Um milhão de pessoas, 27 milhões de euros e 7 vítimas de abusos: a visita de Leão XIV à França

Foto: Wikimedia Commons | Sergio López Prieto

Mais Lidos

  • Primeiro catador de materiais recicláveis conhecido no mundo a defender uma tese de doutorado é do RS

    LER MAIS
  • Pesquisador de Anthropic renuncia ao cargo e alerta para os perigos da IA: "Ela pode nos matar antes de 2030"

    LER MAIS
  • O autor da história oral dos ataques,

    “Os efeitos dominó do 11 de Setembro explicam o mundo de hoje”. Entrevista com Garrett Graff

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

11 Setembro 2026

A visita do Papa Leão XIV à França, de 25 a 28 de setembro, deverá reunir cerca de um milhão de pessoas e custar à Igreja francesa cerca de 27 milhões de euros. Entre os momentos considerados mais significativos estão o encontro do Papa com sete vítimas de abusos sexuais, a vigília com cerca de 80 mil jovens em Saint-Denis e a passagem por Metz, onde deverá dirigir uma mensagem à Europa sobre paz e unidade.

A reportagem é de Clara Raimundo, publicada por 7Margens, 09-09-2026.

Os novos detalhes da viagem apostólica foram apresentados nesta terça-feira, 8 de setembro, pelo cardeal Jean-Marc Aveline, presidente da Conferência Episcopal Francesa, e por outros responsáveis pela organização da visita, durante uma entrevista coletiva no Vaticano. A viagem será a primeira visita oficial de Estado de um Papa à França em 18 anos e deverá mobilizar pessoas não apenas do país, mas também de vários países europeus vizinhos.

Aveline revelou que a visita começou por ser considerada para 2027 ou 2028, mas uma alteração na agenda pontifícia abriu uma janela para setembro deste ano. "Era um desafio enorme: apenas quatro meses para preparar tudo", explicou o cardeal francês.

Quanto ao lema escolhido para a viagem, "Para que o mundo tenha vida", uma expressão inspirada no Evangelho de João, o prelado rejeitou uma interpretação diretamente política do lema, especialmente como referência ao debate francês sobre o suicídio assistido, mas afirmou que a expressão pretende colocar no centro a "dignidade da vida humana".

Segundo o presidente dos bispos franceses, essa preocupação está relacionada com a mensagem da encíclica Magnifica Humanitas, na qual Leão XIV aborda a dignidade da pessoa em diferentes situações em que esta pode ser ameaçada. "A defesa da dignidade da vida humana está no centro da mensagem do Papa Leão", sublinhou.

Números que impressionam

A organização estima que cerca de um milhão de pessoas participem dos diferentes momentos da visita. Só em Paris, até 150 mil pessoas poderão se concentrar para acompanhar a passagem do Papa em papamóvel, enquanto pelo menos 500 mil são esperadas nas imediações dos Campos Elísios e do Arco do Triunfo para a missa ao ar livre na Place de la Concorde.

A missa será transmitida em 42 telas gigantes instaladas ao longo dos Campos Elísios.

O aumento do número de participantes previstos teve consequências no orçamento. De acordo com o jornal La Croix, a visita deverá custar cerca de 27 milhões de euros à Igreja francesa, valor superior às estimativas iniciais e aos cerca de 5,5 milhões de euros arrecadados por meio da campanha de financiamento lançada pela Conferência Episcopal Francesa. O Estado francês participará sobretudo por meio dos serviços de segurança e de outros serviços públicos necessários à organização.

A escolha de locais emblemáticos de Paris para acolher os diferentes momentos, como a Place de la Concorde e os Campos Elísios, gerou algumas críticas de setores mais rigorosos na defesa da laïcité. Aveline lembrou, contudo, que a República francesa é laica, mas garante às diferentes confissões a possibilidade de expressar publicamente sua fé, desde que cumpridos os procedimentos de autorização previstos.

Um encontro pessoal com as vítimas

Um dos momentos mais reservados da viagem acontecerá em Lourdes, onde Leão XIV se encontrará com sete vítimas de abusos sexuais cometidos no seio da Igreja Católica.

O encontro deverá durar cerca de uma hora e foi concebido para permitir uma conversa pessoal com o Papa. Os sete participantes foram escolhidos pela Conferência Episcopal Francesa e pela Conferência dos Religiosos e Religiosas da França, depois de contatos com cerca de 40 pessoas e organizações.

O grupo inclui homens e mulheres vítimas de abusos em diferentes contextos, incluindo ambientes escolares e paroquiais. A escolha de um número reduzido de pessoas provocou alguma frustração entre outros contatados, mas os responsáveis pela organização a justificaram pela intenção de garantir um verdadeiro encontro interpessoal.

As pessoas que não participarão presencialmente foram convidadas a enviar ao Papa testemunhos escritos por meio do Serviço de Proteção de Menores.

O bispo Pierre-Antoine Bozo, porta-voz dos bispos franceses, fez questão de compartilhar que Leão XIV manifestou desde o início o desejo de se encontrar com vítimas de abusos. A Igreja, acrescentou, deve continuar a cuidar das vítimas e a reforçar a prevenção, para que possa ser "a casa segura que desejamos".

Peregrino entre os peregrinos 

Em Lourdes, o Papa será apresentado sobretudo como peregrino. Depois de chegar, deverá dirigir-se à Gruta de Massabielle, onde Bernadette Soubirous relatou ter visto 18 aparições da Virgem Maria em 1858. Ali, fará como a maioria dos peregrinos: tocará a rocha, beberá água, acenderá uma vela e rezará em silêncio, antes de presidir à procissão das velas e celebrar missa.

As autoridades locais esperam dificuldades logísticas devido às características da cidade, situada numa zona montanhosa e limitada pelo rio junto à gruta. Cerca de 50 mil pessoas são esperadas já durante o fim de semana anterior, prevendo-se um número superior durante a presença do Papa.

80 mil jovens no Stade de France

Outro dos grandes momentos desta viagem será a vigília com jovens no Stade de France, em Saint-Denis. Segundo o bispo Etienne Guillet, responsável pela diocese onde se situa o estádio, quase 80 mil jovens de todo o país já se inscreveram.

A iniciativa terá uma dimensão inter-religiosa: os jovens participantes convidaram amigos judeus, muçulmanos, sikhs, budistas e hindus. Nas arquibancadas estarão também doentes, jovens em situações de vulnerabilidade social, estudantes de escolas católicas e jovens provenientes de meios menos religiosos.

Cerca de 30 artistas de um circo itinerante, cristãos e não cristãos, participarão igualmente do encontro.

No programa parisiense estão ainda previstos encontros com migrantes na Maison Bakhita, um centro de apoio e integração social, e com pessoas recentemente batizadas.

De Metz, uma mensagem para a Europa

A última etapa da viagem será Metz, no nordeste da França, junto às fronteiras com Luxemburgo, Bélgica e Alemanha. A escolha dessa cidade pretende dar à visita uma dimensão europeia e internacional.

Leão XIV deverá pronunciar ali uma intervenção sobre as raízes da Europa, a paz e a unidade, num centro de conferências com o nome de Robert Schuman, um dos pais fundadores da integração europeia e católico declarado venerável pela Igreja em 2021.

O Papa deverá ainda se deslocar em papamóvel pelas ruas de Metz até a catedral de Saint-Étienne e encontrar representantes de diferentes religiões. Para os bispos franceses, não restam dúvidas de que o diálogo entre religiões pode contribuir para a construção da paz.

A referência a Schuman pretende também recuperar a ideia de reconciliação entre povos europeus. "Quando um Papa visita um país, sua visita não diz respeito apenas àquele país, mas pode oferecer algo à Igreja universal", defendeu Aveline. A expectativa dos bispos é que as palavras de Leão XIV possam constituir "linhas-guia" para a França, a Europa e o mundo.

A viagem à França será a quarta viagem internacional de Leão XIV em 2026, depois da visita a Mônaco, em março, da viagem a quatro países africanos, em abril, e da passagem pela Espanha e pelas Canárias, em junho. Em novembro, o Papa deverá realizar sua primeira viagem à América Latina, com visitas ao Uruguai, à Argentina e ao Peru.

Leia mais