“Reesperançar” a política: entre o sonho e a utopia. Artigo de Leo Geovane Pereira de Meira

Foto: Geraldo Magela/Agência Senado | Flickr

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26 Agosto 2026

"Pensar que a boa política pode ser realidade e não utopia, que é possível reencanta-la reesperança-la, e que isso passa pelas nossas consciências e nossas mãos, pode nos ajudar a superar, nesse imenso Brasil, os muros que nos dividem e construir novamente as pontes que fazem do nosso chão espaços de vida plena para todos e não apenas para alguns. Que o sonho da boa política permeie nosso contexto eleitoral, mas que não se finde nele", escreve Leo Geovane Pereira de Meira.

Leo Geovane Pereira de Meira é graduado em História pela Universidade Estadual do Centro Oeste do Paraná – Unicentro, pós-graduado em Ciências Políticas pelo Centro Universitário Focus. Foi membro da Articulação nacional do Movimento Eucarístico Jovem – MEJ Brasil. Atualmente é candidato ao Noviciado da Companhia de Jesus.

Eis o artigo.

Nos aproximamos, novamente, das eleições para cargos políticos, desta vez nas esferas federal, estadual e distrital. Como de costume, as eleições são precedidas por diversos processos que vão desde as filiações partidárias e convenções para escolha dos candidatos até o período de propaganda eleitoral, no qual se intensificam os debates, não apenas em torno das figuras que se lançam para concorrer ao pleito, mas sobre a política de modo geral.

Quando ouvimos essa palavra, quase que imediata e automaticamente, associamos a pessoas, partidos e espectros, como direita e esquerda, como se a política se resumisse apenas a isso. Na era dos avanços da tecnologia, essa limitação da informação parece ganhar ainda mais força, o que chega a ser contraditório, visto que as mesmas ferramentas poderiam favorecer e ampliar o conhecimento sobre o assunto, porém, não é isso que os grandes dominadores das mídias desejam e o que vemos é uma onda de desinformação, fake News e um convite cada dia maior ao afastamento da vida política, com uma motivação de que basta ter o seu partido, o seu candidato, defende-lo com garra, votar nele e esquecer-se de todo o restante. Mas, afinal de contas, será que a política é só isso ou limita-se apenas às eleições ou a política partidária?

Para responder essas questões, precisamos nos perguntar (quantas vezes forem necessárias), o que é a política?

Aristóteles, no século IV, ao escrever uma das suas principais obras, intitulada A Política, nos ajuda a compreender o seu sentido e significado mais profundo. Sua origem está, inclusive etimologicamente, na pólis (cidade) da Grécia Antiga, e, em síntese, se referia a tudo o que envolvia a vida da cidade e do homem nela – ou seja, a vida em sociedade. Para Aristóteles, o homem era um animal político, distinguido de todos os outros animais pela razão e pelo dom da fala, e por isso, naturalmente, lhe era necessário conviver em sociedade. A partir disso, derivam duas questões: uma vez que a política se refere à vida da sociedade, nas cidades, é necessário que, se viva bem se aplique o bem supremo (aquele que “agrada” a maior parcela da sociedade). Para se aplicar esse bem supremo é que se desenvolve a ideia de Estado, com pessoas que organizam, aplicam e fiscalizam a prática desse bem supremo, que envolve (ou deveriam envolver) tudo e todos nas cidades.

Outro importante filósofo, Platão, oferece-nos a ideia de que a política é uma arte de governar que vai se encontrando e desenvolvendo a partir de um estado e modos de governo, que no decorrer da história os encontramos diversamente, tais como a Monarquia, Aristocracia, Anarquia, Democracia, que é o caso do Brasil, entre outros. Por isso, para Platão, a Política é a principal ciência, da qual derivam todas as demais.

As ideias destes e outros importantes filósofos atravessaram os séculos e ganharam novos desdobramentos a partir das definições, no fim do século XVI e início do século XVII, de Nicolau Maquiavel, que sintetizou a política como gestão de poder. Essa definição – e talvez uma das que melhor se aplica nos nossos dias – foi a que afastou a ideia de que a política, derivada da pólis grega, serviria para a promoção do Bem comum, mas consistia na busca e perpetuação do poder a todo custo, o que causa, aliado a tantos outros fatores, uma enorme discrepância, ou conflito, entre o objetivo inicial da política e sua prática concreta, inclusive na atualidade.

Isso nos remete às perguntas iniciais, nos alarga o horizonte de compreensão da política para além das questões partidárias e eleitorais, desenvolvidas no decorrer do tempo, mas, ao mesmo tempo nos provoca outra reflexão: é possível, ainda, redescobrir um novo significado político? Seria um sonho possível de concretizar ou uma utopia?

Quando penso sobre isso, e a partir das realidades que vivi, marcadamente pela experiência eclesial e em áreas de periferia, gosto de olhar a partir das juventudes. Elas parecem oferecer ao mundo, mesmo com suas tantas fragilidades e desafios, um olhar de Esperança, capaz de reencantar não apenas a política, mas o mundo todo. Diante de uma sociedade cada vez mais individualista e fechada em si mesmo, busco encontrar no olhar dos tantos jovens esse desejo de não permitir fechamentos, mas aberturas. Isso se confirma nos tantos movimentos que vão às ruas, que permeiam as universidades, os espaços eclesiais, que resistem às tiranias e vão assumindo seu papel de protagonistas. Mais Esperança ainda é possível ser vista quando o vigor da juventude se encontra com a experiência daquelas e daqueles cujos cabelos foram esbranquiçados pelo tempo e que agora partilham das suas histórias e ajudam a mover para a mudança. É como se houvesse um encontro entre o passado e presente que possibilitam olhar e caminhar em direção a um futuro novo, onde, de fato, o bem comum, e não a busca por manter o poder, sejam a realidade das nossas pólis. É um encontro que permite crescer também na consciência política.

Na última década, houve uma voz que se levantou, sem medo, para nos ajudar a avançar também na dimensão política, nas suas diversas formas de governo: Francisco. Por diversas vezes ele exortou o mundo a promover a construção de pontes e não de muros, de favorecer o diálogo e a acolhida fraterna. Em suma, Francisco desejava (e sonhava) com a construção de uma pólis em que o Bem Comum fosse a principal motivação e que também as formas de exercer a política na atualidade tivessem isso como base.

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Ao receber, em 16 de maio de 2022, uma delegação dos membros da Fraternidade Política Chemin Neuf, Francisco reforçava de que “A política é, antes de tudo, a arte do encontro”. Encontro entre gerações, entre diferentes nacionalidades e formas de pensar, encontro de diversas formas de governo, mas sempre um encontro onde prevalece a cultura, a fraternidade e o diálogo, mas não qualquer diálogo, e sim um profundo, capaz de gerar mudanças de mentes e de corações, em vista do bem comum. “Não posso contentar-me com um diálogo superficial e formal, como as negociações muitas vezes hostis entre partidos políticos”, prossegue Francisco, que conclui aquele discurso exortando: “Se esta mudança de coração não se verificar, a política corre o risco de se transformar num confronto frequentemente violento para fazer triunfar as próprias ideias, numa busca de interesses particulares em vez do bem comum, contra o princípio de que ‘a unidade prevalece sobre o conflito’”.

O sucessor de Francisco, Leão XIV, indo contra o que muitos pensavam sobre como seria sua forma de exercer o ministério petrino, tem caminhado, a seu modo, nas pegadas de seu predecessor e, recentemente, na viagem a Guiné Equatorial, clamava aos líderes políticos que, diante de tanto avanço tecnológico, promovessem essa cultura do encontro e da inclusão, sublinhando que “é dever inalienável das autoridades civis e da boa política remover os obstáculos ao desenvolvimento humano integral, do qual o destino universal dos bens e a solidariedade são princípios fundamentais.”

Entretanto, os apelos dos papas, não devem ressoar apenas para os que se colocam à disposição para exercer cargos políticos, mesmo que, na maioria das vezes, motivados pelo poder e pela ganância, antes, devem despertar em cada um de nós, cidadãos e cidadãs, esse desejo da mudança, da promoção de uma nova política, e isso pede de nós uma tomada de consciência de que exercer nosso papel político na sociedade não se restringe ao direito/dever de voto, mas pede conhecimento, participação ativa antes, durante e depois das eleições, e, sobretudo, a promoção do bem comum e de uma cultura do encontro e da inclusão.

Ao nos aproximarmos de mais um período eleitoral, possamos deixar-nos tocar por esse sonho de uma nova realidade política, que vai além de espectros e polarizações, que convida a exercer com responsabilidade nosso papel na sociedade. Que nossos votos nas urnas sejam depositados com esperança e verdade, naquelas e naqueles em quem confiamos o exercício do poder para que o façam pensando nessa dimensão do encontro, do diálogo, da fraternidade entre os povos, da promoção do bem comum, da valorização e da inclusão, e não do descarte.

Pensar que a boa política pode ser realidade e não utopia, que é possível reencanta-la e reesperança-la, e que isso passa pelas nossas consciências e nossas mãos, pode nos ajudar a superar, nesse imenso Brasil, os muros que nos dividem e construir novamente as pontes que fazem do nosso chão espaços de vida plena para todos e não apenas para alguns. Que o sonho da boa política permeie nosso contexto eleitoral, mas que não se finde nele.

Bibliografia

Ferrazzo, Débora. Ciência política e teoria geral do Estado. In: Ciência política e teoria do estado. Curitiba/PR: IESDE Brasil, 2018.

Francisco, PP. Discurso aos membros da fraternidade política Chemin Neuf. 2022. Disponível aqui. Acesso em: agosto/2026.

Leão XIV, PP. Discurso do Santo Padre no encontro com as autoridades, representantes da sociedade civil e corpo diplomático da Guiné Equatorial. 2026. Disponível aqui. Acesso em: agosto/2026.

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