais grave.

A situação dos bombeiros em todo o país é a ilustração mais gritante da falta de interesse. O Serviço Nacional de Parques conta com apenas cerca de 400 bombeiros, quando o mínimo necessário é de 700 para cobrir os cinco milhões de hectares sob sua jurisdição e auxiliar as províncias em caso de emergências. Eles são solicitados a enfrentar incêndios de proporções históricas com pessoal insuficiente, equipamentos limitados, salários irrisórios e extremo esgotamento físico e emocional.

Entretanto, o fogo não espera. Cada foco que não é controlado a tempo se transforma em um monstro incontrolável. Cada hectare perdido significa biodiversidade que não retornará tão cedo, solos degradados, recursos hídricos comprometidos e comunidades afetadas.

A floresta não queima sozinha. Ela queima quando os orçamentos são cortados, quando as pessoas fecham os olhos para o problema, quando as mudanças climáticas são negadas, quando a improvisação substitui o planejamento. Ela queima quando chegamos tarde demais.

Ainda temos tempo para mudar o rumo, mas não com retórica vazia. Precisamos de mais prevenção, mais controle, mais bombeiros, mais aviões-tanque, erradicação de pinheiros invasores e penalidades para o desmatamento. Preparar-se para um cenário de aumento de incêndios florestais não é mais uma opção: é uma obrigação que o povo deve exigir e os governos devem cumprir.

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