Um novo massacre no Haiti deixa pelo menos 47 mortos, 22 executados em uma igreja

Foto: davide ragusa/Unplash

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26 Agosto 2026

A ONU eleva o número de vítimas de violência na ilha para mais de 3 mil até o momento em 2026.

A informação é de Carlos S. Maldonado, publicada por El País, 26-08-2026.

A violência infernal que assola o Haiti tomou um rumo ainda mais sangrento na madrugada de segunda-feira, quando um massacre perpetrado por gangues que disputam o controle da capital, Porto Príncipe, deixou pelo menos 47 mortos, segundo um relatório das Nações Unidas divulgado na terça-feira. A organização informou que 22 das vítimas foram executadas dentro de uma igreja onde haviam buscado refúgio. “Os ataques implacáveis ​​de gangues contra as comunidades e a perda de vidas evidenciam a alarmante situação de segurança e reforçam a necessidade urgente de intensificar os esforços para combater as gangues”, alertou o secretário-geral da ONU, António Guterres.

Os eventos ocorreram na comuna de Kenscoff, nos arredores da capital. O massacre foi perpetrado por membros da Viv Ansanm, a poderosa coalizão de gangues criminosas que controla grande parte da região metropolitana. Os grupos armados invadiram a área, incendiando dezenas de casas e atirando indiscriminadamente contra a população civil.

A magnitude do ataque provocou protestos imediatos da comunidade. Centenas de moradores se reuniram em frente à delegacia de polícia local em Kenscoff para protestar contra a falta de proteção do Estado e exigir ação direta da Polícia Nacional Haitiana (PNH), após denunciarem mais de 20 meses sem respostas concretas ao avanço do crime organizado, segundo a agência EFE. Diante da crescente pressão pública, o Diretor-Geral da PNH, Jonas André Vladimir Paraison, e o Comissário do Governo, Fritz Patterson Dorval, foram até o local. “Diante dessa espiral de violência, não podemos nos acostumar com o horror nem permanecer indiferentes”, declarou Privert.

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Um país em colapso humanitário

O ataque em Kenscoff reflete o colapso da segurança no país caribenho. Segundo os dados mais recentes da ONU, a violência de gangues armadas causou pelo menos 3.050 mortes e 1.401 feridos nos primeiros seis meses do ano. Essa situação é agravada pela extrema vulnerabilidade de grupos desprotegidos: somente nos primeiros quatro meses, foram registrados quase cem sequestros, enquanto cerca de 700 pessoas — em sua maioria mulheres e meninas — sofreram episódios de violência sexual. A crise de segurança, por sua vez, está alimentando uma catástrofe humanitária sem precedentes. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) alertou que mais de seis milhões de haitianos precisam de ajuda humanitária urgente em um país de 12 milhões de habitantes, enquanto o número de deslocados internos ultrapassa 1,4 milhão. “A população está à beira do colapso”, disse Marisela Silva Chau, chefe da delegação do CICV no Haiti, a este jornal.

A crise de violência em curso está afetando as organizações humanitárias que ainda atuam no país caribenho. Médicos Sem Fronteiras (MSF) foi forçado a suspender suas operações no Hospital Maternidade Isaïe Jeanty de Chancerelles, na comunidade de Cité Soleil, em Porto Príncipe, no início de agosto, devido à retomada dos confrontos entre grupos armados na região. Segundo a organização, essa foi a segunda suspensão em menos de dois meses. O MSF retomou as operações no hospital maternidade em 18 de agosto, em colaboração com o Ministério da Saúde Pública e População. “Evacuar é sempre uma decisão difícil, pois sabemos o quão críticas são as necessidades de saúde sexual e reprodutiva em Cité Soleil”, explicou Diana Manilla Arroyo, chefe da missão do MSF no Haiti. “Mas continuar nessas condições teria colocado pacientes e funcionários em risco”, acrescentou.

O sistema de saúde haitiano sofreu um colapso quase total: apenas 30% das unidades de saúde em todo o país permanecem operacionais. Os 70% restantes cessaram suas atividades entre 2020 e 2026 devido à completa falta de garantias de segurança para funcionários e pacientes. Além disso, massacres se tornaram um pesadelo diário. Um relatório da ONU divulgado este mês alertou que, entre março e julho, pelo menos 613 pessoas foram mortas e outras 375 ficaram feridas. “Noventa por cento dos mortos e feridos foram documentados em incidentes de violência de gangues; quase 9%, durante operações das forças de segurança; e 1%, como resultado de atos de violência coletiva contra pessoas suspeitas de ligação com gangues”, afirma o documento preparado pelo Serviço de Direitos Humanos do Escritório Integrado das Nações Unidas no Haiti (BINUH).

“O ataque mais recente em Kenscoff é mais um exemplo de como as gangues recorrem a massacres em larga escala de civis para subjugar a população local e impor sua autoridade”, explica María Fernanda Arocha, analista para o México, América Central e Caribe do ACLED (Armed Conflict Location & Event Data), um observatório que coleta e analisa dados sobre conflitos. “A incursão também serve como um forte lembrete dos desafios que o governo enfrenta para consolidar os resultados das operações contra as gangues”, acrescenta.

O analista recomenda a “necessidade urgente” de mobilizar todos os 5.500 soldados previstos para a Força de Supressão de Gangues apoiada pela ONU, dos quais apenas cerca de 1 mil foram mobilizados até o momento. “Consolidar a presença das forças de segurança em todo o território, especialmente em áreas ameaçadas por gangues, é uma tarefa que as autoridades devem abordar para garantir condições mínimas de segurança, caso pretendam realizar eleições em dezembro de 2026”, afirma Arocha.

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