Cardeal Zuppi: a guerra é sempre uma derrota para todos

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07 Julho 2023

A importância de repensar o conceito de paz e superar a visão da guerra como um jogo e investir na diplomacia.

A reportagem é de Roberto Paglialonga, publicada por L'Osservatore Romano, 05-07-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

“A guerra é sempre uma derrota para todos. Portanto, as soluções devem ser buscadas na complexidade da realidade. Conhecer a "profundidade da história" serve justamente para isso, ou seja, para juntar os diferentes fragmentos e construir um nós maior que o eu". Assim se expressou o presidente da CEI, cardeal Matteo Zuppi, na apresentação do livro de Andrea Riccardi Il grido della pace (O grito de paz, em tradução livre, San Paolo), realizada ontem à noite em Roma, na sede da comunidade de Santo Egídio.

Confirmando, em sua resposta aos jornalistas, que havia se encontrado com o Papa ao retornar de suas missões a Moscou, a mais recente, e antes em Kiev, como enviado especial do pontífice e de ter conversado com ele sobre a prioridade de hoje, que é “trabalhar pelos mais desfavorecidos, como as crianças, e ver se pode ser possível acionar o mecanismo para fazê-los voltar para casa e, assim, ajudar o lado humanitário.

Esperemos que se comece pelos menores, pelos mais frágeis. As crianças devem poder retornar para a Ucrânia”, ressaltou novamente.

Durante a apresentação — da qual participaram, com a moderação do Professor Marco Impagliazzo, presidente da Comunidade de Santo Egídio, também estiveram presentes o jornalista Marco Damilano, o presidente do Censis Giuseppe De Rita, e a filósofa Donatella Di CesareAndrea Riccardi destacou que é tempo de "voltar a pensar no que é a paz". Hoje, a guerra assusta, “sim, mas talvez não o suficiente", disse novamente. Por isso, “deve ser superada a visão da guerra como um game: isso leva a sua inexorável aceitação, a uma familiaridade com a guerra, quase à sua própria reabilitação".

Mas onde está o movimento pela paz hoje, se perguntou? “Não sei, não o vejo — é a resposta — mas há muitos fragmentos em movimento, que somos chamados a recompor para reconstruir a comunidade". Por isso, da parte da política “são necessários pensamentos e visões mais amplos, é preciso um maior investimento na diplomacia. É preciso retomar a história e a memória, como aquela da Segunda Guerra Mundial e do Holocausto. Superar o discurso do derby, das torcidas de estádios, alimentando uma cultura de paz e fazendo com que essa cultura seja difundida entre as pessoas".

Marco Impagliazzo também se debruçou sobre a memória da guerra e das guerras, destacando como "hoje na Europa perdemos as testemunhas das crueldades" do século XX, esquecendo-nos "do valor da paz e fracassando na tarefa moral de promovê-la todos os dias". Enquanto o jornalista Marco Damilano, enfatizou a perigosa ligação entre "guerra e nacionalismo, que pareciam ter sido varridos com o fim da Segunda Guerra Mundial e, ao contrário, retornaram com força no XXI século“. Tanto que hoje “a ‘não-paz’ é quase um monstruoso ponto de equilíbrio” da geopolítica e das relações internacionais. E relembrando o discurso do Presidente do Parlamento Europeu David Sassoli (falecido no ano passado) em Campo di Fossoli em julho de 2021 sobre o nascimento da Europa da tragédia do Holocausto, sublinhou que “a não-paz hoje é a outra face de uma fratura em que o ódio prevalece e se torna projeto político: enquanto trabalhar pela paz é um ato de resistência, um grito desesperado, mas ainda assim de esperança”.

Para construir um senso comum, "mais importante que o grito são as vozes de tantos que trabalham pela paz, como Paolo VI ou Giorgio La Pira no passado", disse Giuseppe De Rita, que destacou a importância de poder "raciocinar com o homem e com a comunidade em conjunto, porque só assim o ódio, o verdadeiro inimigo da paz, pode ser derrotado". Para isso, “é preciso entender de onde vêm as hostilidades e as diferentes visões de mundo, atentando para a historiografia mais profunda”.

Infelizmente, “a familiaridade com a guerra nasce hoje da indiferença e do processo de forte despolitização em andamento” no discurso e na vida pública, disse Donatella Di Cesare.

Ressaltando que “a Igreja e a Europa podem ser dois pilares imprescindíveis” para a reconstrução do sentido do bem comum.

Como escreveu o Papa Francisco em Fratelli tutti: “Não fiquemos em discussões teóricas, tomemos contato com as feridas, toquemos a carne de quem paga os danos”, porque “toda guerra deixa o mundo pior do que o encontrou”.

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