Entusiasmo e amargura, o Vaticano II visto por Congar

Yves Congar, no Concílio Vaticano II em 1964 | Foto: Wikimedia Commons / Arquivo dos Dominicanos da Província Francesa

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

22 Janeiro 2024

O Diário do frade e pensador francês retorna num único volume de mais de mil páginas. Trabalhou pelo ecumenismo, pela renovação da Igreja e por um papel de decisão para o laicato. Exultou pela Nostra Aetate, mas lamentou a falta de envolvimento dos grandes biblistas jesuítas e dominicanos. E foi cauteloso sobre o "radicalismo reformista" expresso por Rahner e Ratzinger.

A reportagem é de Filippo Rizzi, publicada por Avvenire, 14-01-2024. A tradução é de Luisa Rabolini.

“O aspecto mais importante do Concílio não é votar textos, mas criar um espírito e uma consciência nova, e isso requer tempo." Isso é o que escreve e anota em seu diário pessoal em fevereiro de 1964, quase um ano antes do encerramento do Vaticano II por Paulo VI, o teólogo dominicano francês Yves Marie Congar (1904-1995).

Uma afirmação que hoje parece quase um testamento espiritual e um sinal de trabalho e empenho febris, também em chave ecumênica, à qual foi submetido – "esmagado" (como ele confessará nas suas memórias) – o padre Congar, como especialista antes na Comissão Preparatória do Concílio e depois durante as quatro sessões do Vaticano II (1962-1965). Para esse grande pensador – “o frade sanguíneo e teólogo das Ardenas", como o definiu seu discípulo Hervé Legrand – o Vaticano II representou não apenas um encontro com a história, mas também uma oportunidade de autêntica “renovação da eclesiologia, da Tradição e do ecumenismo" dentro da Igreja Católica. Agora a casa editora San Paolo quis repropor na íntegra (quase vinte anos depois da primeira edição italiana em 2005, então dividida em dois volumes) a republicação do seu volume monumental Diario del Concílio 1960-1966 (1.064 páginas, € 59,00). Uma publicação que não representa apenas o manifesto conciliar de Congar, mas parece quase como uma contraparte paralela, num certo sentido “sinóptica” do que escreveu nos seus Cadernos Conciliares (Jaca Book, 2009) o teólogo jesuíta de Cambrai Henri de Lubac (1896-1991).

É certamente singular que os testemunhos conciliares e muito romanos de Congar e de De Lubac, – ambos foram nomeados cardeais por seus méritos teológicos por João Paulo II, que participou do Vaticano II como bispo auxiliar de Cracóvia – foram publicados depois de suas mortes, na França por Les Éditions du Cerf. Os escritos de Congar permitem ao leitor principalmente ver a sobrecarga de trabalho a que foi submetido o dominicano francês, muitas vezes obrigado a viajar de ônibus, de carro ou a pé para chegar a tempo aos seus encontros de trabalho no Vaticano; no entanto, nessas páginas também emergem muitas histórias de bastidores, especialmente para a elaboração dos “esquemas preparatórios” dos tantos documentos conciliares dos quais foi protagonista indireto o teólogo de Sedan, a partir da Constituição Pastoral Gaudium et spes. Para alguns observadores, o papel do Congar no Vaticano II foi aquele de “um explorador”, para outros foi decisivo. Por essa publicação descobre-se quão importante foi para Congar uma autêntica renovação da eclesiologia depois do Vaticano II e acima de tudo o quanto ele se importava que o laicato começasse a ter um papel decisório e não mais decorativo (como era na época de Pio XII) no governo da Igreja.

Não surpreende descobrir nesse livro o quanto Congar  que foi um dos nobres padres da Nouvelle Théologie juntamente com o "amigo de confiança" De Lubac, com Daniélou e com o coirmão dominicano Marie Dominique Chenu  levasse em grande consideração a opinião da "minoria" conciliar e tivesse, por exemplo, grande atenção pelo teólogo de confiança do Cardeal Alfredo Ottaviani, o jesuíta holandês Sebastian Tromp. O que emerge dessas notas congarianas é a estima pessoal de João XXIII e de Paulo VI (e consequentemente do teólogo pessoal do Papa Montini, o ambrosiano Carlo Colombo) pelas obras teológicas escritas pelo frade dominicano.

Há muitos nomes a que o autor desse Diário acrescenta notas de consideração. Entre eles Dom Gérard Philips, um dos principais redatores da Constituição dogmática Lumen Gentium; o italiano e futuro monge Giuseppe Dossetti e Gustave Martelet, o jesuíta francês e um dos inspiradores do texto final da encíclica Humanae Vitae de Paulo VI. Significativas são as palavras que reserva ao cardeal jesuíta Agostino Bea, ex-confessor de Pio XII e presidente do secretariado para a promoção da unidade dos cristãos: “Nele está a força da Palavra da Escritura”.

Mas Congar não esconde nessa sua obra monumental e muito biográfica (transcrita e revisada pela sua secretária de confiança Delphine Guillou) as suas amarguras - ele que é um profundo defensor de um "verdadeiro retorno às fontes da Bíblia" - também pela falta de envolvimento na elaboração dos documentos conciliares, dos grandes exegetas jesuítas e dominicanos, que lecionavam respectivamente no Pontifício Instituto Bíblico, de Roma, e na École Biblique de Jerusalém. Mas esse texto nos presenteia com algo mais. Descobre-se, por exemplo, que mesmo estimando as competências de Karl Rahner e de Joseph Ratzinger (o futuro Bento XVI) - basta pensar nos esquemas elaborados pelos dois especialistas sobre as fontes da Revelação durante o Vaticano II - sempre se mostrará disposto a chegar a compromissos em relação ao “radicalismo reformista” (como bem explica Éric Mahieu na introdução desse belo livro) pelos dois colegas alemães.

A partir dos textos vem à luz o entusiasmo com que o Pe. Congar saudou a Declaração Nostra Aetate sobre as religiões não-cristãs (em particular o Judaísmo) em 1965. Ou, ainda, desses textos tão pessoais e quase íntimos (talvez também por isso quis que fossem publicados post-mortem) emerge o sonho, também acalentado pelo Papa Montini, de que depois do Concílio fosse instituído o ensino nas universidades católicas dedicado à “categoria da história da salvação”. A esse respeito escreve, depois de um encontro com Paulo VI: “Seria muito importante instituir, em cada centro universitário católico, uma cátedra de história da salvação, para estudar a economia divina na história do povo de Deus”.

Os pontos fortes da eclesiologia de Congar aparecem nessa publicação: a importância que deu, e para a qual dedicou boa parte de sua pesquisa teológico-sistemática pós-conciliar, para que pudesse ser redefinida de forma inovadora e mais de acordo com os tempos a “atualização” do papel do colégio dos bispos em comunhão com o Sucessor de Pedro. A partir dessas páginas descobre-se sobretudo o amor de Congar por Jesus e o seu sentimento por ser filho da Igreja apesar de tudo.

Leia mais