"Quem possui legitimidade para organizar o mundo? Talvez seja justamente isso que as eleições de 2026 venham expressar de forma mais dramática. Não apenas uma disputa entre partidos, mas uma disputa sobre quem poderá produzir novos sentidos para o futuro", afirma a pesquisadora.
Assim como a branquitude, ser cisgênero e hétero em uma sociedade manchada por preconceitos ainda causa privilégios, principalmente em um país que mais mata quem não se identifica nesse padrão patriarcal. Apesar da visibilidade LGBTQIA+ ter aumentado com relação às próprias vozes que as representam na política e em outras frentes de luta, ainda assim o grito de resistência pela vida e por existir com todo o fervor de sua identidade continua sendo posto à prova.
De acordo com o dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), o Brasil registrou 80 assassinatos de pessoas trans em 2025. Apesar de ter havido uma queda (em 2024 houve 122 crimes do tipo), o país continua sendo o que mais mata transexuais no mundo, algo que assusta e ameaça existências.
Para a socióloga Berenice Bento, "os ataques contemporâneos contra a população trans não decorrem simplesmente da existência de pessoas trans. Eles decorrem do fato de que elas passaram a disputar aquilo que lhes foi historicamente interditado, o poder". A pesquisadora também analisa que "foi preciso que pessoas trans chegassem ao parlamento para que percebêssemos aquilo que antes parecia e permanecia invisível, que o Estado brasileiro sempre foi estruturalmente cisgênero. Esse talvez seja um dos maiores deslocamentos produzidos pelas epistemologias trans".
O antropólogo Lucas Bulgarelli estuda a violência contra a população LGBTQIA+ a partir do termo ideologia de gênero. Segundo o pesquisador, "a palavra ideologia de gênero aparece como uma dessas tecnologias que ajudam a compor e reconfigurar sentidos de mundo, redefinindo quem são os aliados e quem são os inimigos, sobretudo dentro de lógicas dicotômicas que operam por meio de categorias morais como bem e mal, Deus e pecado".
Berenice Bento e Lucas Bulgarelli participaram da mesa redonda "Direitos da população LGBT+ e eleições 2026", promovida pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU no mês passado. A seguir, publicamos no formato de entrevista os principais trechos do debate.
Berenice Bento, socióloga e escritora brasileira | Foto: Arquivo pessoal
Berenice Bento é professora do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Trabalha no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra como pesquisadora visitante. Suas atividades de ensino, pesquisa e extensão estão articuladas com sua inserção nos debates políticos nacionais e internacionais em torno dos direitos humanos numa perspectiva interseccional.
Lucas Bulgarelli, advogado, antropólogo, professor, consultor em diversidade e pesquisador | Foto: Arquivo pessoal
Lucas Bulgarelli é docente do Instituto Brasileiro de Gestão Pública - IBEGESP, advogado, antropólogo, professor, consultor em diversidade e pesquisador. Realiza palestras, workshops, mesas-redondas e treinamentos sobre diversidade e inclusão. Professor do MBA de Business Innovation da FIAP, do MBA da Verbo Jurídico e do curso de diversidade do IBGESP. Coordenador do Núcleo de Pesquisa em Gênero e Sexualidade da Comissão de Diversidade Sexual da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP), é bacharel em Direito (USP), mestre (USP) em Antropologia Social e doutorando (USP) em Antropologia Social. Prestou consultoria de projeto para o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e para o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Foi pesquisador do Pesquisa em Direito e Tecnologia (Internetlab). Coordenou a pesquisa Violência contra LGBT+ nos contextos eleitoral e pós-eleitoral, financiada pela Fundação Ford.
IHU – Por que justamente agora as pessoas trans se tornaram um dos principais alvos da política brasileira?
Berenice Bento – A questão das eleições e a população LGBTQIA+ tem pontos em comum, mas também tem algumas especificidades que vou tratar a partir de um recorte, focando na questão trans. O que vou trazer hoje foi apresentado em um artigo que publiquei recentemente na revista Cult, um ensaio chamado "Palestina e a travesti: quando a vítima mantém as presas" e acho que isso deve ficar claro ao longo da minha contextualização.
A transfobia não começou ontem. Pessoas trans foram expulsas de casa, excluídas das escolas, empurradas para a prostituição, assassinadas, ridicularizadas durante décadas. Nada disso é novidade.
O que mudou então para que esses corpos estejam ocupando um lugar tão central nos discursos políticos e certamente terá nas campanhas eleitorais, nos debates parlamentares e nas chamadas guerras culturais? Responder que se trata de preconceito definitivamente é insuficiente. O preconceito sempre existiu, porém não basta atribuir esse fenômeno exclusivamente ao avanço da extrema-direita. Essa resposta explica parte do problema, mas não sua especificidade. Se queremos compreender por que a população trans se tornou um dos principais alvos da política contemporânea, precisamos refazer a pergunta. O que aconteceu para que essa população passasse a se tornar uma ameaça tão grande para determinados setores da sociedade?
Foi lendo o escritor palestino Mohammed El-Kurd que encontrei uma hipótese para iluminar essa questão. No livro "Vítimas perfeitas e a política do apelo", El-Kurd mostra que o colonialismo não administra apenas territórios, ele controla e autoriza as formas legítimas de sofrimento. O palestino aceitável é aquele que sofre, que desperta compaixão, mas não organiza resistência. Pode chorar, pode narrar sua tragédia, o que não pode é transformar sua dor em projeto político.
Enquanto li esse livro, tive a impressão de que El-Kurd escrevia, sem saber, parte da história da população brasileira. Durante décadas, pessoas trans foram autorizadas a existir apenas sobre determinados signos. Podiam ocupar consultórios psiquiátricos, pesquisas acadêmicas, programas de televisão, páginas policiais e estatísticas da violência.
Eram admitidas como objeto de intervenção médica, de curiosidade científica e da compaixão pública. O sofrimento era permitido, a agência política não. Essa é a hipótese que pretendo desenvolver nessa entrevista. Os ataques contemporâneos contra a população trans não decorrem simplesmente da existência de pessoas trans. Eles decorrem do fato de que elas passaram a disputar aquilo que lhes foi historicamente interditado, o poder.
Essa transformação pode ser observada em diversos indicadores. O Brasil continua sendo um dos países mais violentos do mundo para pessoas trans, a expectativa de vida permanece muito inferior à média nacional. A exclusão escolar, o desemprego e a expulsão precoce do ambiente familiar ainda estruturam a experiência cotidiana de uma parcela significativa dessa população. Ao mesmo tempo, porém, algo novo aconteceu. Pela primeira vez na história brasileira, pessoas trans passaram a ocupar universidades, produzir conhecimento, disputar eleições, dirigir sindicatos, integrar partidos políticos e a conquistar mandatos parlamentares.
Essa mudança altera profundamente o cenário político. Enquanto a população trans permanecia confinada aos lugares socialmente destinados à exclusão, ela podia ser objeto de políticas públicas, campanhas de solidariedade ou estudos acadêmicos. Quando pessoas trans começam a ocupar o Estado, a escrever leis e a disputar os critérios pelos quais a sociedade organiza o gênero, a família e a cidadania, elas deixam de ser percebidas como exceção. Tornam-se adversárias políticas. É exatamente nesse ponto que emerge o pânico moral contemporâneo.
Durante muito tempo, pessoas trans foram toleradas apenas sob determinadas condições, como já disse anteriormente. O sofrimento era inteligível, a crítica política não. Havia, portanto, um pacto silencioso que permitia que ambas sofressem sem que pudessem disputar o mundo.
Esse pacto organizou durante décadas a maneira como a sociedade brasileira enxergou as pessoas trans, quando muito eram objeto de políticas públicas. É justamente esse pacto que começa a ruir nos últimos anos. Acredito que compreender essa ruptura é fundamental para entendermos a importância dessas eleições de 2026.
Se observarmos o debate político, veremos que o principal alvo dessa ofensiva não são indistintamente todos os LGBTQIA+. O foco privilegiado recai sobre as existências trans. São elas que aparecem diariamente em projetos de leis, discursos parlamentares, campanhas eleitorais, programas religiosos e disputas judiciais que debatem sobre o uso — ou não uso — de banheiros nas escolas, sobre a presença trans nos esportes, a questão dos documentos, dos pronomes, da hormonioterapia, do controle da infância. Somos quase todos os dias bombardeados com essas discussões atravessando a questão trans.
Poucos grupos sociais ocupam um espaço tão central na imaginação política brasileira quanto uma comunidade que representa menos de 1% da população. Isso deveria nos causar estranhamento.
IHU – Como explicar que um grupo submetido a níveis tão elevados de exclusão seja representado como uma ameaça à sociedade?
Berenice Bento – Embora ainda existam enormes lacunas estatísticas sobre a população trans brasileira, sabemos que ela continua enfrentando condições extremamente precárias de existência. A evasão escolar permanece muito superior à média nacional. A exclusão do mercado formal de trabalho continua empurrando milhares de travestis e mulheres trans para a prostituição como única possibilidade de sobrevivência econômica.
O Brasil segue figurando entre os países com o maior número de assassinatos de pessoas trans do mundo, segundo os relatórios anuais da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA). A violência física é acompanhada pela violência institucional, pelo abandono estatal, pelas inúmeras barreiras de acesso à saúde, à educação e ao emprego.
Esses dados costumam ser utilizados para despertar indignação e devem ser, mas eu gostaria de chamar a atenção para outro conjunto de informações. Enquanto persistem esses dados, essas formas históricas de discussão, algo profundamente novo começou a acontecer. Pela primeira vez na história, pessoas trans passaram a ocupar universidades em números crescentes, tornaram-se professoras, pesquisadoras, advogadas, médicas, jornalistas, artistas, dirigentes sindicais e parlamentares.
As eleições mais recentes registraram o maior número de candidatas trans já apresentadas no país. Também assistimos ao crescente número de vereadoras, deputadas estaduais e deputadas federais trans. Esse movimento ainda é pequeno comparado ao tamanho da exclusão histórica, mas produz um enorme deslocamento simbólico. Durante muito tempo, pessoas trans apareciam apenas como destinatárias de políticas públicas. Hoje, elas começam a participar da elaboração dessas políticas. Durante muito tempo eram estudadas. Hoje, elas produzem conhecimentos epistemológicos. Durante muito tempo, essa população foi representada e atualmente ela representa.
Essa transformação muda profundamente o conflito político, porque aquilo que está em disputa deixa de ser apenas o reconhecimento, passa a ser o poder. É precisamente aqui que a hipótese do palestino Mohammed El-Kurd se torna fecunda.
O problema nunca foi apenas ser diferente. O problema começa quando a diferença organiza poder. Quando uma população historicamente confinada ao sofrimento passa a disputar instituições, produzir leis, ocupar universidades, organizar suas próprias vidas, ela deixa de ser percebida como vítima e torna-se adversária. Essa hipótese nos obriga a rever uma ideia muito difundida, segundo a qual os ataques contra a população trans decorreriam simplesmente do aumento da visibilidade. Não me parece que seja apenas isso.
A visibilidade por si só nunca bastou para produzir tamanha reação. Travestis sempre estiveram presentes nas ruas brasileiras, mulheres trans sempre apareceram em programas de televisão. Então, todas as pessoas sempre existiram, o que muda não é a sua presença, mas a posição. Existe uma diferença enorme entre aparecer na televisão como personagem folclórica/exotizada e ocupar a tribuna da Câmara dos Deputados, entre ser objeto de uma reportagem e presidir uma comissão parlamentar, entre ser entrevistada e escrever uma lei. O conflito começa exatamente nesse deslocamento, quando aqueles que deveriam permanecer administradores passam a administrar governados e passam a disputar o poder, disputar o governo.
É nesse momento que o discurso muda e a vítima perfeita desaparece, aquela que a gente tolera só no registro do sofrimento. Em seu lugar emerge algo muito mais difícil de aceitar para as estruturas de poder: o sujeito político com suas presas preservadas. Até aqui, a presa é uma metáfora que o Mohammed El-Kurd utiliza explicando que o tempo inteiro estão tentando tirar as presas, a fúria, a indignação palestina, tentam, portanto, deixá-los docilizados, só podendo ser escutados sob o registro de uma razão humanitária.
Até aqui procurei sugerir que a identificação dos ataques contra as pessoas trans não decorre simplesmente da existência dessas pessoas. Ela decorre de uma alteração muito mais profunda na maneira como determinadas diferenças passam a ocupar o espaço público. Quero desenvolver um pouco mais essa ideia.
Toda sociedade produz mecanismos para administrar a diferença, não somente reprimi-la. Existe uma enorme diferença entre essas duas operações. Reprimir significa impedir que algo exista. Administrar significa permitir sua existência, desde que permaneça dentro de determinados limites. Durante muito tempo, foi exatamente isso o que aconteceu com a população trans. Estas pessoas nunca estiveram ausentes; portanto, o problema nunca foi sobre visibilidade, mas em quais lugares essa visibilidade era permitida.
Essa questão muda completamente nossa perspectiva. Percebemos que a sociedade nunca autorizou nenhuma forma de presença, mas sim autorizou presenças muito específicas. O que estava sendo administrado não era apenas um grupo social, mas o lugar político que esse grupo podia ocupar. Essa forma de organização da diferença não é exclusiva das experiências trans. Tal prática atravessa praticamente toda história moderna. Mulheres puderam ensinar crianças durante muito tempo, mas não dirigiam universidades. Pessoas negras podiam produzir riquezas, mas não administrar um banco. Pessoas indígenas podiam ser estudadas, mas não produzir teoria sobre o Estado brasileiro.
Talvez, Mohammed El-Kurd tenha percebido justamente isso. A vítima perfeita não é simplesmente alguém que sofre, é alguém cujo sofrimento já foi previamente organizado e autorizado pelas estruturas de poder. Seu sofrimento produz compaixão, mas não produz transformação. Ela conforta quem observa, não ameaça quem governa. Essa observação ajuda a compreender algo que à primeira vista parece contraditório.
IHU – Por que uma população que continua submetida às formas mais brutais de exclusão consegue provocar tamanho medo?
Berenice Bento – A resposta talvez seja simples, porque ela já não ocupa apenas o lugar do sofrimento, mas começa a disputar o lugar da decisão. Toda vez que sujeitos historicamente administrados passam a administrar aquilo que parecia apenas diferença, a situação transforma-se em crise política. É exatamente isso o que assistimos no Brasil.
Por exemplo, quando Erika Hilton sobe a tribuna da Câmara dos Deputados, ela não representa apenas mais uma parlamentar. Sua presença produz um deslocamento muito maior. Ela torna visível algo que permaneceu oculto durante décadas, aquilo que costumávamos chamar de normalidade.
Durante muito tempo, homens e mulheres cis ocuparam praticamente todos os espaços de poder. Mas ninguém dizia que o Congresso era cisgênero. A cisgeneridade funciona como a branquitude: ela aparecia como a ausência de marca, como universalidade e neutralidade. Foi preciso que pessoas trans chegassem ao parlamento para que percebêssemos aquilo que antes parecia e permanecia invisível, que o Estado brasileiro sempre foi estruturalmente cisgênero. Esse talvez seja um dos maiores deslocamentos produzidos pelas epistemologias trans.
Durante décadas perguntamos "quem são as pessoas trans?" e hoje começamos a reformular a pergunta para a forma como a cisgeneridade tornou-se a medida universal de cidadania. Essa mudança altera o objeto da investigação.
O problema deixa de ser o indivíduo trans e passa ser a organização social que transforma determinadas corporalidades em exceção, em abjeção. Essa inversão possui enorme importância política porque desloca a crítica do corpo do indivíduo para a estrutura, e é justamente aí que nasce o pânico contemporâneo, quando a estrutura passa a ser interrogada, não por especialistas externos, mas por aqueles que historicamente foram produzidos por ela como exceção.
É interessante observar que praticamente todos os grandes ataques recentes contra as pessoas trans possuem essas características. Elas raramente discutem indivíduos específicos. O objetivo verdadeiro é impedir que essa crítica estrutural se consolide. Quando um parlamentar apresenta um projeto de lei proibindo pessoas trans em determinados espaços, ele não está preocupado apenas com banheiros ou quando as universidades são acusadas para promover a "ideologia gênero", tampouco o conflito diz respeito apenas aos currículos. O que está em disputa é outra coisa.
Quem possui autoridade para definir o que conta como conhecimento sobre gênero? Quem pode ensinar, legislar, produzir ciência, ocupar o Estado? Em outras palavras, quem possui legitimidade para organizar o mundo? Talvez seja justamente isso que as eleições de 2026 venham expressar de forma mais dramática. Não apenas uma disputa entre partidos, mas uma disputa sobre quem poderá produzir novos sentidos para o futuro.
IHU – Se as disputas em torno de gênero e sexualidade não são novidades nas eleições brasileiras, o que torna as eleições de 2026 um momento diferente? A "ideologia de gênero" é apenas um discurso ou ela produziu efeitos concretos na política, nas instituições e na vida social?
Lucas Bulgarelli – Essas disputas não são novas, tampouco é recente sua centralidade nos processos eleitorais. Desde pelo menos 2010 acompanhamos uma intensificação progressiva dos conflitos em torno das questões de gênero e sexualidade, que passaram a desempenhar um papel cada vez mais estratégico nas campanhas e disputas políticas.
Então, o que há de novo nas eleições de 2026? Se esse conflito já vem sendo travado há mais de uma década, o que distingue o momento atual?
O meu primeiro ponto retoma aquilo a que uma série de pesquisadores e pesquisadoras tem se dedicado nos últimos anos, isto é, o que temos compreendido como um campo de ofensivas contrárias ao gênero: ofensivas políticas, filosóficas e epistêmicas. Trata-se de um campo complexo, que não é exclusivamente brasileiro, mas que se constitui a partir de dinâmicas e circulações transnacionais. Dentro desse cenário, eu me detenho mais especificamente na produção da categoria "ideologia de gênero" e, sobretudo, nos efeitos que essa categoria produziu no Brasil ao longo dos últimos anos.
Para isso, recorro à minha pesquisa. Um dos eixos do meu trabalho é a investigação antropológica dos efeitos produzidos por essa categoria e do legado que ela deixou. Refiro-me tanto aos seus efeitos mais macropolíticos, sobre as instituições e a arena pública, quanto aos seus efeitos mais micropolíticos, as transformações subjetivas e as formas como as pessoas passaram a compreender o próprio gênero. Essa discussão servirá de base para que possamos pensar nas mudanças ocorridas no campo das militâncias LGBTQIA+.
A professora Berenice já trouxe uma provocação bastante pertinente, que nos ajuda a compreender parte dessas transformações. Por isso, pretendo retomar esse diálogo e aprofundá-lo adiante, estabelecendo uma interlocução mais direta com as questões que ela apresentou na abertura.
De início, eu gostaria de falar sobre a "ideologia de gênero". É uma categoria que, de certo modo, tem sido utilizada nas últimas décadas como uma espécie de espantalho para poder classificar não apenas as lutas, mas também os estudos de gênero e sexualidade de forma derogatória e prejudicial. Mas, mais do que isso, durante muito tempo — e sobretudo quando pesquisadores e pesquisadoras no campo de gênero começam a se dedicar e a buscar entender com mais profundidade qual era a dimensão dessa ofensiva — chegamos a uma primeira conclusão, de que essa é uma ofensiva que vem a partir de um avanço das lutas LGBTQIA+ e das lutas feministas. Portanto, podemos entender dentro daquilo que, conceitualmente, tem sido classificado como um backlash, termo proposto pela pesquisadora Susan Faludi, justamente para poder buscar descrever esse movimento de retorno/reação aos avanços dos movimentos sociais.
Quero testar um pouco os limites disso que a gente tem identificado como backlash. Sei que não faço isso sozinho, pois há pesquisadores e pesquisadoras que têm buscado entender primeiro se o termo backlash ainda é um termo que nos ajuda a descrever e analisar aquilo que temos vivido ou até que ponto ele de fato nos ajuda. Mas, para além disso, há uma busca por entender o que mais veio depois dessa reação ou se tudo que vemos hoje em dia ainda pode ser classificado como uma espécie de reação.
O que vou buscar argumentar é que, embora o backlash seja um conceito bastante útil para explicar algumas dinâmicas que temos vivido, ele ainda é insuficiente para dar conta de todas elas, sobretudo das mais contemporâneas. Se, em um determinado momento, fazia sentido compreender nesses processos como uma reação aos avanços das lutas feministas e LGBTQIA+, o que procuro sustentar, especialmente na minha tese de doutorado, é que, em certo ponto, essa reação se transforma em ação.
Dito de outra forma, a partir de determinado momento, já não é mais possível interpretar tudo o que observamos durante o período Bolsonaro apenas pela chave do backlash. Tudo o que vivemos nesse período, não apenas os ataques às discussões de gênero e sexualidade, mas também à ciência, às universidades e aos direitos humanos de maneira mais ampla, revela uma dinâmica que vai além de uma simples reação. Trata-se de uma ofensiva que passa a produzir suas próprias agendas, instituições, sujeitos e formas de atuação política.
Tento argumentar que há uma produtividade bastante problemática e perigosa que advém desse caldo que passamos a vivenciar nos últimos anos, em uma produtividade que causa efeitos tanto políticos mais amplos quanto efeitos na própria forma da população de pessoas enxergarem o gênero, entenderem o que significa essa proposição, a própria palavra gênero. Para isso, faço esse recorte a partir da categoria de "ideologia de gênero", porque sei que não foi a única forma com que essas ofensivas se apropriaram de um debate que vinha sendo feito pelos movimentos sociais, pela universidade, por acadêmicos, pesquisadores e militantes.
Desejo me deter na trajetória dessa categoria porque, diferentemente de muitas outras que circulam no debate público, a "ideologia de gênero" possui uma espécie de certidão de nascimento. Conseguimos identificar com bastante precisão o momento zero dela. Esse percurso já foi amplamente debatido por pesquisadores e pesquisadoras como Sônia Corrêa, Marco Aurélio Máximo Prado, Rogério Junqueira e pela própria professora Berenice, que vêm se dedicando a mapear a origem e a circulação dessa categoria. E este é um dado importante: trata-se de uma categoria cuja origem pode ser localizada no Vaticano.
Há, portanto, uma produção que é eminentemente eclesiástica. Essa elaboração ocorre no interior da instituição vaticana e se desenvolve em um contexto particularmente favorável às lutas feministas e LGBTQIA+. Refiro-me a um período em que esses movimentos passam a ocupar fóruns internacionais, conferências e espaços multilaterais de discussão sobre direitos humanos, incorporando de maneira cada vez mais consistente as questões de gênero e sexualidade a essas agendas. Faço referência, especialmente, às Conferências do Cairo e de Pequim, mas também a um movimento mais amplo de articulação transnacional entre feministas, militantes LGBTQIA+ e pesquisadores, que contribuiu para consolidar nesses debates na arena internacional.
É justamente nesse contexto que intelectuais e quadros ligados ao Vaticano passam a interpretar a categoria de gênero, tal como vinha sendo formulada nesses espaços, como uma ameaça frontal aos valores católicos e cristãos. Evidentemente, não é nos anos 1980 e 1990 que a Igreja Católica inaugura sua oposição às questões de gênero e sexualidade. Essa é uma tradição muito mais antiga. O que se observa nesse período, contudo, é o surgimento de uma ofensiva mais sistemática e organizada. Passa a haver uma produção intelectual voltada a enquadrar, reinterpretar e deslegitimar tanto os estudos quanto as lutas de gênero.
Nesse sentido, a expressão "ideologia de gênero" não surge de maneira espontânea. Ela resulta de um processo deliberado de elaboração conceitual. Sabemos que diferentes expressões foram testadas antes que essa formulação se consolidasse. Há registros de diversas categorias que circularam simultaneamente até que "ideologia de gênero" se mostrasse a mais eficaz para sintetizar essa estratégia discursiva. A partir daí, essa categoria ultrapassa o contexto em que foi produzida e passa a circular internacionalmente, tornando-se uma das principais ferramentas de enfrentamento aos estudos de gênero e aos direitos sexuais e reprodutivos.
São, portanto, intelectuais de grande prestígio no ecossistema católico que passam a produzir livros, documentos e teorias sobre o tema. A América Latina rapidamente se torna um espaço privilegiado para a circulação dessas ideias, em razão da histórica proximidade entre religião e política na região. Além disso, esse discurso encontra aqui interlocutores que já vinham debatendo temas como família, corpo, mulher e gênero, o que favorece sua rápida difusão.
É nesse momento que começamos a acessar os primeiros textos que estruturam essa tradição. Um deles é particularmente importante: "A agenda de gênero", publicado em 1997 por Dale O'Leary, intelectual católica e ativista contrária aos direitos LGBTQIA+, aos direitos das pessoas trans e aos direitos sexuais e reprodutivos. A literatura especializada costuma identificar essa obra como uma das primeiras sistematizações da expressão "ideologia de gênero" enquanto categoria política destinada a nomear uma suposta agenda comum dos movimentos feministas e LGBTQIA+.
Todo esse processo envolve ainda uma ampla rede de intelectuais, como religiosos e lideranças católicas, especialmente do Chile e da Argentina, que participam da difusão dessas formulações na América Latina. Ainda assim, estamos falando, até aqui, de um momento predominantemente intelectual, de elaboração e circulação de ideias.
Avanço alguns capítulos dessa história para chegar ao Brasil mais contemporâneo, sobretudo a partir de 2010. Acredito que, entre os anos 2000 e a década seguinte, ocorreram transformações profundas em diferentes campos políticos. Houve mudanças importantes nas formas de organização e atuação dos movimentos feministas e LGBTQIA+, mas também transformações igualmente significativas no campo que passou a se constituir como principal oposição a essas agendas.
Essas mudanças dizem respeito tanto à presença quanto à forma de atuação de atores religiosos na política, especialmente na política nacional. Já existia uma participação expressiva de lideranças religiosas no parlamento, fossem elas vinculadas à CNBB, às igrejas evangélicas ou a outras religiões. O que passa a ocorrer, entretanto, é uma mudança qualitativa nessa atuação, que deixa de ser predominantemente reativa para assumir um caráter cada vez mais propositivo e estrategicamente organizado.
O que passamos a observar é uma atuação que sai do defensivo para uma ordem mais propositiva. Ou seja, se tornou algo além de atores que muitas vezes se articulavam em torno da liberdade religiosa ou até mesmo de algum tema mais moral, voltado à família e à tradição. O que passamos a perceber a partir dessa virada é também a produção de um ecossistema de organizações católicas, religiosas, de uma produção também de sujeitos que vêm de categorias profissionais, como juízes e promotores, que passam a se articular em associações de juízes católicos, promotores evangélicos e assim por diante.
Vamos percebendo uma transformação que acontece em ambos os campos. A professora Berenice já traz essa inserção de pessoas trans na política que vai se dando ao que a gente tem observado como uma extensa candidatura, um extenso número de candidaturas de pessoas trans. Mas o que eu gostaria de enfocar é que a partir de 2010 observamos mais decisivamente uma chave de virada na forma como os termos de gênero, sexualidade e a ideologia de gênero vão produzir seus efeitos.
Observamos isso no Plano Nacional de Educação em 2013 e 2014 e, logo depois, uma disputa que resulta na categoria gênero do Plano Nacional de Educação. Por conseguinte, nos planos estaduais e municipais a disputa também vai ocorrer em muitas assembleias legislativas e câmaras de vereadores vão retirar a categoria gênero dos seus planos de educação, o que já é um primeiro efeito duradouro para as nossas discussões.
Também fico pensando que esse é um momento de virada, porque depois desse momento surgem movimentos como o Escola Sem Partido, que já existiam, mas que ainda não tinham uma atuação tão voltada ao combate do ensino de gênero e sexualidade nas escolas.
IHU – Quem são os atores que compõem esse campo de oposição às agendas de gênero e sexualidade nesse novo contexto político?
Lucas Bulgarelli – O que começamos a perceber, sobretudo a partir de 2010, é que as disputas em torno do gênero e da sexualidade, e, mais especificamente, a mobilização da categoria "ideologia de gênero", passam a produzir efeitos eleitorais enormes. E esses efeitos já não se restringem ao que poderíamos identificar como um campo de extrema-direita. O que observamos é uma configuração mais complexa, que reúne elementos de uma direita mais tradicional, de uma extrema-direita contemporânea, ou bolsonarista, e de diferentes atores religiosos.
Trata-se de um conjunto bem heterogêneo que articula sujeitos e organizações oriundos de tradições políticas e religiosas distintas, como setores da Igreja Católica e diferentes denominações evangélicas, especialmente as pentecostais. Tenho buscado compreender essa configuração na minha pesquisa de doutorado porque, muitas vezes, acabamos recorrendo a categorias muito amplas, como conservadores, bolsonaristas ou fundamentalistas que, embora úteis em alguma medida, nem sempre nos ajudam a identificar com precisão quem são esses atores e como eles se articulam.
É justamente por isso que tenho proposto compreender essa formação como um consórcio sincrético. Falo em consórcio porque não se trata de um grupo homogêneo ou de uma identidade política única, mas de uma concertação provisória de interesses. São atores que convergem em torno de determinados objetivos comuns, embora mantenham diferenças importantes entre si. E utilizo a noção de sincretismo porque essa articulação atravessa diferentes tradições religiosas e incorpora atores que não são propriamente religiosos.
Acho importante destacar esse aspecto, pois frequentemente atribuímos essas ofensivas exclusivamente ao campo religioso. No entanto, há também uma dimensão claramente secular dessas mobilizações. É nesse período que começamos a observar uma série de acontecimentos representativos desse processo. Os protestos contra a visita da filósofa Judith Butler ao Sesc, em 2017, são um exemplo emblemático. Da mesma forma, os ataques a manifestações artístico-culturais, como os ocorridos no Museu de Arte Moderna de São Paulo e, sobretudo, o fechamento da exposição Queermuseu, no Rio Grande do Sul, evidenciam como essa articulação passa a operar para além do campo estritamente religioso.
Quando observamos esses episódios em conjunto, percebemos que esses consórcios sincréticos são constituídos por atores que, em outras disputas, poderiam aparecer como adversários. Organizações como o Movimento Brasil Livre (MBL) e a Tradição, Família e Propriedade (TFP), por exemplo, passam a convergir em torno da oposição à chamada "ideologia de gênero", assim como setores católicos e evangélicos que historicamente mantiveram diferenças importantes entre si.
É justamente essa capacidade de produzir convergências que confere a esses consórcios uma efetividade política e eleitoral significativa. Mais do que reagir aos avanços das lutas feministas e LGBTQIA+, eles passam a produzir agendas, enquadramentos e formas de mobilização próprias. É nesse ponto que retomo o argumento que apresentei anteriormente: já não estamos apenas diante de um backlash. O que observamos é uma dinâmica produtiva, capaz de gerar novos sentidos políticos, novas formas de organização e aquilo que tenho chamado, na minha pesquisa, de verdadeiras tecnologias sociais de mobilização.
A palavra ideologia de gênero aparece como uma dessas tecnologias que ajudam a compor e reconfigurar sentidos de mundo, redefinindo quem são os aliados e quem são os inimigos, sobretudo dentro de lógicas dicotômicas que operam por meio de categorias morais como bem e mal, certo e errado, Deus e pecado.
É nesse quadro que podemos entender a chave interpretativa que venho desenvolvendo: uma passagem de uma lógica meramente reativa para uma lógica produtiva desses fenômenos. A partir daí, o que passa a se colocar como questão é entender se, para além dessas manifestações mais visíveis e ruidosas, como os ataques a Judith Butler ou as ações contra exposições e produções culturais, havia algo mais profundo em curso no país em termos dessas disputas.
IHU – Quando as eleições passam e essas controvérsias se arrefecem na esfera pública, o que permanece no cotidiano das pessoas, nas casas, nas escolas e nas dinâmicas ordinárias da vida social?
Lucas Bulgarelli – É a partir dessa pergunta que desenvolvo uma etnografia em municípios, inicialmente no interior de Santa Catarina e, posteriormente, no oeste do Paraná. A escolha desses locais se deu em função de conflitos observados nas câmaras de vereadores em torno da discussão sobre gênero nos planos de educação, bem como dos expressivos votos no então candidato Jair Bolsonaro. A partir desse contexto inicial, passo a acompanhar essas cidades com o objetivo de entender, sobretudo junto a profissionais da educação, como essas disputas se materializam no cotidiano escolar e nas relações sociais mais amplas.
É nesse processo de pesquisa que começo a perceber um dos principais efeitos produtivos dessa ofensiva: a criação do que proponho chamar de conceito alternativo de gênero. Ou seja, se em um primeiro momento é possível compreender essa produção discursiva, tanto a elaboração intelectual dos anos 1990 quanto sua difusão ao longo dos anos 2000 e 2010, em atos, discursos e mobilizações, como uma deturpação ou falsificação das teorias de gênero, aquilo que se torna evidente no trabalho de campo é algo mais complexo.
Se, inicialmente, poderíamos dizer que a ideologia de gênero operava como uma mentira, na medida em que distorcia o que os pesquisadores e militantes diziam sobre gênero, o que a pesquisa em campo revela é que essa "mentira", repetida ao longo do tempo, passa a produzir efeitos de verdade. Não uma verdade para quem analisa criticamente esse processo, mas uma verdade social para aqueles que passam a acessar o debate sobre gênero exclusivamente por meio da chave da "ideologia de gênero".
Para essas pessoas, que muitas vezes não tiveram contato com as formulações acadêmicas ou militantes do conceito de gênero, a ideologia de gênero passa a se tornar uma categoria real de interpretação do mundo. Nesse sentido, ela se incorpora legitimamente ao conjunto de preocupações familiares, especialmente no que diz respeito à educação dos filhos, sendo percebida como uma ameaça a ser gerida no espaço privado da família.
Esse processo se intensifica em um contexto mais amplo de privatização de responsabilidades sociais e de deslocamento do cuidado para o âmbito familiar, algo que se torna ainda mais evidente no período do governo Bolsonaro. Uma formulação emblemática desse movimento é a ideia de que cada família deveria cuidar de seus próprios idosos durante a pandemia de Covid-19.
É nesse contexto de convivência entre escolas e famílias que passa a ficar mais evidente como a "ideologia de gênero" se torna um mecanismo extremamente eficaz: ela não apenas produz um enquadramento interpretativo, mas também desloca e reorganiza percepções sobre violência e conflito social. Ao mesmo tempo que invisibiliza violências reais, como a violência sexual no ambiente doméstico e escolar, frequentemente dirigida a crianças e adolescentes, ela produz novos alvos de preocupação e responsabilização. Nesse sentido também, ela acaba operando como uma chave explicativa que redefine os termos do problema, criando novos responsáveis e reorganizando as formas pelas quais o gênero passa a ser percebido socialmente.
Foram inúmeros os episódios em que pude coletar relatos de violência contra crianças no ambiente escolar, ao mesmo tempo que professores relatavam já não poder abordar determinados temas ou encaminhá-los da forma como costumavam fazer. De maneira ainda mais decisiva, em uma das escolas que visitei, recebi um documento no qual o diretor explicava que os pais deveriam assiná-lo para autorizar qualquer discussão relacionada a gênero no ambiente escolar.
Esse material produz um efeito importante: ainda que o professor não esteja formalmente proibido de tratar de temas de gênero, ele também deixa de estar plenamente autorizado a fazê-lo. Ou seja, a gestão da educação passa a operar de um modo distinto. Ela já não se organiza apenas a partir de diretrizes nacionais, municipais ou da Base Nacional Comum Curricular, mas passa a depender, em muitos casos, da autorização das famílias para definir o que pode ou não ser discutido em cada escola específica. Há, portanto, um deslocamento importante na instância de decisão sobre o que é ensinado.
Essas transformações nos ajudam a chegar ao período atual. E aqui eu gostaria de usar esses antecedentes para sustentar o primeiro ponto da minha argumentação: as eleições de 2026 trazem, sim, uma novidade em relação às eleições de 2022, sobretudo no que diz respeito aos efeitos mais duradouros dessa produtividade de categorias como "ideologia de gênero" no país.
Penso esses efeitos em pelo menos três níveis. O primeiro é um nível mais macro, político-institucional e representativo. Como a professora Berenice já destacou de forma muito precisa, trata-se da produção de uma série de projetos de lei contra a participação de crianças em paradas do Orgulho, contra o uso de pronomes, contra o uso de banheiros por pessoas trans, entre outros exemplos. Essa produção legislativa constitui um primeiro legado importante, pois se aprende, nesse período, que não é necessário aprovar uma lei para produzir efeitos concretos de restrição de direitos. Basta propor o projeto, fazê-lo circular e transformá-lo em instrumento de visibilidade e capital político.
Nesse sentido, as câmaras legislativas municipais, estaduais e federais passam a operar também como espaços de ressonância de pautas que geram rendimento eleitoral individual para seus proponentes. Esse me parece um primeiro nível de análise.
De forma mais crítica, importa observar que o período posterior ao governo Bolsonaro não pode ser compreendido como uma ruptura completa com esse ciclo. É claro que há mudanças significativas, e não se trata de negá-las, mas quando olhamos, por exemplo, para o campo da educação, vemos uma transição que vai de uma ofensiva direta contra o ensino de gênero e sexualidade para uma espécie de paralisia ou contenção.
Não podemos falar, nesse momento, de um avanço estruturado de políticas de educação sexual ou de gênero por parte do MEC. Isso se deve, em parte, às disputas políticas em Brasília e à permanência de uma forte presença do bolsonarismo em diferentes espaços institucionais, especialmente no Legislativo.
Assim, não há uma transformação completa de orientação. Há uma mudança de governo e de diretrizes gerais, mas também uma série de resistências e disputas internas que atravessam a implementação dessas políticas. No Executivo, essas resistências se manifestam de forma mais difusa; no Legislativo, elas se tornam ainda mais intensas.
Por fim, além desse nível mais macro, observamos também efeitos mais duradouros em espaços participativos e institucionais do cotidiano político, como os conselhos de participação social. O mesmo ocorre com os Conselhos Tutelares, que têm se tornado cada vez mais arenas de disputa não apenas administrativa, mas também ideológica, envolvendo diferentes visões de mundo sobre infância, educação e direitos.
Mas, se nesse primeiro nível, mais representativo e ligado às disputas político-institucionais em escala macro, já observamos efeitos duradouros, há um segundo nível que me interessa destacar: o nível daqueles que "seguram a caneta na mão", como juízes e promotores, ou seja, profissionais que, a partir desse período, passam a operar com a percepção de que não precisam necessariamente seguir apenas o que a lei determina, podendo, em certos casos, substituí-la por outras referências normativas, como a religião ou a fé.
Aqui eu gostaria de destacar o caso de uma menina que teve seu pedido de aborto legal inicialmente negado pela Justiça e que mobilizou diretamente o Ministério dos Direitos Humanos no governo Bolsonaro, sob a gestão da ministra Damares Alves. Nesse episódio, também houve a atuação de profissionais tanto do campo do direito quanto da medicina que se viram autorizados, naquele contexto, a não seguir estritamente a legislação vigente, legitimando suas decisões a partir de convicções morais ou religiosas. Esse segundo nível é importante para compreendermos como essas transformações operam para além do plano estritamente legislativo.
Por fim, há um terceiro nível, que diz respeito à população em geral e à forma como essas ofensivas produziram efeitos mais amplos na subjetividade social. Trata-se de um nível em que se observam uma efetividade e uma produtividade que contribuíram para reconfigurar a forma como parcelas da população passam a compreender categorias como gênero, sexualidade e a própria sigla LGBTQIA+.
Esse é um efeito que não se dissolve facilmente em um curto período. E não sei se cabe a um governo, por si só, revertê-lo completamente, já que se trata de um fenômeno de caráter transnacional. Ainda assim, é importante reconhecer sua existência e permanência.
Para concluir esta primeira parte da minha fala, eu havia estruturado dois pontos. O primeiro diz respeito justamente a esse esforço de compreender o legado dessas ofensivas contra as lutas de gênero e sexualidade, um legado que precisamos encarar como um conjunto de efeitos duradouros e, em muitos sentidos, ainda em disputa.
Mas também é necessário, e serei mais breve aqui, reconhecer que as lutas de gênero e sexualidade avançaram de forma significativa nesse período. Esse é um ponto que a professora Berenice já desenvolveu de maneira muito mais precisa, especialmente ao destacar o deslocamento de sujeitos antes vistos como politicamente marginalizados para posições de disputa direta pelo poder institucional.
A pesquisadora mencionou, por exemplo, a presença de lideranças trans na política institucional. Podemos situar historicamente essas trajetórias, lembrando que já nos anos 1990 houve o caso pioneiro de Kátia Tapety, a primeira vereadora trans do país. No entanto, é sobretudo a partir da metade dos anos 2010 que observamos uma intensificação mais ampla desse fenômeno de representação política travesti, trans e LGBTQIA+.
Nesse processo, também se colocam novos desafios teóricos e políticos. Se, em um primeiro momento, a representatividade aparecia como eixo central dessas candidaturas, rapidamente se percebe que essa chave explicativa é insuficiente para dar conta da complexidade do fenômeno. A defesa de que é importante eleger mulheres, pessoas negras e pessoas LGBTQIA+ continua sendo fundamental, sobretudo diante de um Congresso ainda majoritariamente oposto a essas representações. Mas, ao mesmo tempo, surgem novas perguntas: quem são essas mulheres? Quem são essas pessoas negras? Quem são essas pessoas LGBTQIA+ que estão sendo eleitas?
Seriam elas figuras como Damares Alves, Sérgio Camargo ou Douglas Garcia, para citar casos que tensionam essa própria noção de representação? Ou seja, o próprio limite da categoria "representatividade" passa a ser colocado em questão. E o que temos observado desde então, incluindo minha experiência de acompanhamento dessas candidaturas ainda no mestrado, como no caso de Erika Hilton e Amara Moira, é uma transformação importante no perfil dessas atuações políticas.
Há também um deslocamento relevante: essas não são mais candidaturas ou mandatos restritos a pautas identitárias. Ao contrário, há uma ampliação do escopo de atuação desses gabinetes. E considero especialmente significativo o fato de que, em um governo liderado por um presidente de origem sindical, tenha sido uma deputada travesti quem protagonizou uma das mais importantes vitórias trabalhistas recentes no Legislativo.
Então, essa transformação também passa por esse processo. As disputas tendem a se intensificar ainda mais. Se, há dez anos, era pouco provável imaginar uma deputada trans, hoje já estamos discutindo a possibilidade de uma presidente trans. É natural que isso amplie ainda mais essas disputas.
Quero encerrar destacando uma transformação que me parece importante. Dados recentes, coletados durante a Parada do Orgulho LGBTQIA+ realizada há duas semanas em São Paulo, mostram que 93% das pessoas participantes afirmaram ter a intenção de votar em um parlamentar LGBTQIA+. Há dez anos, em 2017, esse percentual era de 54%.
Há, portanto, um avanço importante também no fortalecimento dessa consciência política. Ao mesmo tempo, acredito que falar de avanços de forma linear, em qualquer um dos campos, é algo bastante ambivalente. Na minha visão, essa ambivalência é uma característica do nosso tempo: de um lado, observamos o crescimento da ofensiva contra os nossos direitos; de outro, vemos o fortalecimento das nossas capacidades coletivas, enquanto movimento social, militantes LGBTQIA+ e pesquisadores de gênero e sexualidade, para enfrentar esse cenário e resistir a esses ataques.
IHU – De onde vem esse medo de perder espaço para uma pessoa LGBTQIA+? É uma herança socioafetiva, identitária de uma burguesia patriarcal?
Berenice Bento – Porque esta pessoa LGBTQIA+ é muito boa e muito competente. Aparentemente, essa é uma pergunta de criança. Por quê? Por que isso? Considerando que a população trans é menos de 1% da população brasileira e sobre a população LGBTQIA+, talvez eu não tenha esse dado.
A heterossexualidade é um regime de poder. A cisgeneridade é um regime de poder, de produção de corpos, de produção de desejos. Imagine o poder que um pai e uma mãe têm na produção de um sujeito no mundo.
Tendo uma compreensão do que é o poder, algo como o Estado, o Executivo, o Exército, sem dúvida, é poder também. Mas o poder mesmo é aquele que faz sujeitos, aquele que produz sujeitos no mundo. Aquilo que, quando anuncia alguma coisa, é verdade.
O que é o poder? É a capacidade de dizer o que é verdade. Então, um pai e uma mãe que diz para uma criança: "Meu filho, está vendo aquela pessoa ali, aquela coisa? Aquilo lá, se você ficar daquele jeito, eu prefiro que você morra a ter um filho como aquele". Ou também: "Minha filha, você está vendo aquilo lá, aquele sapatão nojento? Aquilo é doença. Se você chegar a ficar daquele jeito, eu prefiro que você morra".
Tenho um artigo de muitos anos, que eu chamo do heteroterrorismo, de como que isso vai formando um verdadeiro terror na cabeça da criança. Por isso que não tem como falarmos que sexualidade e gênero é da natureza porque temos todas as estruturas sociais e instituições que atuam nesse processo. Depois, a própria escola continua o trabalho de produção de seres heteronormativos, produzidos na esfera da cisgeneridade, que começou na escola e na família.
Toda a estrutura do Estado é organizada em função de uma suposta heterossexualidade natural dos corpos, a população. O que é a população? É formada por homens e mulheres. Então, há a ideia de uma inteligibilidade a partir da ideia de uma complementaridade natural.
É um sistema muito organizado. Quando falamos do medo, é a questão de relações de poder. Não temos como pensar a história da modernidade sem fazer referência à heterossexualidade e sem falar da cisgeneridade. Falamos muito do modo de produção, da classe social, mas a produção de um sujeito que se pensa como naturalmente heterossexual e cisgênero, é uma das alterações mais sofisticadas dos aparelhos de Estado. Penso não só nesse lado do Estado, mas na esfera mais micro também, que é dali que se tem a eficiência máxima.
É uma mãe e um pai repetindo para você, tanto que você esquece isso. Isso fica em outro registro que você não lembra. É a eficácia. Produziu como sujeito no mundo. E esse que é o drama quando alguém diz que tem alguma coisa errada comigo porque estou desejando mulheres. Tem alguma coisa muito errada comigo porque não me identifico nesse corpo. Ora, a vida inteira todo mundo diz que o fato de ter um pênis ou ter uma vagina seria suficiente para me produzir sentidos existenciais. Isso é uma mentira. Então, acho que podemos ver essa questão pela chave das relações de poder. Não esse poder externo, mas o poder que produz sujeito, que subjetiva os sujeitos, é aí que conseguimos entender o que está em disputa.
IHU – Como podemos vincular a luta da população LGBTQIAPN+ com a dos trabalhadores? Como explicar, no discurso político, que essa população também trabalha e ocupa diversos espaços socioeconômicos?
Berenice Bento – Não entendo exatamente como se construiu uma dicotomia entre identidade (portanto gênero, raça, sexualidade) de um lado e, do outro, classe social. Acontece que a classe social, os trabalhadores, eles têm sexualidade. Eles têm gênero. Esse processo, que contei antes da produção do sujeito no mundo, é para todos. Da classe trabalhadora à elite econômica, eles foram produzidos por uma determinada matriz de inteligibilidade, um processo de produção de sujeitos no mundo. Então, acho que vamos rever isso um dia com calma.
O tempo vai trabalhar para isso. Mas uma das coisas mais idiotas que já se produziu na academia é a do identitarismo. O que é isso? Pode me explicar? Ora, se posso morrer e ir ao espaço público e ser assassinada porque eu sou trans, não vou fazer luta política em torno do reconhecimento da minha existência? E se vou para o mundo público, organizo sujeitos coletivos em torno dessa questão dos direitos humanos das pessoas trans, passo a ser identitária?
A questão do identitarismo é aquela pessoa que essencializa. Gente, isso é uma loucura, porque não vejo os movimentos trans essencializando nada. Não vejo a Erika fazendo isso.
Por exemplo, quando pensamos em relação à Duda Salabert, ao lermos seus projetos de lei ou acompanharmos seus pronunciamentos, estamos ouvindo e observando a atuação daquela parlamentar. No entanto, é evidente que a questão do corpo, assim como a questão racial, também precisa ser considerada.
Como não pautar a questão racial em um país que, durante cerca de 400 anos de sua história, estruturou-se a partir de uma dicotomia ontológica entre pessoas e não pessoas fundamentada na raça? Como não trazer esse debate para o campo político? Como não politizar a questão racial? Não conheço nenhum movimento negro, ou qualquer outro movimento social, que afirme que essa é a única questão a ser enfrentada.
Então, essa questão do identitarismo é uma imensa bobagem, porque isso não irá interromper a luta das pessoas que lutam pelo direito de viver. Uma mulher pode ser morta porque ela é mulher. Um homem cis não é assassinado porque ele é homem. Então, como é que não vamos produzir movimentos sociais em torno disso? É uma coisa, não sei como chegamos a esse ponto de desqualificar.
Se não me engano, foi a própria Angela Davis que falou assim: "mas acontece que a maior parte das mulheres, das pessoas trans vivem na periferia, são pobres. Inclusive elas querem se tornar classe trabalhadora. A grande luta das pessoas trans é para entrar no mercado de trabalho".
Só que essa existência fora da cisgeneridade faz com que ela não vá para a escola, porque ela é expulsa da escola, é expulsa de casa e é expulsa do mercado formal. Mas não vamos falar da questão trans porque vamos essencializar e transformar isso em questão de prioridade.
IHU – A comunidade trans revela que o Estado está cada vez mais distante de garantir os direitos humanos e sociais da sua população. Como resolver a violência capitalista autoritária do Estado brasileiro?
Lucas Bulgarelli – A violência contra a população trans ocorre justamente no sentido do apagamento de suas identidades e, consequentemente, das formas públicas de existência dessas pessoas. É muito significativo que esses episódios de violência e assassinatos apresentem uma característica recorrente: a inscrição da violência no próprio corpo da vítima. Não são poucos os casos de assassinatos acompanhados de torturas que envolvem até mesmo a retirada de órgãos, como o coração, ou a desfiguração do rosto.
Não se trata apenas de tirar a vida de uma pessoa. Trata-se também de fazer com que, por meio dessa morte, sejam eliminadas simbolicamente as formas de existência da população trans como um todo. Sem dúvida, essa é uma violência que, no Brasil, alcança um patamar endêmico.
Costumamos dizer que o Brasil é o país que mais mata pessoas trans no mundo. Essa afirmação se baseia nos dados produzidos pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), que anualmente reporta os casos de assassinatos de pessoas trans à organização Trans Europe and Central Asia (TGEU), responsável pelo monitoramento global desses dados.
No Brasil, essa série histórica vem sendo produzida há mais de doze anos. Durante esse período, o país aparece em primeiro lugar no ranking mundial. Os Estados Unidos ocupam a segunda posição, registrando cerca da metade do número de assassinatos reportados pelo Brasil. Ainda assim, esses números refletem um cenário de subnotificação.
Sabemos que os dados da ANTRA são coletados principalmente a partir de casos divulgados pelos veículos de comunicação, além da própria rede de contatos e da atuação do movimento social. Ou seja, não existe uma quantificação oficial desses assassinatos nem uma padronização dos registros de óbito que permitam identificar adequadamente esses casos.
Acredito que, se quisermos pensar em uma inclusão verdadeira e efetiva da população trans como sujeitos de direitos, dentro da estrutura de um Estado capitalista e liberal, é necessário reconhecer o valor dessas vidas. Entretanto, esse reconhecimento tem sido cada vez mais tensionado pelas ofensivas dirigidas contra os direitos e a militância da população trans.
Encerro com uma provocação. Essas ofensivas não podem ser descritas apenas como ações da direita ou de setores conservadores. Infelizmente, temos assistido a uma situação triste e lamentável em que determinados segmentos do campo progressista, da esquerda e até mesmo de alguns feminismos, ou, como prefiro chamar, de ativismos trans excludentes, isto é, ativismos contrários às pessoas trans, também têm contribuído para esse cenário.
Esses grupos não se situam no campo conservador, da extrema-direita ou do ultraliberalismo. Pelo contrário, pertencem a espaços que, em princípio, deveriam defender a população trans e outros grupos submetidos à violência sistemática. Sob o manto da crítica ao chamado identitarismo, estes grupos acabam produzindo distinções artificiais, dicotomias inexistentes e construindo opositores equivocados, desviando o foco dos verdadeiros agentes das desigualdades e da violência.
IHU – Como você analisa o avanço da extrema-direita na América Latina e o que isso significa para as nossas eleições?
Lucas Bulgarelli – Essa é uma pergunta que, na minha opinião, renderia um novo evento apenas para discutirmos esse tema. Mas, sem dúvida, entre todas as questões que poderíamos abordar, eu destacaria uma, sobretudo no contexto eleitoral: a capacidade organizacional das extremas-direitas latino-americanas de produzir consensos e de compartilhar tecnologias políticas entre diferentes realidades nacionais e locais.
Existe uma troca de aprendizados entre setores da extrema-direita e de grupos conservadores que é muito mais intensa, mais bem financiada e mais disseminada do que aquela que, ao menos do ponto de vista de parte dos defensores dos direitos humanos e da democracia, gostaríamos de ver.
Acho que isso se expressa de maneira muito evidente também no Brasil. Quando observamos, por exemplo, os projetos de lei voltados contra a população trans e a população LGBTQIA+, percebemos que eles são, em grande medida, idênticos. Convido a todos a consultarem as bases de monitoramento legislativo, como a da organização Diadorim, que acompanha projetos de lei favoráveis e contrários aos direitos da população LGBTQIA+. É possível observar com bastante clareza que muitas dessas propostas reproduzem praticamente o mesmo conteúdo.
Essa semelhança não ocorre apenas entre projetos apresentados nas esferas nacional, estadual e municipal. Também é possível identificar, em diferentes países da América Latina, projetos que utilizam, por vezes, o mesmo texto, o mesmo enquadramento do fenômeno e as mesmas ênfases em temas como banheiros, esportes e pronomes. Isso nos leva a refletir, e as pesquisas também apontam nessa direção, que existe uma conexão profunda entre esses grupos. Há uma circulação de estratégias políticas e de tecnologias sociais bastante intensa no campo das extremas-direitas.
Para concluir, acredito que, no próximo período, veremos um cenário diferente daquele observado nos primeiros governos de extrema-direita. Não estou falando especificamente do Brasil — evidentemente, cada contexto possui sua própria dinâmica —, mas do que já temos acompanhado em países como os Estados Unidos e em diferentes nações da América Latina.
Se houve um primeiro momento marcado pela chegada da extrema-direita ao poder, não apenas na América Latina, mas também em partes da Europa, da Europa Oriental, do continente africano e do Leste Asiático, o que observamos agora é um novo ciclo, no qual governos de extrema-direita chegam ao poder já contando com maior experiência na gestão do Estado.
Isso modifica, em certa medida, a forma como esses governos atuam, tornando-os mais eficazes na implementação de seus projetos políticos. Para aqueles que compreendem esse processo como um risco de desmantelamento das instituições democráticas, trata-se de um cenário que merece atenção e acompanhamento.
IHU – Há uma produção substancial de dados sobre a população LGBTQIA+, como a dimensão informacional também entra como elemento essencial para a luta dessa comunidade, especialmente como contraponto às redes sociais? O fenômeno do Shadowban, ocultação de perfis contrários à ideologia dos criadores das redes sociais, nos provoca a pensar em infraestruturas digitais mais autônomas e democráticas?
Lucas Bulgarelli – De modo mais simplificado, é possível dizer que sim e que não, que temos e que não temos dados da população LGBTQIA+. Eles existem na medida em que os movimentos sociais, nos últimos 40 anos, fizeram uma produção intensa de dados sobre a população LGBTQIA+ no Brasil. Esses dados, num primeiro momento, se concentravam em evidenciar as violências e as discriminações que a população LGBTQIA+ passava.
Então, é notório na história do nosso movimento social, o Grupo Gay da Bahia (GGB), quem vai fazer a primeira produção de dados estatísticos sobre a população LGBTQIA+ por meio da contabilização de mortes de pessoas LGBTs. Depois, essa tradição vai seguir para outras organizações, como a ANTRA, que fará com a população trans.
É uma produção feita pelo movimento social e pela sociedade civil organizada. Essa produção foi feita justamente no vácuo de uma produção oficial ou, como prefiro dizer, estatal sobre essa realidade. Uma pesquisa que não se deu, e até hoje não se dá, nos censos e nas pesquisas demográficas.
Tal produção de dados começou com o surgimento da epidemia de HIV/Aids. É uma contabilização da população que vem a contrapelo daquilo que os movimentos sociais buscavam naquele período defender, que era a cidadania da população LGBTQIA+. Era uma época de retomada da democracia, no pós-ditadura.
Lutávamos pela cidadanização da população LGBTQIA+, para a população poder acessar direitos. Para poder acessar esses direitos, precisávamos produzir dados e poder convencer os parlamentares a voltarem suas atenções para a tutela desses direitos. Era essa jogada de uma democracia recém-reconstruída, em que precisávamos convencer os setores políticos de que essas violências não eram ocasionais, que eram violências sistêmicas e que ocorriam contra uma população, e os dados foram muito úteis para esse convencimento mais técnico dessa linguagem do Estado.