Sari Hanafi é professor de Sociologia e diretor do Departamento de Sociologia, Antropologia e Estudos de Mídia da Universidade Americana de Beirute. É também editor do Idafat, periódico árabe de Sociologia, e vice-presidente da Associação Internacional de Sociologia e do Conselho Árabe de Ciências Sociais. De origem sírio-palestina, vivenciou a Segunda Intifada em primeira mão. Em seu livro mais recente, Contra o Liberalismo Simbólico: Um Apelo à Sociologia Dialógica (Hipatia Press, 2026), analisa como o que chama de "liberalismo simbólico" se consolidou na nova ordem internacional.
A entrevista com Sari Hanafi é de Queralt Castillo Cerezuela, publicada por El Salto, 20-04-2026.
Você acaba de publicar na Espanha Contra o Liberalismo Simbólico. O que é liberalismo simbólico? Seria essa contradição entre o que dizemos e o que fazemos?
O conceito de "liberalismo simbólico" se baseia em dois conceitos. O primeiro é a justiça social, no sentido de que o liberalismo não se resume apenas às liberdades, mas também a como equilibrar liberdade e equidade. Frequentemente, esses dois conceitos entram em conflito. O outro eixo é o pluralismo. Para o liberalismo, o pluralismo é muito importante. Embora a sociedade deva concordar com uma concepção de justiça, porque esta lida com direitos e a redistribuição de riquezas, deve deixar a concepção do "bem" para o nível individual. E o que entendemos por concepção do "bem" é tudo o que se relaciona à nossa visão de mundo, ao nosso estilo de vida, ao que queremos comer, beber, vestir e assim por diante. O que quero dizer é que os liberais estão impondo cada vez mais sua concepção humanista do bem à sociedade. O exemplo que sempre dou é o do véu islâmico na França, que foi proibido em escritórios e escolas. Não só uma concepção de "bem" foi imposta, como a questão também foi excessivamente litigada. Acredito que há uma inflação dos direitos humanos, da sua universalidade. Embora seja verdade que a Declaração Universal dos Direitos Humanos tenha sido um belo momento na história da humanidade, creio que ela deva ser entendida de forma abstrata, e não concreta. Isso significa que os espanhóis devem desenvolver seu próprio sistema de direitos humanos, o Líbano também, o Catar também, sempre sob a égide da Declaração Universal. No livro, apresento diferentes exemplos relacionados à liberdade acadêmica, à cultura do cancelamento, ao laicismo francês e à sexualidade e identidade de gênero.
No último capítulo, por exemplo, abordo o tema da família. Quando digo "família", não me refiro apenas à família tradicional. Família é também um conceito mais amplo. A família importa, e a forma como uma família escolhe criar seus filhos importa para ela. Dou o exemplo da Suécia, onde, surpreendentemente, cerca de 4.000 crianças são retiradas de suas famílias biológicas a cada ano e colocadas com outras famílias. É um número enorme. Há serviços sociais, um exemplo puro de liberalismo simbólico, que querem impor uma certa forma de educação familiar.
Seriam aqueles que justificam a agressão dos EUA e de Israel contra o Irã sob o pretexto de libertar a população iraniana do regime dos aiatolás um exemplo de liberalismo simbólico?
Permitam-me mergulhar na história por um momento. Hobbes, Montesquieu e todos esses heróis do pensamento liberal clássico sempre pensaram exclusivamente em termos de Estado-nação. Nunca se preocuparam com colônias. David Hume chegou a escrever um texto, assim como John Stuart Mill, afirmando que alguns países não merecem o liberalismo. Hume considerou a escravidão aceitável; disse que algumas nações precisam ser escravizadas. Um exemplo claro é a França, que foi muito ativa na elaboração da Declaração Universal dos Direitos Humanos, mas, após redigir essa bela declaração, realizou um massacre contra os argelinos. O liberalismo realmente presta pouca atenção ao outro além do nacionalismo; e o que estamos testemunhando hoje é a prática colonial clássica. Do lado israelense, não se deseja uma solução de dois Estados, nem mesmo uma solução de um Estado. Israel promove um regime colonial de assentamentos e apartheid, exatamente como na África do Sul. E os americanos estão nisso por causa do petróleo e da geopolítica. É por isso que digo que, nesta agressão [ao Irã], estamos diante de uma prática colonial clássica. É evidente que o povo iraniano vive sob o inferno imposto por seu governo. Mas, mesmo que eu discorde da forma como as autoridades iranianas restringem as liberdades, não podemos de forma alguma aceitar a destruição em massa que mata tantos civis porque querem impor uma solução ao Irã.
Você costuma falar sobre como a polarização deixa pouco espaço para o diálogo.
Há guerras culturais em todos os países. Na Espanha, há uma continuação da Guerra Civil entre os franquistas e a direita, de um lado, e a esquerda, do outro. E essa polarização não é culpa exclusiva da direita populista. Para entender essa polarização, precisamos ver o que nós, da esquerda, fizemos, como abandonamos as pessoas. Nos tornamos uma esquerda cultural e autoritária. A mensagem é que tanto o lado conservador quanto o liberal são responsáveis por essa polarização. É por isso que precisamos pensar em como ampliar os espaços para um maior pluralismo. Eu, por exemplo, tenho sido muito veemente e crítico do genocídio israelense em Gaza, mas, ao mesmo tempo, há alguns meses, me reuni com Thomas Piketty e Gilles Sabiro, e juntos redigimos uma declaração sobre uma Confederação Palestino-Israelense, que foi assinada por muitos acadêmicos do mundo todo. Acredito que, mesmo quando defendemos uma posição claramente crítica sobre algo, devemos sempre encontrar espaços onde possamos nos encontrar pessoalmente e conversar. Agora, mais do que nunca, precisamos de espaços para o diálogo.
Desde 7 de outubro de 2023, e agora também com a guerra entre Israel e os Estados Unidos contra o Irã e o Líbano, dezenas de análises foram publicadas. Você acha que o Oriente Médio ainda é visto sob uma perspectiva eurocêntrica e colonial?
Sobre isso, há dois pontos a serem considerados. Primeiro, a invasão russa da Ucrânia e a contínua ocupação israelense dos territórios palestinos, tanto na Cisjordânia quanto em Gaza, não são julgadas da mesma forma. Isso é um fato. Segundo, e mais grave, há a crescente instrumentalização dos direitos humanos. Os direitos humanos se tornaram uma ferramenta para os poderosos, e é por isso que os associo à elite liberal, que os utiliza para impor sua agenda. Pessoas são acusadas de antissemitismo simplesmente por se oporem a Israel. E, infelizmente, com exceção da Espanha e da Irlanda, as consequências são muito sérias: vimos professores universitários demitidos e estudantes expulsos de universidades por protestarem pacificamente. O lema "Palestina Livre, do rio ao mar" não se trata de expulsar ninguém, mas de libertar esse espaço de qualquer ideologia nacionalista e chauvinista. Ninguém está pedindo a expulsão de israelenses ou judeus desse espaço. Simplesmente afirma que esse espaço não pode coexistir pacificamente com uma ideologia colonial e nacionalista como o sionismo, especialmente considerando a transformação pela qual passou. O sionismo experimentou um momento de emancipação, até certo ponto, diante da perseguição aos judeus na Europa durante os séculos XIX e início do XX. Mas essa ideologia se transformou em um sionismo liberal simbólico e um sionismo religioso. Acredito que a gravidade desta guerra, em comparação com outras, tem a ver com a linguagem teológica horrível que está sendo usada. Netanyahu, em algumas ocasiões, se referiu a Amaleque. O secretário de Defesa israelense também se referiu ao conflito como uma "cruzada", afirmando em cinco ocasiões distintas que esta é uma guerra do judaísmo e do cristianismo contra o islamismo.
Será que estamos testemunhando uma fase, ou estamos realmente diante de uma reconfiguração do mundo? É evidente que o direito internacional entrou em uma nova etapa. Talvez esta seja uma boa oportunidade para mudá-lo?
Apesar de todas as minhas críticas ao direito internacional, historicamente ele estabeleceu algumas regras, como a Convenção de Genebra, que nos fornecem uma linguagem comum que todos podemos usar para julgar as coisas. Desde a Segunda Guerra Mundial, houve uma cristalização de algo semelhante a uma ordem internacional em questões humanitárias, direitos humanos e relações internacionais. Penso que tanto Trump quanto Netanyahu têm algo em comum que os distingue dos liberais: eles dizem exatamente o que pensam. Netanyahu citou duas vezes Will Durant, o historiador americano que escreveu 18 volumes sobre a história das civilizações, que afirma na introdução que Gengis Khan teve mais impacto na história do que Jesus. É por isso que ele acredita que o que importa é a força, mais do que a razão. Estamos diante da desordem internacional, do fim da ONU como instituição reguladora. Outros atores surgiram, e não são políticos: são incorporadores imobiliários.
Você acha que o genocídio em Gaza mudou a percepção mundial sobre Israel? O antissionismo pode se transformar em antissemitismo?
Sim, essa possibilidade existe. Tenho acompanhado essa questão de perto. Na Alemanha, no ano passado, uma pesquisa sobre antissemitismo mostrou que, no contexto atual, o tipo de pergunta utilizado como indicador de antissemitismo deve ser abordado com muita cautela e interpretado corretamente. Mas sim, infelizmente, isso pode aumentar o antissemitismo. Contudo, sempre me pergunto: quais são as consequências do antissemitismo em comparação com as da islamofobia? Atualmente, na Europa, o principal fenômeno é a islamofobia. De fato, é um fenômeno onde a direita e os liberais de esquerda que apoiam Israel convergem.
O que acontecerá com Gaza, de uma perspectiva sociológica? O que significa destruir não apenas vidas, mas uma sociedade inteira?
É inimaginável. Tenho um aluno que perdeu 16 membros da família: todos os irmãos, todas as irmãs, a mãe, o pai, os tios e os primos. Um plano de reconstrução será necessário, mas nada será possível sem a retirada israelense. Até mesmo um país como os Emirados Árabes Unidos deixou claro que, se quiserem investimentos na reconstrução do enclave, uma solução política precisa ser alcançada primeiro. No entanto, Israel tem carta branca para continuar o genocídio em menor intensidade: continua matando pessoas simplesmente para reduzir o número de palestinos em Gaza, para convencer os que permanecem a irem embora. Legalmente, isso é uma continuação do genocídio. Mas Gaza está demonstrando uma resiliência incrível.
Você acha que a agressão dos Estados Unidos e de Israel pode fortalecer o nacionalismo iraniano?
Foi exatamente isso que aconteceu. Quem fala do filho do Xá hoje em dia? Ele está completamente desacreditado. E a diáspora… Tenho dois colegas iranianos que vão publicar um livro sobre o comportamento da diáspora iraniana, e em nossa última conversa eles me disseram que há muitos outros que dizem: "Somos contra o regime, mas a mudança de regime não funciona assim."
Os Estados Unidos esperavam que o povo iraniano se revoltasse contra o governo, mas isso não aconteceu; não só porque a repressão é brutal, mas também porque uma parcela significativa da população iraniana não quer a interferência americana. O regime iraniano tem dois problemas. Primeiro, a liberdade de seus cidadãos e a imposição da moral pública. Segundo, as sanções. Além disso, o regime é intransigente na questão nuclear. Agora sabemos, porém, que isso é um pretexto [usado pelos Estados Unidos e Israel]. [Os americanos] não só querem que o Irã pare de enriquecer urânio, como também exigem controle sobre a produção de mísseis. Hoje, ninguém vai convencer nenhum iraniano de que eles não devem produzir mísseis, porque produzi-los é fundamental para a sua sobrevivência, não só como regime, mas como país.
Qual é a situação do Hezbollah?
Acho que o Hezbollah, assim como o Hamas, é uma ideia, e sempre haverá novos recrutas. Uma reportagem publicada pelo Yediot Ahronot, baseada em dados da inteligência israelense, afirma que, desde 2024, o Hezbollah ganhou 4.500 novos membros. Quanto a saber se a milícia está enfraquecida… Claro que sim. A aparente neutralidade da Síria pode interromper o fornecimento de armas, tornando-a vulnerável. Mas acho que o Hezbollah, assim como o Hamas, pode fazer muito dentro do Líbano.
Finalmente, quais são os cenários para a região?
Acho que Israel subjugará pela força, embora não tenha certeza absoluta. O Hamas e o Hezbollah são ideias, não apenas líderes ou combatentes. Eles podem ressurgir a qualquer momento em que a injustiça colonial se perpetua de outra forma. Não acho que Israel esteja fazendo qualquer progresso rumo à normalização da região. Até mesmo a Arábia Saudita endureceu sua posição. Meu cenário [esta entrevista foi realizada antes do cessar-fogo entre o Irã e os Estados Unidos] é que os americanos não resistirão na guerra com o Irã por mais de duas semanas; isso lhes custa quase US$ 15 bilhões por semana, e isso é muito caro. Eles tentarão encontrar uma solução. Mas meu receio é que haja um emaranhamento entre os casos iraniano e libanês e, nesse caso, Israel terá carta branca para ocupar a área ao sul do rio Litani, o que significaria que cerca de um milhão de libaneses seriam deslocados por um longo período. Isso é o que mais me preocupa.