Dia Mundial dos Cuidados Paliativos 2020

Foto: PxFuel

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

10 Outubro 2020

"Em muitas situações de doença e terminalidade da vida precisamos nos perguntar: - o tecnicamente possível é eticamente correto? Qual é o verdadeiro sentido das intervenções biomédicas", escreve João Batista Alves de Oliveira, médico paliativista pela Sociedade Brasileira de Clínica Médica/Associação Médica Brasileira.

Eis o artigo.

Precisamos falar de Cuidados Paliativos porque a ética da vida é única. O cuidado que damos ao nascer deve ser dado ao morrer, pois nascer e morrer é parte de um mesmo fenômeno – a vida humana. [1]

O objetivo dos Cuidados Paliativos é alcançar um benefício terapêutico para o paciente considerando-o como um todo e não simplesmente promover um efeito sobre alguma parte do corpo. Definitivamente não se limita à pergunta “tratar ou não tratar”, mas responder qual o tratamento mais apropriado para um paciente com base no seu prognóstico biológico, objetivos, efeitos adversos, circunstâncias pessoais e sociais do paciente. [2]

Tem por objetivo reafirmar a importância da vida até o final, estabelecendo uma assistência que não acelere a chegada da morte, mas tão pouco a prolongue em agonias intermináveis. Busca proporcionar o alívio da dor e dos demais sintomas que trazem sofrimento e integrar os aspectos psicológicos e espirituais ao tratamento, oferecendo, através de uma equipe interdisciplinar, diversas formas de ajuda ao enfermo para uma vida o mais autônoma possível até o final, sem esquecer a sua família que deve enfrentar a doença do paciente e conviver com sua perda. [3]

Inicialmente os objetivos são estabelecidos em probabilidades pelo que, ao longo do tempo podem se tornar inalcançáveis exigindo, então, uma redefinição. Não curar a pessoa quando é possível, é um grave erro, mas é igualmente grave não reconhecer que o doente não pode mais ser curado. É então quando a terapia curativa deve ser substituída pela paliativa. [4]

Em muitas situações de doença e terminalidade da vida precisamos nos perguntar: - o tecnicamente possível é eticamente correto? Qual é o verdadeiro sentido das intervenções biomédicas?

Quando o mundo “surdo” do interior do corpo passa a se fazer ouvir através de sons que não traduzem mais o som da vida, mas os sinais da finitude do tempo, da falência, da técnica, da dor e do sofrimento sentido, nos questionamos acerca do que a ciência tem a nos oferecer. [5]

Os marcos dos Cuidados Paliativos são:

  • beneficência;
  • não maleficência;
  • qualidade de vida.

Na beneficência o foco é o bem do paciente e de sua família, o que afasta o uso indiscriminado da tecnologia para sustentar a vida a qualquer custo. Maximizar o bem do outro supõe reduzir o mal, o que leva os profissionais de saúde a perseguir o máximo dos benefícios, reduzindo ao mínimo os possíveis danos e riscos. [6]

A não maleficência refere-se ao profissional de saúde não fazer o mal e assim, evitar o sofrimento do paciente e o prolongamento inútil de procedimentos fúteis.

Para conseguir unir beneficência, não maleficência e qualidade de vida o que prevalece como regra é nunca mentir nem dar falsas esperanças de cura (...) é sobretudo necebssário tranquilizar quer por palavras, quer por atitudes, que o tempo que lhe resta é o tempo de vida e não necessariamente de uma espera angustiante da morte. [7]

O problema, é que os médicos têm dificuldades em compreender os “ingredientes” da esperança, pensando que ela apenas se refere à cura ou remissão, sendo que esta redução do significado conduz à futilidade terapêutica. Os médicos e os doentes necessitam de encontrar a esperança noutros caminhos que não sejam os de prolongar a agonia ou combater a morte. [8]

E porque cuidar é primeiro que tudo um ato de vida [9]... e que a quantidade e qualidade do cuidar que um doente em fim de vida recebe, são potentes adjuvantes ao crescimento da esperança. [10], precisamos falar dela junto àquele que sofre doença grave e incurável ou que se aproxima do fim da vida.

A esperança (que é parte do cuidado e do conforto) é um dos elementos fundamentais na vivência de doentes e familiares em Cuidados Paliativos e é vista como um instrumento eficaz na intervenção face ao sofrimento. [11]

A esperança parece ser produto da fé... inteiramente ligada ao sentido da vida... reconhece as limitações nas situações, acreditando ao mesmo tempo que as oportunidades existem. [12]

A esperança em Cuidados Paliativos vai efetivamente mais além da esperança de cura. Há mudança de foco ao longo do tempo, modificada, realinhada e redimensionada – esperança de cura, que passa pela esperança de tratamento, vai à esperança do prolongamento da vida e finalmente chega à esperança de morte serena. [13]

A manutenção da esperança, o “esperar com” além do “sofrer com”, em Cuidados Paliativos é fundamental, pois permite que os doentes vivam os seus últimos dias de forma mais plena possível, facilitando a transição final e a aceitação da morte com a consequente reconciliação com a vida. [14]

Cuidar de pacientes terminais corresponde a um desafio ético para a medicina e para a sociedade moderna, desencadeando o surgimento de uma nova especialidade: a medicina paliativa. [15]

A resposta da medicina paliativa, e a justificativa para a sua afirmação como especialidade, encontra-se não em números, códigos ou leis, e sim, na qualidade dos cuidados na relação médico paciente, no tipo de participação do paciente na construção de um sentido para os seus últimos instante e na aceitação de outros métodos de validação do saber. [16]

E é mesmo possível ter cuidado, conforto e dignidade mesmo diante da doença grave e incurável ou na terminalidade da vida?

Sim, é possível quando os sintomas físicos foram controlados e quando damos a resposta ao conjunto de necessidades – físicas, emocionais, psicológicas e espirituais – dos doentes e famílias, quando conseguimos aliviar o seu sofrimento, quando conseguimos concretizar desejos, ajudar a pessoa a viver esta fase da sua vida com a maior intensidade, possível, a preservar a esperança e a construir um sentido face à situação, reconhecendo e restituindo o seu sentido de integridade existencial. [17]

Cuidado Paliativo é um jeito diferente de encarar a vida. [18] ... é a mais humana das artes médicas porque não recusa a naturalidade da morte. [19]

Muitos pacientes sofrem (e sofrem muito) porque não conhecem o seu diagnóstico, o seu prognóstico, a proposta e os limites do seu tratamento. Sofrem sozinhos, angustiados, sentindo-se enganados e abandonados. Apenas 49% dos pacientes com câncer avançado estão plenamente conscientes do seu prognóstico. E não discutir o prognóstico pode causar angústia, impedindo o doente de reorganizar e adaptar a sua vida. Doentes que não discutem o fim de vida recebem cuidados médicos mais agressivos perto da morte, resultando em pior qualidade de vida. [20]

Chega uma fase da doença em que é preciso ter em conta as expectativas de vida, o estado funcional e nutricional, a presença e o grau de deterioração cognitiva, a velocidade de progressão da doença, a reversibilidade da situação e as implicações na qualidade de vida, complicações, comorbidades, desejos do paciente para decidir sobre a melhor intervenção. Cada vez mais se reconhece que, na fase de doença avançada, embora não se conseguindo atuar na própria doença, continua-se a necessitar de cuidados de saúde, sendo eventualmente, nesta altura, que deles mais necessitam. [21]

Em Cuidado Paliativo a terapêutica não deve condicionar maior sofrimento ou desconforto ao doente que o próprio sintoma. [22]

Os benefícios e o peso associado ao tratamento paliativo precisam ser constantemente monitorados para que a decisão de continuar, modificar ou descontinuar o tratamento seja sempre colocada em cima da mesa. [23]

Qualquer estratégia terapêutica em Cuidados Paliativos é um processo de decisão que não difere na sua essência de qualquer outro em medicina... Para ser adequada a terapêutica em Cuidados Paliativos, tem de se basear no uso de meios proporcionados aos objetivos propostos, isto é, que promovam qualidade de vida, suspender estratégias que não se revelem benéficas e neste contexto é aceitável suspender ou mesmo não iniciar terapêuticas, que podendo resultar em algum ganho de sobrevivência, se traduza em pior qualidade de vida. [24]

O cuidado e o conforto devem obrigatoriamente passar por compaixão – a compaixão é ver uma pessoa doente e coloca-la no centro das atenções, como nosso semelhante, cujas experiências não podemos compreender totalmente, mas empaticamente nos aproximarmos; experiências que nos tocam por partilharmos a mesma humanidade. [25]

A compaixão é um modo de ser para o outro, através do compromisso, da presença, da responsabilidade e do envolvimento. O compromisso de fazer pelo outro. A presença de ser para o outro. A responsabilidade de responder ao outro. O envolvimento de estar com outro. Compaixão é cuidar. Cuidar é mais que um ato, é uma atitude. Portanto, abrange mais que um momento de atenção. Representa uma atitude de ocupação, preocupação, de responsabilização e do envolvimento afetivo com outro. [26]

Uma releitura teórica em comemoração ao Dia Mundial dos Cuidados Paliativos 10.10.20 (sempre o segundo sábado de outubro) diante das restrições para a realização de atividades presencias no isolamento social da pandemia COVID19.

Referências

[1] Gracia.

[2] Guillén.

[3] Albo et al.

[4] Gonçalves.

[5] Correia.

[6] Campos; Oliveira.

[7] Pacheco.

[8] Kodish.

[9] Viana.

[10] Parker Oliver.

[11] Duffalt; Watson.

[12] Cuteliffe; Herth; Almeida; Magão; Leal.

[13] Querido; Faslow.

[14] Abiven; Wilkinson; Egnew; Rushing.

[15] Rodrigues.

[16] Martin.

[17] Pereira.

[18] Azevedo.

[19] Nunes; Rego.

[20] Peixoto.

[21] Souza.

[22] Souza.

[23] Peixoto.

[24] Peixoto.

[25] Viana; Silva.

[26] Boff.

 

Leia mais