A raiva de Israel contra o Papa “Genocídio é o de 7 de outubro”

Papa Francisco | Foto: Vatican Media

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19 Novembro 2024

“Aquele de 7 de outubro foi um genocídio: Israel tem o direito de se defender”. Várias horas se passaram antes que a embaixada de Tel Aviv junto à Santa Sé se posicionasse - com extrema clareza - sobre as palavras do Papa que, em uma antecipação publicada ontem no La Stampa, sugeria a necessidade de “investigar com atenção para determinar se (o que está acontecendo em Gaza, ndr.) se enquadra na definição técnica formulada por juristas e organismos internacionais” de “genocídio”. Francisco escreve isso nas páginas de seu livro A esperança nunca decepciona. Peregrinos rumo a um mundo melhor [em tradução livre], que será publicado amanhã na Itália, na Espanha e na América Latina (a seguir nos outros países) por ocasião do Jubileu 2025 pela Piemme. Mas a declaração é tão explosiva que, em apenas algumas horas, é divulgada pelos jornais de todo o mundo, da agência Reuters ao Times of Israel, dos jornais estadunidenses aos asiáticos.

A reportagem é de Francesca Del Vecchio, publicada por La Stampa, 18-11-2024. A tradução é de Luisa Rabolini

As palavras do papa chegam justamente na véspera da apresentação à ONU do relatório do Comitê Especial da ONU que, pela primeira vez, coloca suas acusações em preto e branco: as práticas israelenses na Faixa de Gaza “correspondem às características de um genocídio”. E, mais, Israel “provoca intencionalmente morte, fome e lesões graves”.

A reação da embaixada é certamente a que todos esperam: contrariedade. As frases são estigmatizadas pela diplomacia israelense junto à Santa Sé, que não apenas lembra que “em 7 de outubro houve um massacre genocida”, mas enfatiza que “qualquer tentativa de chamar essa autodefesa com qualquer outro nome significa isolar o Estado judeu”. Não se poderia esperar uma posição diferente, afinal de contas. E assim, as duas maiores comunidades judaicas da Itália, Roma e Milão, escolhendo a reserva, mostram de fato sua escolha de campo. A começar pelos líderes: os rabinos Riccardo Di Segni e Alfonso Arbib, o presidente da comunidade milanesa Walker Meghnagi. O silêncio, no entanto, da senadora vitalícia Liliana Segre, não surpreende: ela nunca quis tomar partido nesse debate.

Meses depois, foram antecipatórias as declarações do rabino-chefe de Roma, Di Segni, após o discurso de GhaliParem o genocídio” em Sanremo,: “Suas palavras passam como uma mensagem de paz. O que, ao contrário, embaralha as cartas na mesa e subverte a História”. Palavras ainda mais significativas quando lidas agora que ao falar de “genocídio” é o Papa.

“Considero as acusações de genocídio 'certamente infundadas', para citar o Departamento de Estado dos EUA”, comenta Davide Romano, diretor do Museu da Brigada Judaica de Milão. “O exército israelense - acrescenta - é o único a avisar os civis palestinos antes de bombardear alvos militares, o único a fornecer ajudas humanitárias aos civis enquanto combate os terroristas e a vacinar a população palestina contra a poliomielite durante a guerra. Todas essas operações, além de muitas outras, tornam as hipóteses de genocídio infundadas”.

Entre as reações mais duras está a do conselheiro municipal de Milão, Daniele Nahum, ex-vice-presidente da comunidade judaica local e que saiu do partido PD em protesto justamente pelo uso da palavra “genocídio”, que disse estar “surpreso com o Santo Padre”. Segundo ele, “passar as vítimas de ontem como os carrascos de hoje está levando a uma onda de antissemitismo”. E acrescenta: “Evidentemente, o Papa não viu o relatório da ONU que redimensiona o número de mortes em Gaza. Massacre é um termo diferente”. Por fim, a associação Setteottobre, fundada, entre outros, por Stefano Parisi (ex-número um da Fastweb que, em 2016, concorreu pela centro-direita contra Beppe Sala para a prefeitura de Milão), fala de “acirrar a animosidade contra Israel e os judeus”. “Todos nós estamos preocupados hoje com essa dramática regurgitação antissemita. A enorme responsabilidade moral do Papa deveria sugerir uma maior cautela”, escreveram em uma nota.

Pelo lado da comunidade palestina, ao contrário, chega o agradecimento a Jorge Mario Bergoglio “mais uma vez, por reconhecer o direito do povo palestino à autodeterminação e à criação de seu Estado livre e independente”.

Além disso, essa não é a primeira vez que o papa usa a palavra “genocídio” para o que está acontecendo na Faixa de Gaza. Isso havia sido relatado pelos parentes dos palestinos de Gaza que se encontraram com o Pontífice em 22 de novembro de 2023. Na época, o porta-voz do Vaticano, Matteo Bruni, desmentiu imediatamente o fato. Na época, tratava-se de uma conversa. Desta vez, “genocídio” está escrito preto no branco.

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