A Odisseia, o Evangelho e as difíceis escolhas que devemos fazer. Artigo de Terrance Klein

“Ulisses e Calipso”, de Arnold Böcklin, 1883. Crédito: WikiArt

24 Julho 2026

"A Odisseia nos lembra que o mundo ressoa com cantos de sereia. Conseguimos ouvir o chamado de volta para casa? Nós o ouvimos primeiro em silêncio e, quando tememos tê-lo perdido, o coração precisa buscar novamente essa quietude. Escolham com sabedoria!"

O artigo é de Terrance Klein, padre da Diocese de Dodge City e autor de Vanity Faith, publicado por America, 22-07-2026.

Eis o artigo. 

Homilia para o 17º Domingo do Tempo Comum
Leituras: 1Rs 3,5.7-12; Rm 8,28-30; Mt 13,44-52

Você já namorou uma imortal? Odisseu namorou, na Odisseia.

Ele e Calipso (Καλυψώ), uma bela ninfa do mar e deusa menor, ficam juntos por sete anos depois que o herói de Ítaca é lançado à praia de sua ilha. (Prefiro o quanto a tradução de 2025 da Odisseia feita por Daniel Mendelsohn se mantém próxima do original grego, tanto no conteúdo quanto na métrica.)

O reino de Calipso é descrito como fartamente coberto por videiras carregadas de cachos de uva. Homero descreve quatro fontes que corriam lado a lado, cercadas de prados aveludados onde cresciam violetas e ervas, um cenário tão belo que encantaria até um deus que por ali passasse.

Quatro nascentes, todas em fila, jorravam água cristalina,
seus riachos correndo lado a lado, serpenteando para um lado e para o outro.
Ao redor, havia prados aveludados onde violetas e capim-de-louro cresciam
viçosos. Ali, até mesmo um deus que por acaso se deparasse com essa cena
se maravilharia com a visão, com prazer preenchendo sua mente (V. 69-75).

Calipso cuida do náufrago até que ele se recupere, apaixona-se por ele e depois o mantém prisioneiro no paraíso.

É claro que Odisseu já é casado com Penélope, lá em Ítaca. Vinte anos antes, ao partir para lutar na Guerra de Troia, Odisseu havia se despedido dela e do filho ainda bebê, Telêmaco.

Calipso está desesperadamente apaixonada por Odisseu. Ela deseja intensamente fazer dele seu marido (I.15). Chega a lhe oferecer a vida eterna: Odisseu poderia permanecer na ilha, imortal e sempre jovem, para sempre casado com uma deusa que também nunca envelhece (V.136). Uma oferta difícil de recusar!

Mas a Odisseia ainda nos fala hoje porque nos mostra a nós mesmos, seja o melhor, seja o pior que há em nós.

Mesmo no paraíso, Odisseu anseia por voltar à sua vida mortal, em casa.

Durante o dia, ele se sentava nas rochas à beira-mar,
chorando e gemendo, dilacerando o coração em desespero.
As lágrimas corriam enquanto ele contemplava a imensidão inquieta do mar (V.156-58).

Em seus 20 anos de separação, Penélope certamente também foi marcada pelo tempo e pelo sofrimento. Ainda assim, Odisseu escolhe a vida mortal ao lado da esposa em vez da oferta de uma vida eterna com Calipso. Se os deuses permitirem, ele envelhecerá e morrerá na companhia dela.

Ele diz à deusa: "Divina senhora, não te irrites comigo, pois eu mesmo sei
muito bem quão frágil Penélope, essa mulher de raciocínio lúcido, pareceria
se alguém comparasse sua beleza ou estatura com a tua.
Afinal, ela é mortal, enquanto tu és imortal e eterna.
Mas não passa um dia sem que eu deseje e anseie
voltar para casa e ver os dias do meu retorno" (V.215-220).

Continuamos lendo a Odisseia, ou ao menos nos emocionamos com sua história nas telonas, porque ela nos convoca a escolher com sabedoria, a abraçar a vida que Deus, em sua sabedoria, nos concedeu, esforçando-nos para aperfeiçoá-la em vez de habitar a fantasia.

A Salomão é feita uma oferta não muito diferente daquela proposta a Odisseu.

O Senhor apareceu a Salomão em sonho, durante a noite. Deus lhe disse: "Pede o que quiseres, e eu te darei" (1 Reis 3,5).

E, tal como Ulisses, o grande rei escolhe o real em vez do fantástico, o que perdura em vez do que passa. Ele pede apenas “um coração compreensivo para julgar o seu povo e para distinguir o certo do errado” (1 Reis 3,9).

Jesus nos pede para encontrarmos nosso tesouro e escolhermos de acordo com ele. O mundo está cheio de coisas boas, mas não podemos tê-las todas. Muitas vezes, quando tentamos alcançar mais, o pouco que temos nos escapa. Podemos permanecer em nossas bênçãos, confiando no Deus que as concedeu?

O mundo se torna cada vez mais enfeitiçado. Como a ilha de Calipso, um lugar de fantasia desenfreada. Escolher o que é sólido nunca foi tão difícil.

Que apropriado o nome "World Wide Web", a teia mundial. Tudo pode ser encontrado ali dentro, mas também é possível se perder, ficar enredado em ilusões. Escrevendo na edição de abril da The Atlantic, o jornalista McCay Coppins relatou que quase metade dos homens americanos entre 18 e 49 anos afirma ter contas de apostas on-line. Três anos atrás, a revista Time observou que mais da metade dos usuários da Geração Z nas redes sociais se sente mais à vontade para se mostrar vulnerável on-line e por mensagem de texto do que pessoalmente. Já em 2017, a The New Yorker noticiou executivos do Vale do Silício decididos a tornar a própria morte opcional. E quem precisa de pesquisa para perguntar quantas pessoas ficam olhando para os celulares sem sequer enxergar rostos?

Quando tentamos agarrar mais do que podemos, o pouco que temos escorrega das mãos. Claro, eu não estaria pregando o Evangelho se não apontasse a diferença entre a sabedoria da Odisseia e o anúncio da Boa Nova.

Santo Tomás de Aquino falou dos seres humanos como quoddam modo omnia, "de certo modo, tudo". Somos aqueles que, de uma forma ou de outra, desejam todas as coisas boas. Foi assim que Deus nos criou. Somos, simplesmente, corações abertos, prontos para receber.

Santo Agostinho, porém, nos advertiu a escolher com sabedoria. Ele nos lembrou que nossos corações são inquietos e não descansarão enquanto não repousarem em Deus. Precisamos seguir viagem rumo a casa; não podemos permanecer parados, ainda naufragados.

E Søren Kierkegaard disse que ser santo é "querer uma única coisa". Em cada escolha limitada que fazemos, ou nos abrimos ao real, ao horizonte infinito de esperança que é Deus, ou optamos pelo ilusório.

Mas, se fomos criados para todas as coisas boas, como saber se escolhemos o real, o que vem de Deus? Como distinguir uma Penélope de uma Calipso?

Seguimos aquilo que dá vida, que expande a nossa própria humanidade, mesmo que isso exija todas as nossas energias.

Ao se preparar para sua viagem a Roma, quando São Paulo sentiu necessidade de explicar o Evangelho que pregava, ele o resumiu de forma muito simples: afirmou ter a certeza de que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, dos que foram chamados de acordo com o seu desígnio (Romanos 8,28).

Ao se explicar diante da deusa, Odisseu admite a Calipso que seu caminho de volta para casa pode não ser tranquilo: mesmo que algum dos deuses o naufrague sobre o mar cor de vinho, ele suportará, pois seu coração é capaz de suportar grande sofrimento, já que padeceu tanto e enfrentou tantas lutas em alto-mar e na guerra, e agora está disposto a somar mais esta à lista.

E se um dos deuses me fizer cair no mar cor de vinho,
eu ainda assim perseverarei, pois este coração pode suportar grande sofrimento,
pois já sofri tanto e suportei tantas lutas
nos altos mares e na guerra. Que esta se acrescente a essas (V.221-224).

A Odisseia nos lembra que o mundo ressoa com cantos de sereia. Conseguimos ouvir o chamado de volta para casa? Nós o ouvimos primeiro em silêncio e, quando tememos tê-lo perdido, o coração precisa buscar novamente essa quietude. Escolham com sabedoria!

Leia mais