13 Janeiro 2026
O governo de Milei afirma que 22 dos 32 incêndios estão sob controle. Organizações ambientais e indígenas acusam o governo de cortar verbas para prevenção e combate a incêndios.
A reportagem é de Javier Lorca, publicada por El País, 13-01-2026.
Florestas nativas e pastagens, plantações, cidades e resorts turísticos na Patagônia já foram devastados por diversos incêndios que afetam a região andina do sul da Argentina. Segundo dados oficiais, o desastre já atingiu pelo menos 13 mil hectares. Nas últimas horas, a chuva e o trabalho dos bombeiros e brigadas de incêndio florestal trouxeram algum alívio: o governo de Javier Milei informou que 22 dos 32 focos de incêndio foram extintos, embora o principal ainda esteja ativo. Organizações ambientalistas e indígenas denunciam a responsabilidade do governo de extrema-direita pelos cortes no orçamento do Serviço Nacional de Gestão de Incêndios.
Em condições de seca, altas temperaturas e ventos fortes, incêndios florestais deflagraram nas últimas duas semanas nas províncias argentinas de Chubut, Santa Cruz, Neuquén e Río Negro, devastando 13.738 hectares, segundo um levantamento oficial que reconhece a falta de dados em diversos focos de incêndio. A situação mais crítica é em Chubut, onde pelo menos 12.974 hectares foram queimados. A grande maioria dos incêndios está concentrada ao redor do Lago Epuyén, nas áreas conhecidas como Puerto Patriada, El Hoyo e regiões próximas, a quase 1.700 quilômetros de Buenos Aires. Os incêndios continuam a arder nessas áreas, bem como no Parque Nacional Los Alerces.
Após a chuva que caiu na região, o governo de Milei anunciou na noite de domingo que o combate aos incêndios estava dando resultados e que dois terços das chamas estavam sob controle. "Agradeço a todos que trabalharam para garantir que os recursos chegassem onde eram necessários", disse o presidente de extrema-direita em uma mensagem em suas redes sociais. "Quero agradecer especialmente a todos os bombeiros, membros das brigadas e a cada voluntário que está combatendo o fogo e dando tudo de si", acrescentou.
Segundo informações fornecidas pelo governo nacional e pelo governo provincial de Chubut, 581 pessoas estão trabalhando na área crítica, em uma operação que inclui helicópteros, aviões-tanque, aeronaves anfíbias e um avião-tanque de combate a incêndios. Até segunda-feira, 17 famílias haviam sido evacuadas e três pessoas com queimaduras foram hospitalizadas.
A promotoria que investiga a origem do incêndio na região do Lago Epuyen acredita que ele foi provocado intencionalmente com o uso de combustível. A administração de Milei — assim como o governo provincial — apontou o dedo para as comunidades indígenas Mapuche que vivem na região. “As evidências preliminares indicam que esses crimes estão ligados a grupos autoproclamados terroristas Mapuche com histórico de ataques contra a segurança pública e a propriedade privada, sob o pretexto de terrorismo ambiental”, afirmou o Ministério da Segurança Nacional em um comunicado à imprensa.
O procurador responsável pela investigação contradisse essa hipótese na segunda-feira. "Está completamente descartado", disse Carlos Díaz Mayer, quando o programa de notícias Buenas tardes, China o questionou sobre o possível envolvimento do povo Mapuche no início do incêndio. "É a coisa mais distante da verdade", afirmou o magistrado. A investigação continua a tentar determinar os possíveis responsáveis.
Pegaram mais 4 turistas israelenses tacando fogo na Patagônia. https://t.co/t4q8c7PhK2
— Raphael Machado (@camaradamachado) January 12, 2026
“Por que os incêndios continuam acontecendo? Porque não há recursos, porque não há prevenção e, como sempre, chegam tarde demais. E qual é a resposta unilateral do governo? Culpar o povo Mapuche”, responderam quase 30 organizações comunitárias indígenas às acusações. A resposta foi direcionada ao governo provincial de Chubut, liderado por Ignacio Torres.
🔥 Argentino flagrou estrangeiros acendendo fogo em bosque nativo na Patagônia 🇦🇷
— Rogério Tomaz Jr. (@rogeriotomazjr) January 11, 2026
O que Bolsonaro fez entre 2019-2022 no Brasil está se repetindo com muito mais intensidade na Argentina com Javier Milei. Nesse momento, milhares de hectares estão pegando fogo na Patagônia e já… pic.twitter.com/b2QiUETkn3
Cerca de vinte organizações ambientais também questionaram as autoridades em um documento intitulado "Inação do Estado em relação ao clima agrava novamente os incêndios na Patagônia". "A área de floresta afetada por incêndios florestais quadruplicou [na Patagônia]: passou de 7.747 hectares entre outubro de 2023 e março de 2024 para 31.722 hectares entre outubro de 2024 e março de 2025", alerta o documento divulgado pela Fundação Meio Ambiente e Recursos Naturais, Greenpeace Argentina, Associação Amigos da Patagônia, Fundação Patagônia Natural, Associação de Advogados Ambientais e outras organizações.
Para essas entidades, a propagação dos incêndios insere-se num contexto de desfinanciamento do Serviço Nacional de Gestão de Incêndios, o que põe em risco a estrutura da agência responsável não só pelo combate e supressão de incêndios, mas também pelas tarefas essenciais de prevenção.
Segundo organizações ambientais, o governo deixou de gastar mais de 22% do orçamento do setor em 2024 e 2025. Os fundos alocados para este ano representam uma redução real de 69% em comparação com dois anos atrás, quando Milei assumiu o cargo. Em um comunicado separado, o Greenpeace alertou para um ecocídio em curso, observando que 21 mil hectares já foram devastados pelo fogo.
Como pode um governo negar ajuda para incêndio florestal sabendo que essa região depende do turismo?
— Bruno Brezenski (@bbbrezenski) January 10, 2026
Sabotagem?
O que ganham os argentinos com essa negligência toda?
Quem sai ganhando com essa negligência toda?
Patagônia em Chamas 🔥
ARGENTINA 2026 pic.twitter.com/ZLAYpaEMzQ
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