27 Fevereiro 2025
“Eu só me pergunto que sentido tem tudo isso”. Padre Mattia Ferrari, o capelão de bordo da ONG que resgata migrantes no mar, Mediterranean Saving Humans, não está surpreso. Não era tão difícil supor, como se descobriu ontem, que ele também estava na lista de pessoas espionadas com o spyware Paragon, juntamente com Luca Casarini e Beppe Caccia, os fundadores da organização. Além do diretor da Fanpage, Francesco Cancellato, e do refugiado sudanês e presidente da Refugees in Libya, David Yambio. Mas ele se diz sereno: “Não estou preocupado comigo, mas com os migrantes que sofrem violências e torturas. Esse é um caso que precisa ser esclarecido o mais rápido possível”.
A entrevista é de Eleonora Camilli, publicada por La Stampa, 25-02-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
Padre Mattia Ferrari, como o senhor percebeu que estava sendo espionado?
Descobri pela Meta, graças também aos pesquisadores do Citizen Lab da Universidade de Toronto. Eu não havia notado a notificação, que tinha aparecido no meu telefone em 8 de fevereiro do ano passado, no mesmo dia de Luca Casarini. Quando agora me avisaram, olhei no arquivo e, de fato, a notificação estava lá.
Qual foi sua reação?
Não posso dizer que fiquei surpreso, pois eram pessoas do grupo com quem colaboro regularmente que estavam sendo espionadas. É claro que essa situação deve ser investigada, deve ser esclarecida. Acima de tudo, eu me pergunto por que e que sentido tem tudo isso.
Que resposta foi dada?
Eu realmente não sei. Certamente, não é de hoje que a solidariedade, especialmente com os pobres e os migrantes, é considerada subversiva. Somos cada vez mais uma sociedade do tipo ‘não ligo a mínima’ para os outros, onde aqueles que, em vez disso, cuidam dos últimos, especialmente os pobres, tornam-se incômodos. Então, o que eu espero é uma reconciliação em que a solidariedade, a colaboração e a fraternidade sejam colocadas de volta no centro. Também estamos falando há dias sobre o caso Almasri. Teoricamente, os dois eventos não estão conectados, mas ainda são duas feridas que precisam ser reparadas.
Qual é exatamente o seu papel na ONG Mediterranea Saving Humans?
Sou o capelão de bordo e cuido do atendimento espiritual da tripulação e dos migrantes, quer eles estejam atravessando o mar ou sendo mandados de volta para o deserto. Também me vi sendo chamado para dar bênçãos a pessoas torturadas nos campos de detenção líbios e que estavam morrendo. Além disso recebo, junto com outros, apelos de migrantes para dar visibilidade a casos que, de outra forma, permaneceriam invisíveis. Outra tarefa minha é cuidar das relações da Mediterranea e de outros movimentos populares com a Igreja Católica.
Acha que pode haver uma ligação entre as interceptações e a relação que o senhor tem com os migrantes do outro lado do Mediterrâneo?
É possível, mas também há muitas outras possibilidades. Mas agora temos que entender e esclarecer esse caso. Não tenho medo por mim, mas pelas pessoas que sofrem horrores e violência indescritíveis com base em acordos que os Estados fizeram para manter os migrantes longe de nossas costas, sacrificando os direitos humanos e a fraternidade que nos une.
O Papa Francisco, em sua última entrevista no Che Tempo che Fa, disse a seu respeito: “Padre Mattia é bom, trabalha bem e reza”. Parece dar a entender que encoraja o seu trabalho com a Mediterrânea e os migrantes.
Meu e nosso relacionamento não é apenas com ele, mas com toda a comunidade cristã. E é toda a Igreja que nos incentiva a estar perto dos últimos, portanto, também dos migrantes. Nestes dias, quando estamos unidos em oração especial pelo Papa Francisco pela sua recuperação, está ocorrendo um fenômeno impressionante”.
Qual?
Estão chegando mensagens de todos os lados do planeta, não apenas de cristãos, mas também de pessoas de outras religiões... o mundo inteiro está se unindo em torno do nosso pontífice. Portanto, mesmo na doença, o sonho de seu pontificado está se realizando, que é o sonho de Jesus: o mundo inteiro, com os pobres à frente de todos, unidos em um único grande amor, uma grande fraternidade. Essa é uma grande mensagem: vamos nos dar as mãos e caminhar juntos. O Papa Francisco também está nos mostrando que podemos ser realmente irmãos e irmãs, todos nós.