Não podemos nos calar sobre o Evangelho. Artigo de Alberto Melloni

Matteo Salvini. Foto: Reprodução YouTube

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09 Julho 2019

A propaganda política de Matteo Salvini conseguiu sequestrar o catolicismo tradicionalista integralista. E depois foi além.

A opinião é do historiador italiano Alberto Melloni, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação de Ciências Religiosas João XXIII, de Bolonha, em artigo publicado por La Repubblica, 07-07-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

O formato propagandístico de Salvini continua exercendo um efeito hipnótico sobre os eleitores e, portanto, sobre o eleitorado católico: com instrumentos, dimensões e objetivos específicos. A propaganda salviniana, de fato, conseguiu fazer refém não só o catolicismo tradicionalista integralista, que já era dele. Ele não só o pôs em contato, absorvendo o voto do Forza Nuova e da CasaPound, com pulsões supremacistas e antissemitas dos quais hoje se veem os efeitos em países como a Polônia. Mas depois foi mais longe.

De fato, ele soube seduzir e sequestrar parte do devocionalismo conservador católico: certamente por fins eleitorais óbvios (objetivo já alcançado), e não menos para dividir a Igreja, com efeitos e mandantes que devem ser procurados entre os grandes atores internacionais hostis ao papa Francisco.

A propaganda dos spin doctors da Liga, de fato, enredou aquela parte do catolicismo reivindicando a titularidade de uma lista de valores inegociáveis da “direita cristã” (não ao aborto, aos direitos LGBT, à liberdade religiosa, à migração), nem sempre praticados. E opôs a eles uma lista de valores “cristãos papistas” adequados aos “comunistas” (socorro aos náufragos, cuidado dos pobres, fraternidade humana, diálogo inter-religioso).

Agora, o dilema que hoje se levanta na consciência dos fiéis e dos pastores católicos não diz respeito a listas de valores, mas sim à rejeição de antagonismos que dividem a Igreja. É sobre isso que a consciência cristã não pode se calar: reduzir a Igreja a res inanimada, a ser dividida como ocorreu com a sociedade e o discurso público, ao qual se impede de dizer a palavra do Evangelho.

Se a Igreja reagir, evitará ser vampirizada, defenderá o papa, prestará um serviço ao país.

É plausível que a Igreja se desperte de torpor? Sim, mas somente se reconhecer que a sua fraqueza remonta às escolhas dos anos 1990. Quando, ao sonhar com uma nova “relevância” pública no maravilhoso mundo berlusconiano, até mesmo a Igreja descartou aquelas que eram as duas alavancas com as quais merecera respeito e dera ao país homens de valor: isto é, a construção das competências e a formação das consciências. Desfeita essa tensão, ocorreu o inevitável: o alinhamento ideológico tornou-se uma virtude, e a preguiça evangélica, um mérito.

A prova da extenuação da Igreja italiana chegou em Florença em novembro de 2015: naquele momento, o papa Francisco fez um discurso deflagrador no plano espiritual, teológico, político, e a reação da Igreja italiana foi zero, um zero do qual Francisco se lamentou publicamente.

Nessa condição de anemia espiritual, obter o consenso paroquial e tornar-se um “partido anticristão” que vaia o Papa era um objetivo plausível: e a propaganda salviniana trabalhou nisso. Tanto que o seu antagonista não é um pequeno partido católico ou alguma pequena ideia católica: mas sim um ato sinodal que mostre a unidade da Igreja na obediência ao Evangelho.

Mas os bispos não querem fazer nada enquanto o Papa não ordenar, e o Papa não ordena enquanto os bispos não quiserem. E, portanto, o dilema continua sendo um dilema das consciências. O que não é uma boa notícia.

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