Exemplo para exploração na Foz do Amazonas, Guiana sofre com “maldição do petróleo”

Foto: Jared Brotman/Pexels

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20 Agosto 2026

Onze entre 10 defensores da exploração de petróleo e gás fóssil na Foz do Amazonas citam a Guiana como o principal motivo para buscar combustíveis fósseis no litoral amazônico brasileiro. Especialistas apontam similaridade geológica entre as costas do Amapá e daquele país, distante cerca de 800 quilômetros.

A informação é publicada por ClimaInfo, 19-08-2026.

Desde que a estadunidense Exxon descobriu o primeiro reservatório de petróleo no litoral do país, em 2015, a Guiana passou de produção de petróleo marítima zero em 2019 para quase 1 milhão de barris por dia neste ano. Suas reservas comprovadas somam 11 bilhões de barris. Tudo isso fez o PIB do 2º país mais pobre da América do Sul aumentar seis vezes. A Guiana se tornou a economia que mais cresce no mundo e também o maior produtor de petróleo per capita do planeta.

Em um território pouco menor que o do estado de São Paulo, que tem uma população de apenas 950 mil habitantes – quase um terço deles vivendo na capital, Georgetown – era de se esperar que o país vizinho estivesse saindo rapidamente do cenário de pobreza. No entanto, como mostra Juan Pablo Spinetto, da Bloomberg, em reportagem reproduzida pel’O Globo, paira sobre a nação a “maldição dos recursos naturais”, que afligiu tantos países subitamente agraciados com uma abundância de riquezas minerais. Assim como essas nações, a Guiana enfrenta profundas vulnerabilidades: capacidade estatal limitada, instituições frágeis, escassez de mão de obra e incertezas geopolíticas.

Os sinais do boom do petróleo estão por toda parte. Escavadeiras e caminhões basculantes dominam as ruas de Georgetown, apinhadas de obras. O Citigroup abriu um escritório de representação na cidade, enquanto a França inaugurou uma embaixada no ano passado, seguindo o Catar, que fez o mesmo em 2023.

Novas unidades de redes de restaurantes estadunidenses estão surgindo por toda parte, de Wendy’s a Papa John’s e Starbucks, onde o menor café custa quase US$ 6. Hotéis estão sendo construídos para acomodar o aumento do número de visitantes em meio a uma verdadeira febre imobiliária.

Enquanto isso, esgoto a céu aberto corre ao lado do principal mercado de Georgetown, em meio a faixas que celebram a trajetória da Guiana “do açúcar e do arroz ao petróleo e ao gás”. Moradores vivem espremidos entre montes de lixo e as instalações de uma das maiores empreiteiras locais a serviço da Exxon. O hotel Marriott, com diária de US$ 500, instalado no centro nevrálgico da comunidade empresarial, ficou sem água durante a estadia de Spinetto. E as interrupções no fornecimento de eletricidade continuam sendo uma realidade cotidiana em algumas partes do país.

Os arroubos ufanistas do governo guianense em relação ao petróleo não resistem à busca por estatísticas confiáveis. Os dados econômicos oficiais mostram muitos sinais positivos, como o aumento das vendas de veículos. Mas não há indicadores da pobreza referentes aos anos de extraordinário crescimento econômico. Enquanto as estimativas de pobreza chegam a 58%, segundo o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), economistas locais falam em apenas 18% a 20%. Uma discrepância suspeita.

O desencanto da população é perceptível. Uma pesquisa do Green Institute da Universidade da Guiana mostra que, para 43% dos guianenses, os benefícios do crescimento são reais, mas distribuídos de forma desigual. Outros 27% afirmaram que a economia em construção simplesmente não corresponde ao tipo de sociedade que desejam.

As petrolíferas estrangeiras foram consideradas as instituições menos confiáveis entre as incluídas na pesquisa. E aqui volta a Exxon. A empresa é, de longe, a maior investidora e contribuinte de impostos do país. Só que os contratos de partilha de produção nos países vizinhos, como o Suriname, geralmente impõem um royalty de 6,25% sobre a produção bruta de petróleo. Na Guiana, a cobrança é de apenas 2%.

Muitos guianenses veem a Exxon como uma força nos bastidores, atribuindo-lhe o papel não oficial de árbitra da Guiana. A verdade é que a empresa ampliou seu controle sobre o país, acarretando prejuízos socioambientais cada vez maiores. E, obviamente, se isenta de responsabilidade quando é cobrada.

A “maldição do petróleo” foi lembrada por Suely Araújo, coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima, e por Délcio Rodrigues, diretor do ClimaInfo, em live da comunidade “Papo de Clima” sobre a descoberta de petróleo na Foz do Amazonas. Dados apresentados por Rodrigues sobre grandes produtores de combustíveis fósseis reforçam a ideia de que o petróleo só gerou desenvolvimento em nações que já tinham diversificação econômica e forte estabilidade institucional. O que não é o caso da Guiana. E, em menor grau, nem do Brasil.

A análise vale para quem diz que o petróleo na Foz do Amazonas irá desenvolver economicamente e socialmente o Amapá. “É tudo superestimado quando você vende esse ‘pacote petróleo’. Temos municípios em todo o país que recebem royalties elevados e têm até prédios bonitos, mas não têm tratamento de esgoto”, lembrou Suely.

Em tempo 1

Outra narrativa construída pelos defensores da exploração de petróleo na Foz do Amazonas diz que o dinheiro dos combustíveis fósseis de lá - se houver em quantidade comercialmente viável - será necessário para financiar a transição energética no Brasil. Mas Shigueo Watanabe Jr., físico especializado em mudanças climáticas e pesquisador do ClimaInfo, joga esse argumento por terra no podcast O Assunto, com um exemplo que seria risível, não fosse trágico. “Existe lei (para aplicar recursos do petróleo em transição energética); ela só precisa ser cumprida. E dizer que precisa explorar mais petróleo para acabar com o petróleo é como afirmar que é preciso que a população fume mais para gerar recursos para pagar o tratamento dos casos de câncer de pulmão.”

Em tempo 2

Nesta semana, Povos e Comunidades Indígenas dos nove países da Amazônia reuniram-se no Fórum Social Pan-Amazônico em Puyo, no Equador. O encontro abordou como acelerar a transição para além dos combustíveis fósseis. “Nós, na Amazônia, não estamos pedindo para voltar ao passado. Estamos defendendo nosso direito de decidir nosso próprio futuro”, disse ao El País Patricia Gualinga, líder indígena Kichwa de Sarayaku que liderou a histórica vitória legal de sua comunidade contra a exploração de petróleo.

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