Considerações da pesquisa: Violências conjugais e Religiosidade/Espiritualidade. Artigo de Wladimir Porreca

Ensino católico. | Foto: PxHere

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17 Julho 2024

Um grupo de pesquisadoras da Universidade de Brasília (Marlene M. Magnabosco, Beatriz F.P. Souza, Laura M. S. Bello), representado pelo Pe. Wladimir Porreca, da diocese de São João da Boa Vista, concluiu um estudo sobre os benefícios da prática religiosa e espiritual no enfrentamento das violências domésticas. A investigação, por meio de entrevistas qualitativas, com perguntas abertas e narrativas, realizadas em formato digital, envolvendo 10 casais brasileiros com idades entre 40 e 60 anos, casados há mais de 15 anos e que se identificavam com pertença religiosa, apontou que espiritualidade/religiosidade desempenha um papel relevante no enfrentamento das violências conjugais.

As pesquisadoras consideraram que, de fato, a Religiosidade/Espiritualidade influencia na conjugalidade e pode ser um recurso no enfrentamento às violências conjugais. O estudo identificou e compreendeu que os elementos espirituais e religiosos que desempenham um papel significativo no enfrentamento das violências conjugais, principalmente por destacar a importância do coletivo, que favorece a experiência do pertencimento e colabora para uma identidade de práxis, além de proporcionar e motivar elementos relacionais entre os cônjuges que geram o Capital Social Familiar, como: respeito, pertença, tolerância, diálogo, persistência, perseverança, amor e outros, potencializados e justificados pelo sagrado e pelos membros dos segmentos religiosos, mesmo considerando fatores de risco que esses podem causar.

O artigo é de Wladimir Porreca, pesquisador e padre da Diocese de São João da Boa Vista, São Paulo.

Eis o artigo

A Religiosidade/Espiritualidade (R/E) impacta a vida conjugal, cristã ou não. É um recurso “sagrado” que auxilia em prevenir e apresentar ferramentas para o enfrentamento da violência entre os casais, principalmente por considerar a dignidade humana de cada cônjuge como imagem e semelhança de Deus, portanto, respeitar o outro como a si mesmo, utilizar a prática do diálogo, da tolerância, da paciência, da persistência e da perseverança, da esperança, do amor. Estas práticas são potencializadas e justificadas pelo Sagrado, presente nos ensinamentos bíblicos e no referencial, Jesus Cristo, com o seu mandamento do “amor ao próximo” e no estilo de vida apresentado aos seus seguidores.

O aspecto de pertencimento a um grupo onde favorece o desenvolvimento da R/E fez com que os cônjuges pudessem contar com suporte emocional e social, que pode facilitar um relacionamento mais estável, duradouro e significativo, bem como moldar seus comportamentos, emoções e pensamentos pessoais e relacionais.

A R/E colabora para que as pessoas criem um espaço de falar e ser ouvido, na busca do comum - o Sagrado, o religioso, o espiritual - que constrói e descontrói conceitos e ações, muitas vezes cristalizadas e rígidas, bem como capacita os casais a lidarem com a vida na geração de Capital Social Familiar. Daí a importância de se entender que a R/E é uma questão de identidade pessoal e conjugal, muito mais do que doutrina ou prática religiosa, e está profundamente entrelaçada com todos os outros aspectos como da cultura, etnia, raça, gênero, orientação sexual, orientação politica.

R/E não só é um recurso potente e promissor no enfrentamento às violências conjugais. Ela influencia a vida conjugal e colabora para a geração de Capital Social Familiar, principalmente em promover meios e condições de coibir e impedir pequenas violências, consideradas “pecados”, que podem assumir grande proporções. Exemplos disso são os ensinamentos de paz e amor, orações, exercícios espirituais, leituras, respiração, meditação, redes de apoio psicossocial e proteção e outros.

Contudo, a R/E pode favorecer as violências conjugais quando justifica atos de violência, quando justifica a submissão da mulher, quando seus líderes incentivam o suportar as violências conjugais para manter o ideal de “indissolubilidade” (no caso judaico-cristão), intimidando os cônjuges a mascarar e esconder, por vergonha, disputa de casal ideal ou medo de fracasso, as realidades violentas e abusivas.

Como os casais não apresentaram diferença religiosa e espiritual entre si, a pesquisa ficou limitada à homogamia religiosa conjugal cristã, podendo despertar outras investigações que podem favorecer outras reflexões.

O casal religiosamente homogânico cristão e os de outras denominações religiosas têm, predominantemente, o desenvolvimento e a manutenção do repertório pessoal e social orientado e associado para as mesmas normas, preceitos e crenças, pautados nos mesmos ensinamentos religiosos que professam. A religião parece ser um fator que condiciona o comportamento pessoal e dual, bem como a moralidade e o desempenho de papéis conjugais dos casais homogâmicos.

O eixo religioso/espiritual apresentou de modo mais associado a relação conjugal, quando além de afiliarem ambos são praticantes da mesma religião, podem ainda contar com o apoio, assistência e proteção dos membros do segmento religioso, bem como a instituição religiosa em si. E ainda, recorrer ao Sagrado religioso/espiritual como uma instância de obtenção de força, graças e bênçãos que o cônjuge pode recorrer.

Confira abaixo, em inglês, o estudo na íntegra.

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