Bispos brasileiros “sem rosto”, mas lúcidos, contra a manipulação das eleições presidenciais

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29 Agosto 2026

"Contra a avalanche de mentiras e disseminação de ódios pelas avenidas digitais", há que "fazer uma escolha consciente e lúcida".

A reportagem é de Mário Robalo, publicada por 7Margens, 26-08-2026.

Um coletivo de bispos católicos do Brasil fez chegar, no último domingo, dia 23, ao jornal Folha de S. Paulo, um documento intitulado "Não deixemos cair a profecia", no qual, a propósito da campanha eleitoral para a presidência da República, defendem um pacto "pela democracia, pela soberania e pela defesa da casa comum", a exemplo do que já haviam proposto em 2022 num documento idêntico, por ocasião das últimas eleições disputadas entre o então presidente da República Jair Bolsonaro e o então candidato Lula da Silva.

Denominado "Bispos do Diálogo pelo Reino", o grupo que não se identifica sublinha, porém, sua consonância com o magistério de Leão XIV e as orientações da Conferência Nacional dos Bispos Brasileiros (CNBB). E por isso, no início de seu manifesto, reafirmam o que consideram fundamental nas "diretrizes gerais" da assembleia da CNBB para 2026-2032: "Sabendo que evangelizar é tornar o reino de Deus presente no mundo", consideram imprescindível "a ação sociotransformadora da sociedade".

"Esperança cristã não é ingenuidade…"

Entretanto, o jornal Valor Econômico, da cidade de São Paulo, noticiou que um dos autores do manifesto afirmou, sob anonimato, que a não identificação dos bispos se deve apenas a evitar "partidarização do debate".

E se, de fato, no documento agora divulgado não é feita qualquer menção direta a nenhum dos candidatos, no texto escrito em 2022, entre o primeiro turno, em 2 de outubro (Lula da Silva com 48,43% e Jair Bolsonaro com 43,20%), e o segundo turno, em 24 daquele mês, os "Bispos do Diálogo pelo Reino" não se eximiram, então, de evocar os mandamentos da Igreja para lembrar que "o chefe do governo [Bolsonaro] e seus apoiadores, principalmente políticos e religiosos, abusaram do nome de Deus para legitimar seus atos e ainda o usam para fins eleitorais". E prosseguiam: "Enquanto dizia 'Deus acima de tudo', o presidente ofendia as mulheres (…) além de não demonstrar compaixão alguma com as quase 700 mil vidas perdidas para a covid-19 e com os 33 milhões de pessoas famintas em seu país".

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Recorde-se que a própria CNBB, em sua mensagem "ao povo brasileiro" a propósito das próximas eleições de 4 de outubro, também não deixa de anotar um conjunto de situações disruptivas na sociedade brasileira, como a compra de votos e "a utilização indevida de recursos públicos e a disseminação deliberada de mentiras (fake news)", ou ainda "o abuso do poder econômico e político e as formas de violência que ameaçam a convivência social".

Se não é difícil entender o "recado" do episcopado, suas mensagens não deixam de assinalar, em todo o processo eleitoral, "o respeito às instituições da República", seja no que se refere "à liberdade de expressão responsável", seja na "confiança" que é necessário ter "nos mecanismos legítimos de apuração da vontade popular".

Diante dessa realidade, a CNBB incentiva cada crente "a proteger a democracia e a trabalhar pela justiça", porque "a esperança cristã não é ingenuidade nem otimismo superficial".

"Conservadorismo autoritário…"

Concordam os "Bispos do Diálogo pelo Reino", demonstrando apreço "por tantas lideranças e comunidades eclesiais" que, em "contexto de grave crise social e ecológica", denunciam "estruturas opressoras".

Mas é no final que o manifesto, divulgado ontem pelo Instituto Humanitas Unisinos, no dia 24, se dirige ao interior da Igreja, lamentando o "conservadorismo autoritário" que se faz sentir em "alguns meios de comunicação de inspiração católica, incluindo alguns membros dos ministérios ordenados", que promovem "discursos superficiais e violentos" contra aqueles que "testemunham a fé no meio dos pobres, na defesa da democracia…".

Assim, diante "dos desafios da realidade atual" e do momento eleitoral que se aproxima, os "Bispos do Diálogo pelo Reino" reiteram a urgência de "muita coragem" por parte "de todos nós, cristãos", de modo a gerar um projeto de país que não pactue com a grave injustiça social que sempre nos acompanhou.

Porque "contra a avalanche de mentiras e disseminação de ódios pelas avenidas digitais", há que "fazer uma escolha consciente e lúcida".

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