A “fiction” do Vetus Ordo. Uma narrativa que exige correção após o segundo cisma lefebvriano. Artigo de Andrea Grillo

Foto: C1/Superstar

Mais Lidos

  • Para a pesquisadora, o design das plataformas deixou de ser apenas uma escolha estética de interface e se tornou o principal ator tecnopolítico das Big Techs, moldando o comportamento dos usuários e impactando diretamente o debate democrático

    Economia da atenção: o design algorítmico a serviço da estetização da política. Entrevista especial com Anna Bentes

    LER MAIS
  • Instituto Humanitas Unisinos – IHU promove evento em memória ao centenário do agrônomo e ambientalista brasileiro nesta quinta-feira, 20-08-2026, às 17h30min

    José Lutzenberger, 100 anos. Da Borregaard às enchentes: os alertas ignorados

    LER MAIS
  • Qual é o pior momento do ateu? Artigo de Leonardo Boff

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

20 Agosto 2026

"Se, após quarenta anos de 'perseguições' e 'concessões', os lefebvrianos voltam a ordenar mais quatro bispos, sem mandato papal, em 1º de julho de 2026, então fica claro que a admiração por Lefebvre, que transparecia desde 1988 em declarações oficiais da Cúria Romana, exige hoje uma profunda revisão", escreve Andrea Grillo, téologo italiano, em artigo publicado por La barca e il mare, 18-08-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

O Vetus Ordo é a antiga liturgia, e o Novus Ordo é a liturgia nascida do Concílio Vaticano II. A ilusão tenaz de que as duas formas poderiam coexistir persistiu por muito tempo. Era a convicção do Papa Ratzinger que, nessa questão, concordava substancialmente com Lefebvre. O Papa Francisco restaurou a tradição: quando a Igreja institui novos ritos, estes substituem os antigos.

O Vetus Ordo é uma “fiction” ou, melhor dizendo, uma narrativa que tem seu inegável fascínio: conta a história da tentativa, aparentemente desajeitada, de substituir algo sagrado e "de sempre" por uma versão na medida do homem, perdendo-se assim o mistério essencial do rito. Esse mito, no qual até René Girard acreditou, merece um reexame cuidadoso.

As origens italianas da narrativa

Essa narrativa aventuresca, com seus heróis e vilões, nasceu da imaginação fértil de dois respeitados homens da igreja: primeiro, o Arcebispo de Gênova, Giuseppe Siri; e, depois, o Arcebispo de Dakar e Sinnada, Marcel Lefebvre. No primeiro caso, a narrativa nasce aplicada à primeira reforma litúrgica de Pio XII: ou seja, a reforma da Vigília Pascal.

Após a Páscoa de 1951, Giuseppe Siri dá origem ao argumento que se tornaria o cavalo de batalha de Lefebvre; ao escrever ao Papa Pio XII, afirma: se querem reformar a Vigília transferindo-a do dia para a noite, ninguém pode impedi-lo. Mas permitam que aqueles que assim o desejam continuem como antes. Que eu saiba, essa é a versão mais antiga da teoria segundo a qual, quando a Igreja promulga uma reforma, quem quer tem a liberdade de ignorá-la.

Não é difícil entender, desde a primeira versão, o potencial "anárquico" inerente a tal posição. O próprio Giuseppe Siri percebeu isso; vinte anos mais tarde, quando Paulo VI introduziu a reforma do Missal Romano, em 1970, Siri não voltou a propor esse seu argumento. Pelo contrário, afirmou que a reforma era obrigatória para todos: assim como a reforma de Pio V havia sido vinculante, agora também o era aquela de Paulo VI.

A versão francesa da narrativa

A reinterpretação dessa narrativa feita por Marcel Lefebvre foi muito mais radical: a reforma carecia de validade e a verdadeira Igreja Católica só podia celebrar a liturgia segundo o rito tridentino. Lefebvre também solicitou a Roma a dispensa de mudar de rito, apesar da reforma abrangente determinada pelo Concílio Vaticano II e implementada nos primeiros anos após o concílio.

Ano após ano, essa narrativa evoluiu para um confronto cada vez mais frontal, levando diretamente ao cisma de 1988. A ideia de que um Vetus Ordo continue em vigor enquanto a Igreja de Roma aprova e adota um Novus Ordo tornou-se a narrativa de uma resistência "fiel", que assumia a figura simbólica de um "rito rígido": celebrado exclusivamente em latim, desprovido de variações (exceto entre Missa Rezada e Missa Solene) e caracterizado por uma experiência rigorosamente clerical da celebração.

O Vetus Ordo servia como uma caricatura de uma Igreja "de sempre", que ninguém poderia sequer sonhar em alterar, sem perder o próprio Cristo. A natureza "moderna" do rito tridentino e sua componente apologética já não se viam mais.

A versão curial da narrativa

Mas, mesmo antes de a narrativa assumir as dimensões dramáticas do cisma (1988), alguns setores significativos da Cúria Romana já haviam abraçado grande parte desse roteiro. A avaliação expressa explicitamente por J. Ratzinger em sua autobiografia de 1977 a respeito da natureza "trágica" da decisão de Paulo VI de substituir o Missal Tridentino pelo Missal de 1970 é surpreendente: o que mais ele poderia ter feito? A tese é aquela de Lefebvre: permitir que o Vetus Ordo coexistisse com o Novus Ordo.

Essa orientação concretizou-se em uma carta circular de 1984 da Congregação para o Culto Divino, que concedeu um indulto aos bispos que solicitavam a Roma a autorização para que grupos, comunidades e institutos pudessem celebrar não com o rito aprovado após o Concílio, mas com a última versão do rito tridentino, aquele de 1962. Por meio de "indultos" concedidos entre 1984 e 2007, a narrativa do Vetus Ordo consolida-se, e encontra, não só em Roma, guardiões e protetores. É possível ser um católico romano fiel ao Papa sem ser fiel à reforma litúrgica. Uma conveniente válvula de escape, para tornar, na prática, qualquer reforma inútil.

A versão papal dessa narrativa

O responsável curial por trás de toda a tendência de recuperação da narrativa sobre o “Vetus Ordo”, J. Ratzinger, quando ele se tornou o Papa Bento XVI, em 2005, não demorou para transformar ainda mais a narrativa do “Vetus Ordo”, graças a uma invenção ousada. Ele substituiu os termos Vetus Ordo e Novus Ordo por "forma extraordinária" e "forma ordinária" do Rito Romano.

Essa medida visava mudar radicalmente a narrativa: com a releitura de toda a trajetória, de 1962 a 2007, o Motu Proprio Summorum Pontificum apresentou uma nova versão dos fatos, como se a "forma extraordinária" (a tridentina) tivesse coexistido com uma forma subsequente (aquela do Vaticano) desde o início. O argumento de Siri-Lefebvre, ou seja, a coexistência de dois ritos incompatíveis, era apresentado como a solução para todos os conflitos.

No entanto, mesmo dentro dessa narrativa, que pretendia conciliar o inconciliável, vários pontos não fechavam. A presença de lecionários, calendários e sequências rituais inconsistentes entre os dois ritos de 1962 e de 1970 começou imediatamente a perturbar a narrativa. Afinal, quarenta e cinco anos haviam se passado entre 1962 e 2007, e não era fácil fingir que não haviam existido.

Tanto que logo se tornou necessário conferir "consistência histórica" ao rito de 1962, por meio de uma "reforma", que, na verdade, já havia sido realizada, justamente com a criação do rito de 1970. A confusão estava se tornando insustentável, e a anarquia sancionada pela Comissão Ecclesia Dei não conseguia impedir que os "fieis tradicionalistas" quisessem contornar até mesmo o Missal de 1962 em favor de um retrocesso ainda maior...

A reviravolta: a narrativa do Vetus Ordo não é verdadeira

A narrativa de uma "vida paralela" entre o Vetus Ordo e o Novus Ordo ou, de acordo com a nova terminologia, entre as formas extraordinária e ordinária do Rito Romano, encontrou um “não” decisivo no motu proprio Traditionis Custodes, de 2021. A ideia de Giuseppe Siri, de 1951, chegava finalmente ao fim da linha com o Papa Francisco, 70 anos depois.

Objetivamente, havia apenas uma “lex orandi”: aquela determinada após o Vaticano II por Paulo VI e João Paulo II. Todos os “ordines”, aprovados entre 1969 e 1988 haviam substituído as anteriores, que saiam do uso eclesial. Essa narrativa vista por alguns como uma "restrição de liberdades adquiridas" era simplesmente um retorno à lógica da tradição, assim como concebida por João XXIII e Paulo VI. Nesse sentido, Francisco havia sido simplesmente um “traditionis custos” (guardião da tradição).

Para isso, no entanto, ele teve de mudar radicalmente a orientação que havia sido imposta durante quarenta anos pela influência de Ratzinger-Bento XVI cuja lógica era, fundamentalmente, aquela de Lefebvre. A invenção do Vetus Ordo era reconduzida às suas raízes cismáticas: a rejeição do Novus Ordo era a rejeição do Concílio Vaticano II, uma questão não de disciplina litúrgica, mas de doutrina eclesial.

O Cisma de 2026: a narrativa se revela em sua natureza negativa

Se, após quarenta anos de "perseguições" e "concessões", os lefebvrianos voltam a ordenar mais quatro bispos, sem mandato papal, em 1º de julho de 2026, então fica claro que a admiração por Lefebvre, que transparecia desde 1988 em declarações oficiais da Cúria Romana, exige hoje uma profunda revisão.

Já não faz mais sentido pedir "mais Missas em latim e menos sinodalidade". A narrativa do Vetus Ordo é um estratagema nostálgico destinado a congelar a Igreja em sua figura oitocentista e impedir qualquer reforma. Libertar-se dessa narrativa significa pedir que todos celebrem pelo rito único atualmente em vigor: o Novus Ordo.

Cada um poderá encontrar sua medida, no único rito, que pode ser usado seletivamente, eletivamente, coma a devida discrição. A narrativa do Vetus Ordo é uma história de ressentimento contra o Concílio Vaticano II. Para superá-la, devemos aceitar a tradição da Igreja: quando um rito é reformado, o novo substitui o antigo. Sempre foi assim, embora a "fiction" apresente isso como um sacrilégio.

O verdadeiro erro é recusar-se a aceitar a evolução tanto dos ritos quanto das comunidades eclesiais. O "Cisma 2.0" abre nossos olhos: não podemos mais cultivar bolsões sectários de ressentimento contra a história. As formas mais insidiosas desse catolicismo ressentido são justamente aquelas que parecem "obedientes", mas insistem em celebrar exclusivamente dentro do mito da pureza sectária do Vetus Ordo.

Leia mais