10 Janeiro 2026
Os consistórios de cardeais que se têm vindo a designar por “extraordinários” passarão a ser “regulares” e Leão XIV já marcou o próximo. Este foi o desejo expresso pelo Papa no final dos trabalhos de dois dias que reuniram em Roma 170 cardeais (dos 245 convidados) de diferentes partes do mundo.
A reportagem é publicada por 7 Margens, 08-01-2026.
A notícia foi divulgada na noite desta quinta-feira, 8 de janeiro, pelo site da revista católica espanhola Vida Nueva, que adianta ter o Papa deixado aberta também a possibilidade de haver, uma vez por ano, um encontro de cardeais com mais tempo para a reflexão e o aconselhamento.
Estas informações dão consistência à ideia de que o sucessor do Papa Francisco pretende valorizar e tornar efetiva a colegialidade no governo da Igreja. O sinal disto mesmo é ter deixado já marcado o próximo consistório, para 27 e 28 de junho deste ano.
Segundo a Vida Nueva, Leão XIV referiu-se ao ambiente do Consistório desta semana como experiência de uma “profunda harmonia” e de uma “sinodalidade não técnica, mas afetiva, em continuidade com o Concílio, fundamento da conversão e renovação de toda a Igreja”.
No primeiro dia do Consistório, os cardeais, dispostos em grupos, começaram por tomar uma decisão que é, de si, reveladora: dos quatro temas propostos pelo Papa Leão, escolheram por “maioria clara” focar a “Missão da Igreja no mundo de hoje” e “Sínodo e sinodalidade: instrumento e estilo de cooperação”, deixando para nova oportunidade os outros dois: “Ministério da Santa Sé” e “Liturgia, fonte e cume da vida cristã”.
“Embora seja um tempo muito curto, é, no entanto, um momento muito importante para mim também, porque sinto e experimento a necessidade de poder contar com vocês: foram vocês que chamaram este servo para esta missão! Por isso, gostaria de dizer que acho importante que trabalhemos juntos, que discernamos juntos, que busquemos o que o Espírito nos pede”.
As palavras são do Papa Leão, em agradecimento aos cardeais, no final dos trabalhos do primeiro dia do Consistório, esta quarta-feira, 7 de janeiro, na Sala Paulo VI, no Vaticano. Ele manifestou a sua alegria por aqueles que direta e indiretamente participaram na sua eleição, terem viajado, em vários casos de muito longe, para fazer a experiência de “participação num colégio cardinalício” em ato.
E desafiou todos com várias perguntas: “Há vida na nossa Igreja? Há espaço para o que nasce? Amamos e proclamamos um Deus que nos coloca num caminho novo?”. E respondeu de imediato: “Não podemos fechar-nos e dizer: ‘Tudo já está feito, terminado, vamos continuar a fazer como sempre fizemos’. Há, de fato, um caminho, e com o trabalho destes dias, estamos a trilhá-lo juntos”.
“Como é belo estarmos juntos na barca!”, observou o Papa, mesmo que haja dúvidas e “algo que nos assuste e que não saibamos bem para onde vamos ou como irá isto terminar”. Mas, “se depositarmos a nossa confiança no Senhor, em sua presença, podemos fazer muito”.
Tal como acontecera nas assembleias gerais do último Sínodo, Leão XIV também convidou o cardeal Timothy Radcliffe, O.P., para uma meditação inicial no início da primeira sessão. E foi aí que ele utilizou a imagem da barca, a que o Papa se viria a referir, mais tarde. A Vida Nueva teve acesso ao conteúdo da meditação de Radcliffe.
Foi olhando para os “tempos de terríveis tempestades” dos nossos dias, de violência e guerras, de crescente “abismo entre ricos e pobres”, ou do arruinar da ordem mundial estabelecida após a Segunda Guerra Mundial que o cardeal dominicano comentou: “Não seremos de qualquer utilidade para o Santo Padre se a barca de Pedro estiver cheia de discípulos desavindos. Se vivermos juntos em amor e paz, mesmo quando discordarmos, Deus estará verdadeiramente presente, mesmo quando parecer ausente”.
Mas, considerando as mesmas tempestades, que também abalam a vida interna da própria Igreja, com os abusos sexuais ou as divisões ideológicas, Timothy Radcliffe acrescentou: “Não podemos ficar na praia e dizer: ‘Eu não navegaria hoje’ ou ‘Eu escolheria um barco diferente'”.
O cardeal que, desde o conclave, completou 80 anos, deixando, assim, de ser eleitor, não escondeu que, no Consistório, “alguns defenderão a memória e valorizarão a tradição”, ao passo que outros, porém, “se alegrarão mais com a surpreendente novidade de Deus”. Contudo, reconheceu que “memória e novidade estão inextricavelmente ligadas na dinâmica da vida cristã”. “Não há competição”; pelo contrário, “as conversas tornam-se verdadeiramente vibrantes quando ambos os lados são reunidos”, acentuou o frade dominicano.
Quer o convite do Papa para ser o autor da meditação consistorial quer o tom apaziguador e inclusivo de Timothy Radcliffe poderiam ser surpreendentes numa figura que é conotada com “a surpreendente novidade de Deus”. E, de facto, uma entrevista por ele dada esta semana ao jornal londrino The Telegraph, ele pronunciou-se, de uma assentada, pela “rápida ordenação de mulheres diaconisas” na Igreja Católica, considerando, por outro lado, que a orientação sexual de uma pessoa “não é particularmente importante”.
“Não me preocupo se alguém é gay – preocupar-me-ia, sim, se essa pessoa não amasse ninguém”, disse o cardeal.
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