Homero na era dos muros. Impressões de "A Nova Odisseia". Artigo de Jesús Lozano Pino

Foto feita por inteligência artificial sobre o filme "A Odisseia" | Foto: Reprodução/Religión Digital

25 Julho 2026

Da jornada espetacular de Nolan à "Síndrome de Ulisses": quando o mito clássico nos desafia em relação a fronteiras, dignidade e a busca por um lar.

O artigo é de Jesús Lozano Pino, missionário e filósofo em formação, publicado por Religión Digital, 23-07-2026.

Eis o artigo.

Ontem fui assistir à nova adaptação cinematográfica de Odisseia, de Homero, dirigida por Christopher Nolan, e saí do cinema com aquela sensação linda, avassaladora e especial que só as grandes histórias conseguem proporcionar. Não sou de forma alguma um especialista em filosofia grega — ao contrário de alguns bons amigos que têm um profundo conhecimento de filosofia antiga e com quem é um prazer conversar —, mas não é preciso ser um acadêmico para perceber como essa história clássica, com quase três milênios de história, continua a tocar nossas emoções mais profundas e a desafiar o nosso presente.

1. Entre a tela grande e o medo do desconhecido

Em termos de cinematografia, a assinatura de Christopher Nolan é evidente desde o primeiro minuto. O espetáculo visual é de tirar o fôlego, com uma cinematografia deslumbrante e um mar imponente que ruge com uma respiração quase animalesca, como se fosse um organismo vivo. Mas o que realmente cativa vai muito além dos efeitos especiais: é a intimidade com o sofrimento humano. A câmera se detém no rosto de um Odisseu abatido pelo trauma da Guerra de Troia, cansado de lutar e exposto às duras realidades da vida. É uma direção que evita o herói invulnerável e estereotipado para nos apresentar alguém de carne e osso, com suas dúvidas, suas fragilidades e seus medos.

Além disso, o trabalho de criação das criaturas e das ameaças da jornada é de tirar o fôlego. Há trechos em que a recriação dos monstros — com aquela presença física imponente que evoca a ferocidade primordial do Minotauro ou a ameaça do Ciclope — é tão bem feita que se torna genuinamente assustadora no cinema. Nolan não filma o confinamento na caverna como uma cena de ação, mas como uma experiência claustrofóbica de terror psicológico: a câmera IMAX acompanha o chão de barro para nos forçar a sentir a dimensão da indefesa, enquanto a escuridão é quebrada apenas pelas brasas bruxuleantes de uma fogueira. Esses monstros da noite não são mero entretenimento visual: representam o irracional, a brutalidade sem empatia e a incerteza que os seres humanos enfrentam quando despojados de toda segurança.

2. Lealdade a Homero e o retorno ao lar ("nostos")

O que mais apreciei nesta adaptação foi o profundo respeito que ela mantém pela essência do texto que a tradição atribui a Homero. O filme compreende muito bem que a verdadeira força motriz da história não é uma simples coleção de batalhas ou encontros com seres mitológicos, mas a constante saudade do lar ("nostos").

Nessa jornada de retorno, o filme se atenta aos detalhes que tornam o clássico grandioso:

O lar como destino e cura: cada passo dado pelo protagonista é guiado pelo desejo de curar suas feridas internas e retomar sua vida cotidiana com seus entes queridos.

A dignidade de Penélope e Telêmaco: eles não são relegados a meros espectadores passivos; o filme reflete com grande delicadeza a resistência estoica em Ítaca, a fé na espera e o amadurecimento daqueles que não desistem.

Inteligência versus força: a famosa astúcia de Ulisses (Odisseu) é apresentada não como uma armadilha fria ou arrogante, mas como a sabedoria humilde de alguém que sabe se adaptar às tempestades quando a força bruta o domina.

Dimensão existencial complementar: a jornada como "limbo" e tempo compartilhado

No filme, a viagem marítima assume a dimensão de um limbo ontológico: estar no mar é não habitar lugar nenhum. A jornada representa não apenas uma distância física entre Troia e Ítaca, mas também o abismo existencial entre o homem dilacerado pela guerra e o ser que luta para se tornar humano novamente.

Para capturar isso, nosso diretor emprega um design de som paralelo deslumbrante: ele justapõe o rugido implacável das ondas com o clangor rítmico e abafado do tear de Penélope em Ítaca. O tempo se torna uma estrutura compartilhada: o movimento da madeira em Ítaca sustenta a memória contra a maré que ameaça apagar o marinheiro.

3. Do mito às fronteiras atuais: a "síndrome de Ulisses"

Ao ver Ulisses à deriva, sem rumo, é impossível não conectar o filme a uma dolorosa realidade dos nossos tempos. Na psicologia, existe uma condição clínica bem estudada, cunhada pelo psiquiatra Joseba Achotegui: a "Síndrome de Ulisses" (ou a síndrome do imigrante com estresse crônico e múltiplo).

É o sofrimento silencioso suportado por milhares de pessoas sem documentos, forçadas a deixar sua terra natal. Elas vivem em uma dolorosa terra de ninguém.

4. Simbolismo da desapropriação: da anulação do nome à invisibilidade

Quando Odisseu sussurra nas sombras: "Meu nome é Ninguém", o filme transforma a astúcia mítica em um reflexo amargo da condição humana. Para sobreviver à ferocidade do monstro, o náufrago é forçado a aceitar a anulação completa de sua identidade e de seus títulos. Essa metáfora se conecta diretamente com a realidade do imigrante indocumentado: diante da burocracia cega ou da hostilidade social, a pessoa perde sua história pregressa e se torna uma estatística, uma presença transparente, um "Ninguém" em busca desesperada de um lugar onde possa, mais uma vez, pronunciar seu próprio nome com dignidade.

5. Hospitalidade sagrada versus "prioridade nacional"

Essa tragédia nos desafia eticamente. Hoje vemos como certos discursos e projetos políticos, protegidos pela chamada "prioridade nacional", estão ganhando terreno, juntamente com leis e barreiras de exclusão que erguem muros e justificam a rejeição de estrangeiros.

A Odisseia e a tradição evangélica coincidem num apelo inegável: a hospitalidade. Na Antiguidade, a estatura moral e a civilização de um povo eram medidas pela forma como acolhiam os náufragos e os estrangeiros. Opor-se à lógica egoísta da "prioridade nacional" não é meramente uma posição ideológica; é um dever profundamente humanista e cristão. Cada migrante que atravessa o mar ou salta uma cerca não é uma ameaça abstrata, mas um herói, um "Ulisses" de carne e osso em busca de um lugar seguro para reconstruir a sua vida e continuar a lutar.

Nolan usa o palácio de Ítaca para nos mostrar o oposto: a perversão e a destruição da hospitalidade. Os pretendentes não são hóspedes; são parasitas. Eles ocupam a casa, consomem os bens da família de Odisseu sem permissão e, em vez de acolherem o mendigo quando ele entra no salão, o insultam, atiram comida em sua cabeça e o ameaçam.

Para os gregos (e isso é transmitido no filme com uma tensão quase de suspense), violar as leis da hospitalidade é o maior crime ético possível. Essa falta de empatia é, em última análise, o que justifica o julgamento final contra os pretendentes.

6. Como epílogo: dez ecos de Ítaca

Alguns filmes terminam quando as luzes do cinema se acendem. Outros, porém, começam precisamente nesse momento. A Odisseia pertence a este segundo grupo. Mais do que respostas, deixa perguntas; mais do que certezas, intuições. Ao sair do cinema, estas são algumas das reflexões que me acompanharam no caminho para casa. Não pretendem resumir o filme nem falar em nome do seu realizador. São simplesmente ecos pessoais de uma história que, quase três mil anos depois, continua a nos desafiar:

1. Toda guerra termina muito mais cedo nos mapas do que nos corações daqueles que retornam.

2. A jornada mais longa nunca separa duas margens, mas sim a pessoa que fomos da pessoa que somos chamados a ser.

3. Só quem já passou por um naufrágio entende o verdadeiro significado de lar.

4. Existem monstros que vivem em cavernas; outros se alimentam do medo que carregamos dentro de nós.

5. A esperança é o único farol que nenhuma tempestade consegue extinguir.

6. A inteligência não nasce para dominar, mas para abrir caminhos quando a força falha.

7. Ninguém retorna a Ítaca a mesma pessoa que partiu; a jornada transforma o viajante, e a espera transforma o lar.

8. Toda vitória perde o seu significado quando, para alcançá-la, deixamos de ser humanos.

9. A hospitalidade começa quando paramos de perguntar de onde alguém vem e começamos a perguntar do que essa pessoa precisa.

10. Talvez o verdadeiro herói não seja aquele que conquista cidades, mas sim aquele que consegue retornar sem que o ódio tenha conquistado seu coração.

Conclusão

A Odisseia, de Nolan, nos oferece um espetáculo cinematográfico de primeira linha, mas, acima de tudo, nos apresenta um espelho no qual podemos nos ver refletidos. Com grande intensidade, o filme lembra que os seres humanos não foram feitos para a guerra perpétua ou para a ruína constante. No fundo de cada um de nós reside uma chama que nos convida a resistir, a perdoar e a sempre buscar o caminho de volta ao que é sagrado, à família e ao lar.

Se tiver a oportunidade de ir ao cinema, vá. É uma ótima desculpa para rever esta obra, uma obra-prima da literatura mundial adaptada para o cinema, que nos lembra que, por mais revolto que seja o mar, sempre há um farol à nossa espera...

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