Em entrevista à NBC, o Papa Leão XIV afirma que os imigrantes são uma das “maiores riquezas” dos Estados Unidos

O Papa Leão XIV com o renomado tenor italiano Andrea Bocelli em Castel Gandolfo, em 29 de julho de 2026 | Crédito: Vatican Media

30 Julho 2026

Falando à NBC antes de seu Concerto pela Paz, o papa disse que sua viagem aos Estados Unidos acontecerá "nos próximos dois anos". Neste ano, ele passou o 4 de julho com os migrantes de Lampedusa.

A reportagem é de Christopher Hale, publicada por Letters from Leo, 29-07-2026.

Esta é uma notícia em desenvolvimento. A entrevista completa do Papa Leão XIV com Tom Llamas, da NBC, foi ao ar nesta noite no Nightly News.

O âncora da NBC, Tom Llamas, fez uma pergunta ao Papa Leão XIV nos jardins de Castel Gandolfo nesta quarta-feira: o que ele ama nos Estados Unidos?

"Tantas coisas", respondeu o papa. "O sentido de liberdade, o sentido de oportunidade, o sentido de ter convidado, por gerações, pessoas de todo o mundo para fazer parte da América."

Em seguida, ele contou a Llamas de onde vem essa resposta. "Venho de uma família em que meus avós eram imigrantes. Do lado da minha mãe, temos pessoas que foram tanto escravizadas quanto proprietárias de escravos." Essa herança, disse ele, ensinou-o a reconhecer "uma das maiores riquezas dos Estados Unidos", as pessoas que este país acolheu de todos os lugares, por gerações.

A NBC exibiu a entrevista completa nesta noite no Nightly News, na qual Llamas pressiona o papa sobre o que define seu amor pela América e o que significa ser o primeiro estadunidense a ocupar o cargo.

Llamas também perguntou quando o papa visitará os Estados Unidos. "Nos próximos dois anos", respondeu Leão.

Esse prazo carrega uma história. A Casa Branca de Trump queria o papa nos Estados Unidos para o 250º aniversário da nação neste verão. O Letters from Leo cobriu a ruptura quando Leão escolheu Lampedusa em vez disso, passando o 4 de julho na missa com migrantes na porta sul da Europa.

Eu estava na ilha naquela manhã, e antes de a missa começar tive a oportunidade de desejar ao primeiro papa americano um feliz 4 de julho.

Os leitores do Letters from Leo conhecem bem a árvore genealógica de Leão. Henry Louis Gates percorreu essa árvore com o papa no verão passado, ancestrais negros, senhores de escravos tanto brancos quanto negros, uma linhagem crioula que atravessa Nova Orleans.

O maestro tenor Andrea Bocelli e os jovens cantores do coro ABF Voices, que participarão do evento “Cântico da Paz” no dia 29 de julho em Castel Gandolfo | Foto: Vatican Media

Sua mãe, Mildred Prevost, cresceu dentro dessa herança antes de a família chegar a Chicago. Até quarta-feira, porém, Leão nunca havia dito essas palavras ele mesmo, com uma câmera ligada.

Horas antes da entrevista de Llamas, os mesmos jardins se encheram de crianças.

Ao entardecer, 164 delas ficaram em pé num palco vermelho no Borgo Laudato Si' e cantaram para o papa que passa seus agostos ali. Vieram da Terra Santa, de Uganda, do Haiti e da Itália. Andrea Bocelli ficou entre elas e abriu a hora com Panis Angelicus, o "Pão dos Anjos".

A NBC News e a Noticias Telemundo transmitiram o Concerto pela Paz ao vivo por todos os Estados Unidos, com Llamas na âncora ao lado do frade dominicano Pe. Patrick Briscoe. Autoridades do Vaticano chamaram o evento de Cântico da Paz, montado para marcar os oitocentos anos da morte de São Francisco de Assis.

O Cardeal Fabio Baggio, que dirige o Centro de Ensino Superior Laudato Si' junto com a Fundação Andrea Bocelli, construiu a noite em torno de uma ideia: crianças que enterraram amigos e fugiram da violência ainda podem ensinar ao resto de nós como soa a paz.

Este é o mesmo gramado onde, três semanas atrás, o Papa Leão deixou de lado seu discurso preparado para compartilhar uma refeição com duzentos dos moradores mais pobres de Roma, um padrão que o Letters from Leo tem acompanhado desde que ele e seu antecessor, Francisco, transformaram Castel Gandolfo em um lugar para as pessoas que Roma costuma manter à distância.

Entre os números do coral, os leitores se revezaram com trechos da Escritura e do ensinamento papal. Uma voz abriu o Livro do Gênesis, o mundo pronunciado à existência, linha por linha.

Um integrante do coral recitou o Cântico das Criaturas de São Francisco. Outra pessoa leu a oração da paz atribuída ao santo, aquela que pede para semear amor onde há ódio e perdão onde há ofensa.

E então, lida em voz alta nos próprios jardins do papa, veio uma passagem da encíclica Fratelli Tutti, do Papa Francisco: que os bens pertencentes a uma nação não podem ser negados a "uma pessoa necessitada vinda de outro lugar", porque, nas próprias palavras da encíclica, "cada país também pertence ao estrangeiro". Se alguém nasceu em Ohio ou em Kampala não muda o que lhe é devido.

É importante considerar o que isso significa. O papa acabara de dizer a um âncora de notícias americano, naquele mesmo dia, que seus próprios avós eram imigrantes e que sua própria linhagem carrega tanto os escravizados quanto seus proprietários.

O argumento da Igreja sobre o estrangeiro não é uma abstração para ele. É uma história de família.

Os bispos dos Estados Unidos vêm fazendo o mesmo argumento há dois anos, diante de uma administração Trump-Vance que continua realizando batidas de deportação em paróquias e tribunais.

O Cardeal Dolan invocou Jesus e a Estátua da Liberdade e foi rotulado de traidor por isso. O Arcebispo Farrell chamou a retórica do governo pelo que é, no mesmo dia em que o Papa Leão rezava com migrantes em Lampedusa. O Arcebispo Weisenburger, de Detroit, ficou do lado de fora de uma instalação do ICE para dizer que os imigrantes merecem voz. Nada disso desacelerou as batidas.

A declaração política mais contundente do concerto foi a lista de convidados.

Uma menina de Belém ficou em pé com as outras crianças e perguntou ao papa, e perguntou a Deus, por que os adultos acham a paz tão difícil. A própria oração das crianças colocou isso de forma mais direta do que qualquer homilia poderia: a guerra, disseram elas, é "uma noite escura que leva embora nossos amigos, nossos pais, nossas escolas e nossas casas", e ninguém consegue lhes dizer por quê.

O Papa Leão respondeu do jeito que costuma responder à maioria das coisas: com gentileza, e sem uma única referência a nenhum presidente. Disse-lhes que a beleza funciona como um riacho fluindo de volta à sua fonte, e que segui-la leva a algum lugar real, "a beleza da música nos convida a encontrar aquele que é a própria beleza".

Ele agradeceu à Fundação Bocelli por seu trabalho com "jovens que enfrentam desvantagens educacionais e sociais", e então rezou para que a paz reinasse "em seus lares, e em todos aqueles lugares do mundo que continuam a sofrer com a violência".

Llamas encerrou a transmissão observando, quase de passagem, que o papa havia tocado na situação dos migrantes durante a hora. O Pe. Briscoe, sentado ao seu lado, disse que o que mais o marcou foi a quantidade de esperança que o momento trouxe. Nenhum dos dois precisou explicar por que uma audiência americana talvez precisasse mais desse lembrete do que a maioria.

Papa Leão XIV com o coro ABF Voices, composto por 164 crianças da Terra Santa, Uganda e Itália | Foto: Vatican Media

Um papa descendente de imigrantes, de pessoas escravizadas e dos homens que as possuíam ficou em pé em um jardim nos arredores de Roma e deixou crianças da Terra Santa, de Uganda, do Haiti e da Itália cantarem juntas como iguais, sem hierarquia sobre o sofrimento de quem contava mais.

Depois, uma leitura da encíclica de seu antecessor disse à audiência que um país também pertence ao estrangeiro. Enquanto isso, o país que deu a este papa seu sotaque, e a seus ancestrais, seus grilhões, está conduzindo batidas que separam famílias por causa de papelada.

O Letters from Leo tem coberto as batidas, as repreensões dos bispos e os próprios apelos do papa há dois anos, porque o abismo entre Castel Gandolfo e a fronteira continua se alargando em vez de se fechar. A quarta-feira também não o fechou.

Mas entre uma confissão matinal sobre a escravidão e uma noite de crianças cantando pela paz, o primeiro papa americano mostrou ao seu país o próprio reflexo: o imigrante, o escravizado, o proprietário de escravos, todos em uma só família, todos em um só homem.

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