“Nós sentimos traídos pelo Pontífice, assim ele contribui para espalhar o ódio”. Entrevista com Sacha Roytman

Foto: Ashraf Amra/Anadolu Agency

Mais Lidos

  • Dos turbantes aos uniformes militares: quem está no comando no Irã e por que Trump está errado

    LER MAIS
  • O Brasil que a República não quis construir. Entrevista com Ivanir dos Santos

    LER MAIS
  • A catolização de Jesus de Nazaré: uma febre que mata. Artigo de Daniel Luiz Medeiros

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

19 Novembro 2024

“Ficamos chocados com o fato de o Papa ter se envolvido no conflito dessa forma. Ele tem a obrigação de se posicionar em relação a todos os lados e, obviamente, também o nosso. Todos nós queremos ver a população civil protegida. Mas continuar a sugerir que deveria haver uma investigação sobre Israel por genocídio ultrapassa o limite do líder religioso e não é apropriado, até porque o Papa sabe muito bem que Israel não está cometendo genocídio em Gaza. Nós nos sentimos traídos por ele”.

A reportagem é de Nello Del Gatto, publicada por La Stampa, 18-11-2024. A tradução é de Luisa Rabolini.

Sacha Roytman é o CEO do Combat Antisemitism Movement (CAM), uma organização internacional que monitora e luta contra o antissemitismo em todo o mundo. Ele foi o primeiro a emitir um duro comunicado contra as palavras do Papa.

“Seu comentário”, diz ele, “não é apropriado. Não é o seu lugar, não é o seu papel e não é justo. Se você quiser tornar o mundo um lugar melhor, deveria realmente começar a atacar os responsáveis: Irã, Hezbollah, Hamas, Autoridade Nacional Palestina, que vêm espalhando o terror há anos e promovendo guerras genocidas e mensagens de ódio para seus filhos. O ódio ao povo palestino não é ensinado em nossas escolas. É um grande ataque a Israel que está respondendo à narrativa palestina antijudaica, espalhada por todo o mundo, e sentimos que, nesse caso, foi ultrapassado o limite e se ingressou numa narrativa falsa”.

O papa não disse que houve genocídio, pediu para investigar. “Esse é o primeiro passo para cair em uma narrativa errada. Dever-se-ia pedir para investigar o Hamas, a Autoridade Nacional Palestina, o dinheiro das instituições internacionais na UNRWA, a forma como o Irã e o Iêmen e os Houthis estão envolvidos. Dizer que Israel cometeu genocídio ou insinuar ou pedir uma investigação, penso ser totalmente errado, não é o passo certo a ser dado pelo Papa”.

Em seu comunicado contra as palavras do papa, vocês falaram de “alvo de desprezo”, “nova inquisição”, “o judeu sempre seria considerado culpado, independentemente dos fatos”. Você acha que as palavras do Papa aumentam os sentimentos antissemitas que vocês denunciam?

“A maneira como a guerra em Gaza é apresentada, os números de vítimas, as notícias, as palavras, contribuíram para disseminar a falsa narrativa e o antissemitismo. O Hamas explora civis, comete crimes contra a humanidade todos os dias, mantém os reféns e usa Gaza como um centro de terror. A alegação de genocídio - conclui Roytman - é usada como uma das maiores narrativas antijudaicas, porque é fácil de difundir, principalmente por vozes pró-palestinas, extremistas ou radicais islâmicas. Se o chefe da Igreja Católica tornar isso ainda mais mainstream e lançar uma falsa narrativa, isso é perigoso, e as pessoas usarão isso contra as comunidades judaicas, contra Israel, e espalharão mais antissemitismo, mais ódio. Precisamos de um papa que acalme a situação, especialmente na Europa, onde ele não atuou na tentativa de acalmar a relação entre muçulmanos e judeus. Ele também não tem um papel a desempenhar no Oriente Médio, especialmente porque não conseguiu proteger as minorias cristãs no Egito, no Líbano e na Síria”.

Leia mais