28 Julho 2026
Um homem, e não um herói, dominado por um sentimento de culpa e responsabilidade, sob um céu sem deuses, onde a religião pode ser um instrumento de poder e onde a paz é um sonho: uma releitura do poema homérico no cinema.
O artigo é de Sergio Di Benedetto, professor de Literatura Italiana na Universidade da Suíça Italiana, em Lugano, publicado por Vino Nuovo, 27-07-2026.
Eis o artigo.
Dado que, na minha opinião, não faz muito sentido assistir a um filme baseado em um livro vasto e complexo com o único propósito de avaliar sua precisão filológica e literária (ou melhor, é um jogo que pode ser envolvente e útil para, pelo menos, entender se o núcleo da narrativa foi mantido, mas sem rigidez desnecessária), e dado que não sou a favor da atualização forçada de clássicos, como: Dante é um de nós, Manzoni fala da juventude de hoje, etc., no sentido de que os grandes clássicos indubitavelmente têm algo que ainda pode nos dizer hoje, que pode nos inspirar e nos fazer sentir representados, mas também levando em conta a distância que cada texto tem do seu futuro (e passado). Agora, com essas duas premissas em mente, devo dizer que A Odisseia, de Nolan, definitivamente vale a pena assistir, e tentarei explicar brevemente o porquê (embora uma resenha adequada e abrangente exigisse muito mais espaço).
Em primeiro lugar, o Odisseu que Nolan nos apresenta (o protagonista é interpretado por Matt Damon) é um homem, não um herói ou um super-herói; ele é um homem astuto, ambíguo e frágil, movido por impulsos muito humanos, dominado por afetos e sentimentos, mas, acima de tudo, oprimido por um sentimento de culpa do qual gradualmente se torna consciente. A questão central é a seguinte: ele arquitetou a estratégia do cavalo, violou a lei de Zeus (voltarei a isso mais tarde), causou a destruição de Troia e a morte de seu povo.
Por fim, não salvou seus companheiros. Ele é um homem que gradualmente percebe como suas ações tiveram consequências desastrosas para tantos (spoiler: o diálogo final com Penélope deixa isso claro) e demonstra sinais de remorso. Isso está presente no original homérico? Não, ou melhor, não tão claramente; porque Homero, ou alguém como ele, desde o início nos fala de um homem que "sofreu muita dor" (tradução de Calzecchi Onesti), algo que Virgílio mais tarde relembraria na Eneida, retratando Eneias como um homo patiens (um homem de sofrimento), mas o tema do arrependimento está ausente do poema. Esse fio condutor, no entanto, é desenvolvido por Nolan, fazendo de Odisseu um homem sofredor, um homem que carrega dentro de si uma grande dor interna, uma turbulência interior, especialmente pelo que causou.
Isso introduz o tema da responsabilidade, que aproxima Odisseu de Eneias e sustenta um dos níveis narrativos, muito mais do que o tradicional desejo do herói por conhecimento. Aqui reside a verdadeira formação de Odisseu, ao ser chamado a empreender uma jornada interior, aprendendo, acima de tudo, a assumir a responsabilidade por seus atos, mas também a abrir mão do controle sobre aquilo que não lhe pode ser delegado. Este é o discurso de Circe, que simplesmente declara ter transformado seus homens em porcos porque eles já eram assim, animais devotados ao instinto, e o rei de Ítaca não pode mudá-los. Esta é a interpretação de Nolan para o naufrágio final que (omitindo o belo episódio dos Feácios) traz Odisseu de volta para casa.
E isso está ligado a outro núcleo central do filme, ou seja, sua transformação em um hino de paz: porque, aqui de fato de uma maneira contemporânea, o protagonista da jornada viu e se lembra das ruínas de Troia e de uma civilização, e acima de tudo denuncia a violação do que é insistentemente chamado de "lei de Zeus", que é uma lei de hospitalidade, de acolhimento, de respeito ao sagrado, segundo a qual uma oferenda a uma divindade (o cavalo) não poderia se tornar um instrumento de morte; em vez disso, a lei de Zeus é pisoteada e, a partir daí, tudo o que é ilícito se transforma em lícito, a ponto de dizer (outro spoiler) que a civilização cairá e a escrita se perderá: da Guerra de Troia restarão apenas as canções, mais ou menos fiéis, mais ou menos retóricas.
Neste filme, a Odisseia de Nolan esvazia o céu de deuses: a responsabilidade pelas ações recai sobre os seres humanos, que frequentemente exploram a religião para seus próprios interesses mesquinhos. Assim, Agamenon (personagem sombrio cujos figurinos já lembram o Batman do diretor) sacrifica sua filha Ifigênia para partir para Troia, o que esconde por trás do rapto de Helena (mas Penélope levanta dúvidas: rapto ou fuga voluntária?) suas ambições imperialistas, ou seja, a conquista de rotas comerciais. Atena, conselheira de Odisseu, é mais ouvinte do que figura ativa, a ponto de revelar, no fim (terceiro spoiler), que na mente do protagonista ela é Cassandra, morta diante de Odisseu em um ato de violência gratuito e blasfemo, que também afeta o Paládio troiano (será que Nolan leu os textos de Girard?).
O final é aberto, em homenagem a Dante e a Nikos Kazantzakis, para quem Odisseu retorna ao mar, em um exílio voluntário e em um ato de renúncia ao trono em favor de seu filho Telêmaco: dando um passo para trás, partindo com Penélope, rumo ao Ocidente: ele aprendeu a desapegar-se, depois de ter encontrado o que procurava (Penélope – que, aliás, em certo momento deixa claro que na ausência do rei ela também seria perfeitamente capaz de governar, se ao menos as mulheres tivessem permissão para fazê-lo – Telêmaco, a casa), depois de ter se vingado dos pretendentes, uma ação que, em todo caso, resulta em exílio.
Muitos outros pontos poderiam ser levantados, tanto positivos (o caráter de Eumeu, por exemplo) quanto negativos (o episódio da jornada para o além parece um pouco desperdiçado, sem o comovente encontro com sua mãe, Anticleia: mas aqui estou incorrendo em erro filológico).
Em suma, o filme vale muito, nos faz pensar e discutir, nos leva à reflexão, nos lembra como a constante busca pelos limites do que é permitido destrói a todos (até mesmo Agamenon, o rei, que no fim encontrará a morte pelas mãos de sua esposa: ninguém se salva quando são presa apenas de si mesmos, sem reconhecer o rosto do outro, como diria Levinas: não é por acaso que os troianos nunca são vistos frente a frente e Agamenon só tira o capacete no momento de seu assassinato).
E, por fim, dá vontade de pegar de novo o livro Odisseia de Homero (que li, com muita sorte, justamente nas Cíclades: porque lá há luzes, cores e atmosferas que só a Grécia pode oferecer), o que não é nada garantido (no teatro, porém, havia muitos jovens: outra coisa que não se pode dar por certa).
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