O icônico pensador francês faz um balanço de seus mais de cem anos de vida em Lições da história, onde condensa, em 16 breves lições, tudo aquilo que podemos, e devemos, aprender com o nosso passado. “O dia a dia domina a vida diária. Esquecemos que vivemos dentro de uma história”.
A reportagem-entrevista é de Gonzalo Suárez, publicada por El Mundo, 08-01-2026.
Em 8 de julho de 1921, a Comissão de Reparações Aliadas decretou que a Alemanha havia descumprido os pagamentos acordados no Tratado de Versalhes, após a Primeira Guerra Mundial. A 8.000 quilômetros dali, a Mongólia declarou sua independência da China com a ajuda de tropas soviéticas. E, mais perto de casa, o general Manuel Fernández Silvestre estendeu tanto as tropas no Rif que acabou provocando o Desastre de Annual, que custou 11.500 mortos ao Exército espanhol.
Nesse mesmo dia, que hoje soa quase pré-histórico, um bebê chamado Edgar Nahoum vinha ao mundo em Paris, no seio de uma família de judeus sefarditas emigrados de Tessalônica. Mas foi somente duas décadas depois, ao alistar-se na Resistência antinazista e participar da Libertação de Paris, que o jovem Edgar adotaria o pseudônimo pelo qual passaria à história como um dos grandes pensadores de seu tempo. “Minha militância na Segunda Guerra Mundial foi um dos três fatos que marcaram meu pensamento, junto com a Guerra Civil espanhola e a desestalinização empreendida por Khruschov”, afirma Edgar Morin em uma entrevista por e-mail, já que um mal-estar o forçou a cancelar o encontro previamente acordado.
Não é exagero dizer que o papa do “pensamento complexo” é o último grande intelectual do século XX. Somente ele viveu, em primeira pessoa, a barbárie nazista que devastou tudo. Mais tarde, iria se tornar um comunista convicto, embora tenha sido expurgado em 1951 por sua postura de livre-pensador. Também foi uma figura-chave no Maio de 68, quando atuava como professor na Universidade de Nanterre, de onde relatou, em textos lúcidos publicados no Le Monde, as revoltas em tempo real.
Hoje, aos 104 anos, Edgar Morin continua sendo um titã das ideias, que não para de refletir, divulgar e publicar livros. O mais recente é Lições da história: Podemos aprender com o nosso passado. Neste ensaio, condensa o que aprendeu em sua vida em 16 lições breves, de apenas duas ou três páginas. Diz que sua esperança é estimular as gerações atuais, ofuscadas pelo fulgor do imediato, a adotar uma visão mais ampla: “o dia a dia domina a política e a vida diária. Vivemos desenraizados do passado e privados do futuro. Esquecemos que vivemos dentro de uma história”.
Essa é a principal lição do seu livro? Porque o momento atual, com sua avalanche de acontecimentos históricos, não convida a observar as coisas com perspectiva...
As perspectivas de futuro são muito inquietantes, sim, mas a experiência me mostrou algo importante: que o improvável pode acontecer.
A situação atual recorda a sua infância e adolescência, nos anos 1920 e 1930?
As condições históricas são diferentes, mas os perigos e as cegueiras de ambos os períodos têm a mesma natureza. Houve um tempo não tão distante em que ainda se podia imaginar uma mudança de rumo, mas agora parece já ser tarde demais. Certamente, o improvável e, sobretudo, o imprevisto podem acontecer. Não sabemos se a situação mundial é apenas desesperadora ou verdadeiramente desesperada. Isto significa que devemos, com ou sem esperança, com ou sem desesperança, passar à Resistência.
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Essa menção à Resistência não parece casual. Por isso, voltamos à infância parisiense que tanto marcou o nosso protagonista. O pequeno Edgar cresceu nos felizes anos 1920, mas a tragédia logo abalou sua vida. Sua mãe, Luna Beressi, cardíaca, morreu quando ele tinha apenas 10 anos, e ele se refugiou no cinema, na leitura, no ciclismo e na aviação para suportar a perda. Em particular, mergulhou em Dostoievski, cuja leitura não apenas serviu de bálsamo, mas também o ensinou sobre a alma humana e marcou seu pensamento. “A morte da minha mãe foi o principal acontecimento da minha vida”, declarou ao Le Monde.
Cinco anos depois, Morin já demonstrava seu compromisso político. Mal alcançou a maioridade, ficou profundamente impactado pela Guerra Civil e se juntou a organizações de apoio ao lado republicano. Ao mesmo tempo, conseguiu ingressar na Sorbonne, em Paris, e, após o êxodo provocado pela invasão nazista, graduou-se em Direito, História e Geografia pela Universidade de Toulouse, sem deixar de colaborar com a Resistência. Seu currículo era tão brilhante que sequer precisou de doutorado para obter um posto no Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), a instituição de pesquisa científica mais prestigiada da França, casa de 12 Prêmios Nobel e 10 Medalhas Fields de Matemática.
Após se casar com Violette Chapellaubeau, sua primeira de quatro esposas, Morin realizou um estudo multidisciplinar de um povoado na Bretanha, um dos primeiros ensaios etnológicos da sociedade francesa contemporânea. Também se interessou por práticas culturais desprezadas pelos intelectuais de sua época, o que o levou a viajar pela América Latina. A defesa dos direitos dos povos indígenas se tornou outra de suas paixões.
De todas essas experiências, Morin extraiu uma de suas grandes contribuições ao pensamento do século XX: a ideia de policrise, que cunhou em 1993, décadas antes de milhares de analistas como Adam Tooze se apropriarem do conceito sem citá-lo. Segundo ele, uma policrise não é apenas uma soma de crises sociais, políticas, econômicas e ambientais: o essencial é a forma como elas interagem entre si. De fato, resolver um problema de forma isolada pode piorar os demais de maneira imprevisível. Por isso, Morin sempre propõe uma abordagem global que incorpore a complexidade das interações antes de agir.
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Como o senhor interpreta a “policrise” atual: a mudança climática, a aceleração tecnológica, a fragmentação geopolítica, o cansaço democrático...? Trata-se de uma “policrise” que abrirá uma nova era histórica ou é apenas a repetição de velhos padrões que consideramos únicos por nosso egocentrismo histórico?
Trata-se de uma crise da humanidade globalizada, com inúmeros entrelaçamentos, e cujo desenlace é incerto.
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Sua outra grande ideia é o “pensamento complexo”, um método que busca compreender os fenômenos em sua totalidade e ao qual dedicou a grande obra de sua vida: O Método, um tratado oceânico de seis volumes, publicado entre 1977 e 2004. Sua ideia central é que a realidade é um tecido de relações e que, para compreendê-la, é preciso olhar para o todo e para as partes ao mesmo tempo, além de todas suas inter-relações. Por exemplo, o pensamento dialógico defende que duas ideias opostas possam coexistir – que no mundo podem conviver ordem e caos ao mesmo tempo - sem que se excluam mutuamente: a vida precisa de regras para funcionar, sim, mas também de erros, crises e mudanças para evoluir.
Com um currículo assim, repleto de prêmios internacionais e doutorados honoris causa, Morin já teria garantido há muito tempo uma aposentadoria mais do que honrosa. No entanto, sua produção se intensificou com a velhice, especialmente desde que foi um dos inspiradores, junto com Stéphane Hessel, das revoltas juvenis que se espalharam pelo mundo, em 2011. “É a primeira vez que meus livros se tornam best-sellers”, comentou, com ironia, naquela época.
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O que alimenta a sua curiosidade nesta etapa da sua vida?
Tudo: a vida, o ser humano, o cosmos, o amor, a amizade…
Em uma entrevista recente ao ‘Corriere della Sera’, o senhor disse que cada fase da vida deixou sua marca…
Sim, conservo a curiosidade da infância, as aspirações da adolescência, a responsabilidade do adulto e agora, já ancião, procuro me nutrir da experiência de todas as idades que atravessei.
Volto, então, à sua infância. Estudos recentes dizem que os jovens dos países ocidentais dão cada vez menos valor à democracia. Estariam dispostos a trocar suas liberdades, se lhes garantirem mais segurança e estabilidade econômica. O que lhes diria?
Tentaria demonstrar para eles que nunca se deve sacrificar a liberdade. Entendo que a falta de uma esperança previsível é um fator que irrita a juventude. Estamos dominados por formidáveis poderes políticos e econômicos, ao mesmo tempo em que somos ameaçados pela instauração de uma sociedade de submissão. A primeira e mais fundamental resistência é a do espírito. Essa resistência prepararia as gerações jovens para pensar e agir em favor das forças de união, fraternidade, vida e amor, que podemos conceber sob o nome de Eros, contra as forças de desagregação, desintegração, conflito e morte, que podemos conceber sob os nomes de Pólemos e Tânatos.
Mas é verdade que muitos cidadãos se sentem desorientados pela velocidade das mudanças. Que recursos filosóficos podem nos ajudar a dar sentido ao presente, em vez de sucumbir ao medo ou à nostalgia?
A consciência da História, com seus azares imprevistos e suas incertezas.
Em suas obras recentes, o senhor falou de uma crise ainda mais profunda que as demais: a crise do pensamento, marcada pela simplificação excessiva em detrimento da complexidade, dos sonhos e da poesia. É essa, na sua opinião, a raiz das outras crises?
Temo que sim. É preciso resistir à intimidação de toda mentira proclamada como verdade e à embriaguez coletiva contagiosa. É necessário nunca ceder ao delírio da responsabilidade coletiva de um povo ou de uma etnia. Isso exige resistir ao ódio e ao desprezo. Implica esforçar-se para compreender a complexidade dos problemas e fenômenos, em vez de sucumbir a uma visão parcial ou unilateral. Requer pesquisa, verificação da informação e aceitação das incertezas.
O senhor também criticou a crescente fragmentação do saber. Parece que privilegiamos a quantidade de informação em detrimento de sua qualidade. Ou seja, dispomos de cada vez mais dados, mas nos falta capacidade para estabelecer conexões e dar sentido à realidade.
Essa é precisamente a crise do pensamento. A experiência da grande crise planetária e multidimensional que surgiu com a pandemia prova, de forma evidente, a necessidade de um pensamento complexo e de uma ação consciente das complexidades da aventura humana.
O senhor afirma que o ‘Homo sapiens’ também pode ser ‘Homo demens’. Ou seja, a razão e o delírio coexistem em nós. Agora que parece que o ‘Homo demens’ ganha a batalha, como o ser humano pode contra-atacar?
Por meio de uma tomada de consciência ainda invisível. É a união, dentro de nós mesmos, das forças de Eros e as do espírito desperto e responsável que alimentará nossa resistência frente às submissões, às ignomínias e às mentiras. Os túneis não são intermináveis, o provável não é o certo, o inesperado sempre é possível.
Como último grande pensador europeu, que papel pode desempenhar hoje o nosso continente em um mundo cada vez mais polarizado entre China e Estados Unidos? Que renovação cultural ou filosófica a Europa, que parece paralisada, necessita para recuperar sua voz no mundo?
Precisa daquilo que formulei como um humanismo regenerado. Ser humanista, hoje, não é apenas compreender que os perigos, as incertezas e as diferentes crises – a da democracia, a do pensamento político, a do descontrole do lucro, a da biosfera e, por fim, a multidimensional da pandemia – nos uniram em uma comunidade de destino.
Ser humanista é também sentir, no mais profundo de si mesmo, que cada um de nós é um momento efêmero de uma aventura extraordinária: a aventura da vida, que deu origem à aventura humana, a qual, entre criações, tormentos e desastres, chegou a uma crise gigantesca na qual está em jogo o destino da espécie.
O humanismo regenerado não é apenas o sentimento de comunidade e solidariedade humanas, mas também a consciência de fazer parte dessa aventura desconhecida e incrível, e o desejo de que continue rumo a uma metamorfose da qual surja um novo devir.
O senhor sustenta que “a vida é um combate entre a prosa e a poesia”. Como fazer para que, em um mundo tão desafiador, a prosa não invada tudo e consigamos preservar um espaço para a poesia?
Cada um deve tentar viver poeticamente. Todos os momentos de felicidade contêm uma dimensão poética. A aspiração de se realizar estando integrado a uma comunidade deveria ser a primeira aspiração humana; a segunda, a de uma vida poética.
Não confundo a prosa com a desgraça. Na prosa, há ausência de alegria; na desgraça, há presença de sofrimento. Aqueles que sofrem a desgraça – os encarcerados, os excluídos, os miseráveis – também estão condenados à prosa, ainda que às vezes vivenciem instantes fugazes de poesia.