EUA. A retórica anti-imigrante de Trump funcionará, mas apenas no começo

Fonte: Wikimedia Commons

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12 Dezembro 2024

O número de imigrantes indocumentados que chegam à fronteira dos EUA irá despencar nos primeiros dias após o início da segunda presidência de Donald Trump, em 20 de janeiro, mas a médio e longo prazo esforços anteriores para fechar a fronteira e deportar milhões de migrantes que chegaram do México não conseguirão reduzir esse fluxo.

A reportagem é de Jim Cason e David Brooks, publicada por La Jornada, 10-12-2024. A tradução é do Cepat.

A retórica anti-imigrante do presidente eleito já está disseminando medo entre as populações indocumentadas em cidades e povoados de todo o país. As famílias têm medo de que os seus filhos sejam separados dos lares e preparam planos de contingência para eles no caso dos pais serem detidos; alguns já estão considerando retornar ao México ou ir a outros países diante deste clima hostil e ameaçador. Os analistas também preveem que os esforços do próximo governo de Trump imporão ainda mais custos ao México devido à crescente população de estrangeiros forçados a esperar ali enquanto tentam entrar nos Estados Unidos.

As ameaças de uma fronteira fechada e a retórica oficial anti-imigrante poderiam dissuadir muitos de tentarem atravessar a fronteira, mas apenas por um tempo. No dia 20 de janeiro de 2017, quando Trump tomou posse no seu primeiro mandato presidencial, o fluxo de imigrantes através da fronteira com o México quase desapareceu e nos meses seguintes (fevereiro, março e abril) registrou o menor número de travessias da fronteira em décadas. Isto, prevê-se, se repetirá no próximo ano, e faz parte da estratégia dos conselheiros de Trump de repetirem as suas declarações de que a entrada de imigrantes indocumentados não será permitida.

O presidente Trump, no seu primeiro dia, assinará uma série de ordens executivas que fecharão a fronteira e iniciará o maior esforço de deportação da história dos EUA, declarou Stephen Miller, conselheiro anti-imigração de Trump, que foi nomeado subchefe de gabinete na Casa Branca do futuro governo. Estas ordens executivas poderiam incluir a retomada do programa Permanecer no México para forçar os requerentes de asilo a esperar neste país enquanto as suas petições são processadas, expandir o programa de deportação acelerada e encerrar programas como a proteção temporária contra a deportação, que já permitiu que quase um milhão de migrantes de países em crise ou com condições violentas permanecessem nos Estados Unidos durante anos.

Miller, o arquiteto das políticas anti-imigração de Trump, afirmou em entrevista à Fox News que os líderes republicanos do Congresso prometeram que serão capazes de aprovar um pacote de financiamento para a fronteira em janeiro ou no início de fevereiro, o investimento mais significativo na segurança fronteiriça na história estadunidense. Estes recursos, acrescentou, apoiarão um aumento significativo de funcionários da Polícia de Imigração e Alfândega (ICE) que trabalham em deportações, um aumento histórico de agentes da Patrulha de Fronteira e um aumento salarial para eles, financiamento total para operações militares, assim como para locais de detenção de migrantes e barreiras na fronteira.

Questionado no domingo sobre algumas destas medidas, Trump respondeu que as primeiras ordens de deportação se concentrarão nos migrantes acusados de cometer crimes – uma categoria que, segundo a ICE, inclui 662.566 pessoas – alguns dos quais foram acusados, mas não condenados, e muitos dos quais não estão presos.

Trump, em entrevista à NBC News, disse que pretende deportar todos os que estão ilegalmente neste país. É uma coisa muito difícil de fazer, mas existem regras, regulamentos e leis. Eles chegaram ilegalmente, afirmou. Mas, como é frequentemente o caso, Trump se contradisse depois ao sugerir que era necessário encontrar uma solução para os dreamers – aqueles que vieram para este país como menores com os seus pais indocumentados –, permitindo que permaneçam nos Estados Unidos.

Sobre se procuraria restaurar a controversa medida da sua primeira presidência, em que separou famílias à força, Trump respondeu que "a melhor forma de evitar isso seria deportar a família inteira. Enviaremos todos (de volta), de forma muito humana, para o país de onde vieram. Assim, a família não será separada", disse à NBC.

Uma segunda prioridade para a deportação serão os 1,4 milhão de pessoas no sistema de imigração dos EUA que têm ordens finais de deportação, mas permanecem no país. Outros 1,7 milhão sujeitos à deportação serão aqueles que aguardam audiências sobre os seus pedidos de asilo.

Existem precedentes históricos para as deportações em massa. Trump chegou inclusive a citar a “Operação Wetback” (Operação costas molhadas) durante a presidência de Dwight Eisenhower na década de 1950 como um modelo a ser seguido. Em 1954, o ex-general do Exército dos EUA Joseph Swing juntou-se à Patrulha da Fronteira e organizou um esforço de estilo militar de deportação que incluía prender trabalhadores nos campos, cercar parques urbanos e prender qualquer pessoa que parecesse mexicana. Muitos foram colocados em vagões de gado nas ferrovias e transportados de Los Angeles e outras cidades para a fronteira.

Em entrevista ao La Jornada, o professor de história Kevin Johnson, da Universidade da Califórnia em Davis, explicou que” os agentes da imigração eram enviados a lojas e lugares públicos onde se supunha que os imigrantes se reuniam. Não houve grande preocupação com o devido processo. Foi rápido e sujo”. O governo federal afirmou ter deportado 1,3 milhão de pessoas, incluindo muitos cidadãos estadunidenses.

Mas o professor Johnson afirma que um paralelo melhor ao que Trump propõe seria a menos conhecida deportação em massa de mexicanos durante a Grande Depressão, em 1931, no governo de Herbert Hoover. “Isso foi liderado pelos governos locais e estaduais. A polícia realizou batidas em lugares públicos…aproximadamente um milhão de pessoas de ascendência mexicana, incluindo muitos filhos de imigrantes, foram deportadas”, relatou.

O especialista destacou que nenhum destes programas de deportação em massa conseguiu pôr fim à migração indocumentada. O emprego é o principal fator que motiva a imigração para este país, lembrou, e “enquanto esses empregos existirem, eles virão. A Operação Wetback teve muito pouco impacto na população indocumentada deste país”, disse.

Para comprovar o que estava dizendo, Johnson observou que, em meados da década de 1990, a população indocumentada nos Estados Unidos era de aproximadamente 5 milhões. Acrescentou que hoje, embora os gastos federais para impedir a migração indocumentada tenham triplicado, a população indocumentada está entre 10 e 11 milhões. “Não existem provas de que a repatriação funcione”, concluiu.

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