Putin e Hitler. Artigo de Manuel Castells

Vladimir Putin (Fonte: Wikimedia Commons)

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30 Janeiro 2023

“Se não negociarmos a paz por território, entraremos gradualmente na Terceira Guerra Mundial. Chamberlain tinha razão. Tudo menos a guerra total. Os cientistas posicionaram o relógio do fim do mundo a 90 segundos da meia-noite”, escreve Manuel Castells, sociólogo espanhol, em artigo publicado por La Vanguardia, 28-01-2023. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Putin, na Ucrânia, é comparável a Hitler, no início da Segunda Guerra Mundial? Não é uma questão trivial. Se pensarmos que esta guerra visa a expansão territorial na Europa do Leste, como é temido pela Polônia, os países bálticos e a Finlândia (justificadamente com base na sua experiência histórica), a OTAN precisa evitar que a ameaça cresça. Estaríamos em Munique, 1938: não é possível apaziguar um monstro, como defendem os falcões estadunidenses e da União Europeia.

Algo tão sério deve ser analisado para além das emoções, por mais indignados que estejamos pelas crianças ucranianas mortas pelos bombardeios indiscriminados contra civis. Para Hitler, a grande Alemanha precisava de território e populações subjugadas para sobreviver. Contudo, na raiz de sua agressão, e de seu apoio entre os alemães, estava a humilhação das condições impostas pelos aliados, no final da Primeira Guerra Mundial.

A Rússia tem um imenso território e mais recursos naturais do que qualquer outro na Europa e não precisa de mais. No entanto, Putin, e a maioria dos russos, também tem um profundo sentimento de humilhação, de ter perdido um império sem ter sido derrotados em uma guerra e com quase nenhuma oposição interna. Foi a ação de um Gorbachev que permanecerá em muitas mentes russas como o grande traidor. Esse sentimento de humilhação alimenta o nacionalismo russo, apoiado por uma Igreja Ortodoxa que considera a cultura russa o baluarte contra a degeneração moral do Ocidente.

Formado na KGB, Putin pensa que um país só é respeitado por sua força militar, que lhe permite controle e influência no mundo, começando em seu entorno. Para superar a humilhação da Rússia, Putin se lançou em uma corrida armamentista. Após submeter a Chechênia, consolidou a Síria como um Estado vassalo, destruindo Alepo sem que movêssemos um dedo.

Recuperar o controle da parte pró-Rússia da Ucrânia é a nova operação. Fracassou em sua primeira tentativa, mas não desistirá até ocupar a parte da Ucrânia que define como russa. Atacará novamente, em breve, com mais soldados e armas mais sofisticadas. Ao mesmo tempo, cria um bloco geopolítico compartilhado com a China, a quem a OTAN torpemente declarou inimiga.

Não é necessário que invada a Polônia, mas não aceitará uma derrota na Ucrânia. E, se preciso, usará armas nucleares táticas. “Não é um blefe”, como disse e acaba de recordar Volodin, o presidente do Parlamento. Sabe que haverá resposta e, por isso, utiliza um emprego nuclear estratégico. Alertou-se sobre a operatividade do submarino nuclear que já navega no Pacífico e será armado com torpedo-drones nucleares Poseidon (alvo: a produção tecnológica militar concentrada na Califórnia). Nisso, Putin difere de Hitler, que não teve tempo de se tornar nuclear.

E mesmo assim, continuamos irresponsavelmente falando em derrotar a Rússia na Ucrânia. Se não negociarmos a paz por território, entraremos gradualmente na Terceira Guerra Mundial. Chamberlain tinha razão. Tudo menos a guerra total. Os cientistas posicionaram o relógio do fim do mundo a 90 segundos da meia-noite.

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