Os novos horizontes que podem desenhar um pós-capitalismo. Artigo de Mauri Cruz

Foto: Orlando Vera | Pexels

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30 Agosto 2025

Frente às guerras, a financeirização e a fragmentação do trabalho, as teorias clássicas perderam a capacidade de enxergar o presente. À esquerda, tem restado a defesa das democracias liberais. É hora de sair desta defensiva e voltar a projetar futuros que entusiasmam as maiorias.

O artigo é de Mauri Cruz, advogado socioambiental, especialista em direitos humanos, professor de graduação em direito à cidade e Mobilidade urbana, diretor regional da AbongRS., publicado por Le Monde Diplomatique Brasil, 28-08-2025. 

Eis o artigo.

Só é possível compreender um momento histórico depois que ele se encerra. A afirmação de Antônio Gramsci [1] nos ensina que os fenômenos não se revelam em sua totalidade enquanto acontecem. É o paradoxo do mundo no momento. Sabemos que estão ocorrendo mudanças profundas, mas temos dificuldades de compreendê-las. Reconhecemos que a revolução tecnológica alterou nosso modo de vida, elevando a enésima potência a dimensão do individualismo, que a ideia de crescimento infinito é a prática de empresas e governos, que a crise climática já impõe restrições severas a existência da vida no Planeta e que as democracias estão em risco, com o aumento das guerras, da violência e dos grupos extremistas de direita.

Esse caos alimenta um sentimento de desilusão. Está difícil enxergar saídas. Apesar disso, intelectuais como Naomi Klein [2] enxergam essa situação como mais uma crise cíclica do capitalismo, caracterizada pela substituição dos Estados nacionais por Estados corporativos, liderados e controlados pelas big techs. Um exemplo recente é o referendo do Brexit [3] e a presença de Elon Musk à frente do Governo Trump, o que nos faz concluir que, sem a regulação das mídias digitais, não haverá eleições livres de interferência direta dos donos das redes sociais.

Outro sinal dessas mudanças são os conflitos diretos entre as big techs e os demais oligopólios internacionais, em especial, o setor de extração de minérios, de produção de energia, de produção de alimentos e do petróleo. Esses conflitos explicam as elevadas taxas aplicadas pelo Governo Trump contra dezenas de países, medidas que visam desorganizar o mercado internacional gerando impactos negativos em todas essas cadeias produtivas. Portanto, é inegável reconhecer que a dinâmica da globalização neoliberal está sendo alterada, dando lugar a um outro mundo, moldado pelas gigantes da tecnologia, pela indústria da guerra e pelo capital financeiro. Esse modelo só encontra alguma resistência no âmbito dos BRICS que, mesmo sem alterar os atuais paradigmas, tem aprofundado a polarização global.

É a partir da leitura desse quadro que intelectuais como David Harvey [4] compreendem que a crise atual é profunda e pode representar o fim do capitalismo tal como o conhecemos. Para eles, as contradições e falhas do sistema estão se acumulando de tal forma que não há retorno viável ao modelo anterior e, portanto, um novo modelo de exploração está emergindo a partir do caos criado.

Nesta linha, Yanis Varuofakis [5] descreve um mundo globalizado, controlado pela inteligência artificial sob a égide de um Estado-mercado que tudo organiza e que explora de forma direta todos os seres humanos. Ele denomina esse novo sistema como tecnofeudalismo. Perplexos, nos damos conta que a sociedade planetária, pós-capitalista, idealizada por Karl Marx e Friederich Engels no Manifesto Comunista [6], poderá ser resultado, não da emancipação da classe trabalhadora, mas a partir da formação de um novo bloco histórico, como definido por Antônio Gramsci [7], que reúne os segmentos da alta tecnologia, da indústria da guerra e do sistema financeiro.

Esse bloco é decorrência da nova organização do mundo do trabalho, que gera novas e complexas formas de produção e consumo, com alto grau de automação e sob o comando das inteligências artificiais. Nesse cenário, todos os comuns – ar, água, territórios, alimentos, trabalho, democracia, direitos, saúde, educação, tudo – estariam controlados por uma pequena elite altamente tecnológica, com incidência direta sobre cada indivíduo por meio de aplicativos criados e controlados por ela própria. É algo que, de alguma forma, já acontece, com a nossa dependência cada vez maior das ferramentas virtuais sobre todas as dimensões da vida e que, não raro, tentam prescindir da mediação dos estados nacionais, subvertendo o conceito de soberania.

Ao analisar a ascensão da extrema-direita em dezenas de países, é possível concluir que esse novo bloco, para se sustentar, constrói uma ideologia que defende uma sociedade orientada pela exclusão, pela violência e pela negação de amplas camadas de seres humanos como detentores de direitos. Em contraponto a esse quadro catastrófico, não se vislumbra uma alternativa global em gestação.

A mudança no mundo do trabalho, mencionada anteriormente, alterou a composição da classe trabalhadora, cuja relação com o trabalho tornou-se completamente distinta daquela que deu origem aos movimentos de trabalhadores ao longo de vários séculos.

A identidade de classe encontra-se diluída em centenas de micro identidades, o que dificulta a construção do próprio conceito de classe. A ideologia dominante faz com que, cada vez mais, trabalhadores e trabalhadoras se enxerguem como empreendedores – verdadeiros empresários de si mesmos.

Frente a esse quadro, a teoria revolucionária clássica perdeu a capacidade de explicar os fenômenos econômicos, sociais, políticos e culturais da nova ordem capitalista global. Talvez, por isso, o horizonte utópico das esquerdas passou a ser a defesa de democracias participativas e distributivas, instaladas em estados nacionais capitalistas, abandonando o projeto estratégico de superação do capital. Inevitável não lembrar da frase do filósofo Mark Fisher [8] quando afirma que: “as esquerdas conseguem imaginar o fim do mundo, mas não conseguem mais imaginar o fim do capitalismo”. Na esteira deste processo, renunciou-se à formação político-ideológica das camadas populares, desistindo de articular um novo bloco histórico e um novo horizonte utópico, capaz de alimentar a luta em prol de uma transição pós-capitalista.

Por isso, afirmar que, sem uma nova utopia, classista, humanista, inclusiva, ambientalista, antipatriarcal, antirracista, não homofóbica, anticapacitista e antietarista, dificilmente conseguiremos fazer frente às mudanças que estão sendo gestadas pela nova elite global. É preciso agir, porque a resistência é agora, e sonhar, porque precisamos imaginar o outro mundo possível, para ter capacidade de mobilizar corações e mentes a fim de construí-lo.

Referências

[1] GRAMSCI, Antônio. Cartas do Cárcere, Civilização Brasileira, São Paulo, 2005;

[2] KLEIN, Naomi. A ascensão do capitalismo da catástrofe. Companhia das Letras, São Paulo, 2009.

[3] Termo originada na língua inglesa, resultante da junção das palavras British (britânico) com a palavras Exit (saída), em referência a saída do Reino Unido da União Europeia.

[4] HARVEY, David. O enigma do capital e as crises do capitalismo. Boitempo, São Paulo, 2011.

[5] VAROUFAKIS, Yanis. Tecnofeudalismo: o que matou o capitalismo. Crítica, São Paulo, 2025.

[6] MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. Manifesto Comunista. Paz e Terra, São Paulo, 2006.

[7] GRAMSCI, Antônio. Cadernos do Cárcere. Civilização Brasileira, São Paulo, 1999.

[8] Mark Fisher é professor no Departamento de Cultura Visual da Universidade de Londres e responsável pelo blog k-punk.

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