Hans Küng, divulgador da paixão pelo Evangelho. Artigo de Fulvio Ferrario

Hans Küng. | Foto: Reprodução/YouTube

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08 Abril 2021

Para mim, Hans Küng sempre pareceu um superstar da cultura, um homem muito competente e um fiel convicto, que transmitia com paixão pelo evangelho a tarefa de pensar a fé. É um pouco paradoxal, mas foi precisamente ao lê-lo, ele que queria se dizer católico a todo o custo, que me tornei protestante.

A opinião é de Fulvio Ferrario, teólogo italiano e decano da Faculdade de Teologia Valdense, em Roma, em artigo publicado por Riforma, 07-04-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o artigo.

 

“O que importa, em última análise, é que o ser humano – sadio ou doente, hábil ou inábil ao trabalho, eficiente ou ineficiente, acompanhado ou abandonado pelo sucesso, culpado ou inocente – mantenha, com imperturbável firmeza, durante toda a sua existência e não apenas no fim, aquela confiança que, com todo o Novo Testamento, nós chamamos de fé. E se o seu Te Deum é para o único Deus verdadeiro, não para uma das muitas falsas divindades, então você pode referir a si mesmo, em qualquer situação em que se encontre, as palavras conclusivas do hino, às quais atribuirá o significado de uma promessa: ‘In te Domine speravi, non confundar in aeternum’ [Em Vós espero, meu Deus, não serei confundido eternamente].”

Assim, em uma das suas obras mais importantes, “Ser cristão” (Ed. Vozes, 1979), Hans Küng resume a mensagem da justificação somente pela graça: como pastor evangélico, citei mil vezes essa formulação de um teólogo católico para indicar o evangelho redescoberto pela Reforma, pois não é fácil encontrar outra que seja igualmente eficaz.

Na realidade, Küng, falecido no dia 6 de abril aos 93 anos de idade, não era, rigorosamente falando, um “teólogo católico”.

Ele era teólogo, acadêmico de grande prestígio e divulgador brilhantíssimo, autor de dezenas de livros de alto nível; e era também apaixonadamente católico, ligado à sua Igreja, que criticava com ênfase, mas que amava visceralmente.

De acordo com a Sé romana, no entanto, ele não podia ensinar teologia em nome da Igreja Católica (nesse sentido, portanto, ele não era um “teólogo católico”), particularmente porque havia rejeitado explícita e obstinadamente o dogma da infalibilidade papal.

Em 1979, pouco antes do Natal, havia sido revogada a sua autorização eclesiástica para o ensino. A Universidade de Tübingen reagiu separando o Instituto de Pesquisa Ecumênica da Faculdade de Teologia, confiando-o a Küng, para que ele continuasse ensinando e atraindo estudantes para a cidade de Württenberg.

E pensar que esse mesmo suíço catolicíssimo, natural de Lucerna, formou-se na Gregoriana, residindo no Germanicum, o severo colégio dirigido pelos jesuítas, não muito longe da Praça Barberini. Porém, ele obteve o doutorado em Paris, com uma tese justamente sobre a justificação, na qual defendeu a compatibilidade da doutrina do Concílio de Trento com a evangélica, em particular na formulação de Karl Barth.

Em 1957, esse livro pareceu um pouco estranho (Barth afirmou que Küng o entendeu muito bem, mas não entendeu Trento; Joseph Ratzinger escreveu que o autor havia restituído Trento retamente, mas não havia compreendido Barth), mas que, 42 anos depois, seria substancialmente confirmado pela Declaração Conjunta Católico-Luterana.

Era o início de uma fulgurante carreira, que o levou à cátedra com pouco mais de 30 anos de idade, na prestigiada Faculdade Católica de Tübingen. Nos anos do Concílio, Küng esteve entre os porta-vozes da renovação, mas logo se mostrou desiludido; o seu livro sobre a “Igreja Católica” (Ed. Objetiva, 2002), de 1967, é uma resposta crítica à Lumen gentium.

Mas a verdadeira bomba estourou, como já dissemos, com o livro sobre a infalibilidade, de 1970, um panfleto muito eficaz. Ao contrário da maioria dos seus colegas, Küng chama pão de pão e vinho de vinho; neste caso, que o dogma da infalibilidade não tem bases bíblicas e tradicionais.

Desde então, tornou-se o alvo de uma perseguição por parte do magistério romano. Muitos teólogos, não só católicos, esnobavam de Küng como “divulgador”. E assim ele teve que “se contentar” com um imenso sucesso, acompanhado por ótimos ganhos e uma vasta popularidade, incluindo uma capa da revista Time.

É verdade, porém, que, a partir dos anos 1970, Küng se dirigiu amplamente ao público em geral: o já citado “Ser cristão” marca para muitos o primeiro contato com a exegese crítica. Uma década depois, chega a teologia das religiões.

Ao mesmo tempo, Küng continuava a sua batalha pela renovação da Igreja Católica. Ele era muito amigo dos seus colegas evangélicos de Tübingen, Jüngel e Moltmann, mas brigava com eles quando tentavam lhe explicar que dificilmente o papa deixaria de ser papista; na Itália, foi pouco apreciado por Vittorio Subilia, que o considerava um moyenneur, como diria Calvino, ou seja, um homem de compromissos.

Para mim, ele sempre pareceu um superstar da cultura, um homem muito competente e um fiel convicto, que transmitia com paixão pelo evangelho a tarefa de pensar a fé. É um pouco paradoxal, mas foi precisamente ao lê-lo, ele que queria se dizer católico a todo o custo, que me tornei protestante e, também por isso, sempre lhe fui grato.

Küng não carecia de autoconsciência: ele escreveu, por exemplo, uma autobiografia em três volumes (um em italiano), em um total de quase 2.000 páginas e se lamentava frequentemente de não ter recebido reconhecimentos eclesiásticos.

Sobre ele, circula a seguinte anedota. Com a morte de João Paulo II, algum cardeal “progressista” imaginou eleger ao sólio pontifício “aquele famoso professor de Tübingen. Só para mostrar que a Igreja Católica não é tão conservadora”. Alguém telefonou para verificar a sua disponibilidade, mas obteve uma resposta negativa: “Ele quer permanecer infalível!”.

Porém, vale a pena reler esse simpático narcisista: não é obrigatório pensar como ele. Basta deixar-se estimular por ele.

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