Brasil mantém patamar de 6 mil mortos por ano pela polícia

Fonte: Pexels

Mais Lidos

  • “Dizer que somos ambientalistas, sem fazer nada, é também um tipo de negacionismo climático”. Entrevista com Alberto Garzón

    LER MAIS
  • Brasil mantém patamar de 6 mil mortos por ano pela polícia

    LER MAIS
  • Trump esvazia ordem mundial e gera “momento nefasto” para as Américas. Entrevista com Guilherme Casarões

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

09 Fevereiro 2026

Dados do Ministério da Justiça mostram que País está há quatro anos em patamar elevado de letalidade policial. Especialistas ouvidos pela Ponte apontam escolhas políticas como principal causa das 6.519 mortes registradas em 2025.

A reportagem é de Catarina Duarte, publicada por Ponte Jornalismo, 04-02-2026.

O Brasil voltou a registrar em 2025 mais de 6 mil mortes em ações policiais, patamar que se mantém pelo quarto ano consecutivo. A série histórica indica que, após um crescimento contínuo entre 2015 e 2021, o país estacionou em um nível elevado de letalidade policial, sem apresentar reduções consistentes. Para pesquisadores na área da segurança pública, os números não são reflexo de escolhas políticas que definem como e contra quem a força do Estado é empregada.

Em 2015, foram registradas 2.427 mortes em ações policiais. Seis anos depois, em 2021, o número chegou a 6.544 — pico da série. Desde então, as oscilações são pequenas: 6.451 em 2022, 6.398 em 2023, 6.238 em 2024 e 6.519 em 2025. Os números indicam que há um modelo consolidado de segurança pública que mantém esses números tão altos. Os dados são do Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Ao longo de 2025, as mortes por intervenção policial se mantiveram, em grande parte do ano, num patamar de 500 vítimas por mês. O maior pico ocorreu em outubro, com 705 mortes, seguido por novembro, com 585. O menor número foi registrado em dezembro, com 450.

A análise por estados reforça o caráter nacional do problema. A Bahia, governada pelo petista Jerônimo Rodrigues, lidera em números absolutos as mortes por intervenção policial em 2025. O estado nordestino é seguido por São Paulo, onde o bolsonarista Tarcísio de Freitas (Republicanos) comanda. O Rio de Janeiro, sob a batuta de Cláudio Castro (PL), também ligado ao bolsonarismo, ficou em terceiro no registro de mortes.

Na sequência aparecem Pará, Paraná, Goiás, Minas Gerais, Ceará, Sergipe e Maranhão. Estados de diferentes regiões e governados por distintos espectros políticos figuram entre os mais letais.

Esse cenário de violência policial institucionalizada se materializa em episódios de grande impacto. Em outubro de 2025, uma operação policial nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, deixou 121 mortos, tornando-se a mais letal da história do estado. O número supera, inclusive, o massacre do Carandiru, ocorrido em 1992, quando 111 pessoas foram mortas dentro da Casa de Detenção de São Paulo.

Letalidade é fenômeno político

Para Rafael Rocha, coordenador de projetos do Instituto Sou da Paz, a letalidade policial é um fenômeno político antes de tudo. Ele avalia que o crescimento observado entre 2015 e 2021 está ligado tanto ao aumento dos conflitos entre facções quanto à consolidação de um discurso que passou a normalizar a violência policial.

“A gente tem um aumento ininterrupto de 2015 a 2021. Tem vários fatores, mas talvez dois dos principais sejam o aumento dos conflitos entre o crime e um discurso que vai ser uma das estruturas do bolsonarismo, de que a polícia tem que matar, que ‘direitos humanos é para humanos direitos’”, afirma.

Segundo Rafael, esse discurso foi incorporado por governadores de diferentes partidos e orientações ideológicas, inclusive em estados governados pela esquerda, o que ajuda a explicar por que a letalidade se mantém elevada em diversas regiões do país. “Vai ter isso em Minas, vai ter isso em Goiás, vai ter em São Paulo e mesmo na Bahia, que é um estado governado pela esquerda. Os governadores encamparam em vários momentos esse discurso”, diz.

Para ele, as diferenças entre os estados não se explicam apenas por fatores territoriais ou populacionais, mas principalmente pelo grau de autorização política ao uso da força. “Antes de tudo, a grande definição é o quanto o governador e o secretário autorizam que a polícia use a força”, afirma. Rafael acrescenta que a forma como o Estado reage às mortes em operações também comunica permissividade às corporações. “O que é feito quando um policial mata numa situação que, evidentemente, ele não precisava matar? Isso passa uma mensagem para os policiais”, diz.

Na avaliação do pesquisador, há ainda uma ausência de controle externo efetivo, especialmente do Ministério Público, o que contribui para a sensação de impunidade. “É uma vontade política, é uma ausência do Ministério Público. Isso indica para o policial que ele pode agir de maneira violenta, que não vai ter nenhuma repercussão. Pelo contrário, muitas vezes ele vai ser reconhecido como herói”, afirma.

Sobre o papel do governo federal, Rafael afirma que houve alguns avanços, como a criação do painel do Sinesp com dados de letalidade policial, mas avalia que as medidas são insuficientes. Para ele, o instrumento mais poderoso para induzir mudanças segue sem ser utilizado: “O governo federal tem um instrumento muito poderoso que não é usado, que é simplesmente reter os repasses do Fundo Nacional de Segurança Pública, caso o Estado não cumpra uma série de diretrizes”.

Bahia não tem política estruturada para reduzir letalidade

Na Bahia, estado que lidera o ranking nacional de letalidade policial em 2025, Wagner Moreira, do IDEASAssessoria Popular, afirma que a política de segurança pública do estado, por muito tempo, “se pautou pelo negacionismo dos dados e de ações baseadas em evidências”.

Segundo ele, em 2023 houve maior possibilidade de interlocução entre governo e sociedade civil, quando organizações pressionaram pela edição de duas portarias que criaram grupos de trabalho para um Plano Estadual de Redução da Letalidade Decorrente de Intervenção Policial e para o aprimoramento e transparência dos dados. “Infelizmente, essas portarias ficaram no papel. (…) Dali em diante, nada mais caminhou. As promessas ficaram ao vento”, diz.

Dois anos depois, o estado lançou o Plano de Atuação Qualificada de Agentes de Estado (PQUALI), que prevê redução de 10% das mortes por semestre. Para Wagner, há uma mudança explícita de enfoque: “na Portaria 198 falava de um Plano Estadual de Redução da Letalidade Decorrente da Intervenção Policial, e pulamos para um plano que fala de Atuação Qualificada de Agentes de Estado”.

Ele avalia que, embora existam avanços pontuais, como maior disponibilidade de dados pela corregedoria, não há uma ação estruturada para garantir redução das mortes. “Nós temos uma ação pontual, mas não temos uma ação estruturada no sentido de garantir essa redução”, afirma.

Para Wagner, a Bahia precisa retomar o diálogo com a sociedade civil e criar mecanismos mínimos de accountability. “É importante retomar uma interlocução com a sociedade civil e pensar um processo que se permita o mínimo de accountability”, diz, defendendo que a redução da letalidade se torne uma pauta assumida pelo governo estadual.

Wagner também afirma que o programa Bahia Pela Paz, que substituiu o Pacto Pela Vida, prevê espaços de gestão compartilhada com participação social, mas que isso não ocorre. “O programa é apresentado como algo que vai ter gestão compartilhada, mas, na prática, isso nunca aconteceu”, afirma.

Leia mais