Papelão de Milei: Brasil chama de volta seu embaixador

Flávio Bolsonaro e Javier Milei | Foto: Reprodução/Youtube

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27 Julho 2026

Após as ofensas do presidente argentino dirigidas a Lula da Silva, o governo convocou seu enviado especial do país para consultas. Essa escalada sem precedentes na tensão diplomática abre mais um capítulo constrangedor para o governo argentino.

A reportagem é de Ayelén Berdiñas, publicada por Página/12, 27-07-2026.

O governo brasileiro convocou seu embaixador na Argentina, Julio Bitelli, para consultas após o escândalo político e diplomático provocado pelos insultos proferidos pelo presidente argentino, Javier Milei, contra seu homólogo Luiz Inácio Lula da Silva durante um evento de campanha de Flávio Bolsonaro, candidato de direita. Segundo este jornal, Bitelli viajou na noite de domingo para se encontrar com o ministro das Relações Exteriores brasileiro, Mauro Vieira, na segunda-feira. O governo brasileiro também convocou o embaixador argentino, Daniel Raimondi, para solicitar “esclarecimentos sobre o comportamento do presidente argentino em solo brasileiro”.

A escalada sem precedentes da tensão diplomática entre os dois países levou apenas algumas horas para se intensificar. Milei se referiu a Lula da Silva como um “ladrão” e “lixo socialista”, e chamou o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, de “lixo careca”. Horas depois, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, classificou as declarações do presidente argentino como “desrespeitosas” e lamentou “expressões incompatíveis com a civilidade que deveria caracterizar as relações entre os Estados”.

O governo argentino respondeu com uma publicação controversa na plataforma de mídia social X, do "Escritório Oficial de Resposta", justificando as declarações de Milei e tentando comparar o incidente à visita do presidente da Silva à ex-presidente Cristina Fernández de Kirchner em julho de 2015, visita que não resultou em um encontro com o presidente argentino. Em uma entrevista de rádio, ele reiterou o ataque: "O ex-presidiário veio cumprimentar o prisioneiro".

Em comunicado, o presidente do Partido dos Trabalhadores, Edinho Silva, declarou que "é inaceitável que um chefe de Estado estrangeiro visite nosso país e se dirija aos seus poderes constitucionais de maneira desrespeitosa ". A convocação para consultas por parte do governo brasileiro é um primeiro passo formal na diplomacia quando ocorre um evento que causa considerável desagrado. Consiste em uma ordem enviada pelo ministro das Relações Exteriores do Estado que envia a delegação ao chefe da missão diplomática, instruindo-o a comparecer com urgência para relatar o ocorrido e receber instruções.

“Tudo o que está acontecendo é de responsabilidade do governo da República Argentina. Isso não é, de forma alguma, produto de uma situação bilateral gerada pelos líderes ou altos funcionários de nenhum dos países. É puramente responsabilidade política e diplomática do presidente Milei. Este é o evento bilateral mais delicado do ponto de vista diplomático desde o advento da democracia na Argentina e no Brasil”, refletiu o analista e especialista Juan Gabriel Tokatlian para o Página/12.

Da mesma forma, Miguel Argüello, ex-representante nos Estados Unidos, em Portugal e na ONU, disse ao site de notícias Infobae que o ocorrido foi um grande erro, provavelmente o maior desde 1983. “Desde o momento em que Alfonsín e Sarney embarcaram num caminho irreversível de integração, passamos quarenta anos construindo confiança com base em interesses comuns, não em afinidades ideológicas.” “Durante esses quarenta anos, presidentes das mais diversas correntes políticas coexistiram em ambos os países, e, no entanto, o vínculo não só se manteve como se aprofundou”, afirmou.

Na declaração do PT, Silva acrescentou: “O Brasil é um país democrático e soberano”, e enfatizou que a democracia brasileira “permite o debate de ideias” e que nenhuma autoridade “está acima de críticas”, desde que sejam feitas “de maneira apropriada e no momento apropriado”. Além disso, admitiu que não é surpreendente que o atual presidente da Argentina se comporte dessa maneira. “Afinal, houve inúmeros exemplos recentes em que ele demonstrou não estar à altura da tarefa de ocupar o cargo que ocupa”, concluiu.

Em entrevista ao Página/12, o ex-ministro da Defesa e das Relações Exteriores, Jorge Taiana, especialista em diplomacia e direitos humanos, condenou as ações do presidente argentino, que descreveu como deploráveis. “Além da vergonha nacional que isso representa para os argentinos, evidencia a ausência de uma visão estratégica de médio e longo prazo e o escasso comprometimento com a defesa dos interesses nacionais. Os insultos de Milei dirigidos a Lula afetam o povo brasileiro, que, independentemente de sua filiação partidária, se sente insultado pelo presidente de uma nação irmã. Essa última ação de Milei e do Ministério das Relações Exteriores da Argentina contribui e aprofunda a deterioração das relações diplomáticas, comerciais e econômicas com importantes e antigos parceiros da Argentina.”

Em resposta à reação do governo brasileiro às declarações de Milei, o governo argentino rapidamente emitiu um comunicado justificando-se e contra-atacando. Por meio da Assessoria de Imprensa Oficial, o governo publicou um comunicado no jornal X sem esclarecer nenhum dos comentários do presidente e, longe de amenizar as tensões, usou a publicação para lembrar a todos que, durante a visita de Lula da Silva à ex-presidente Cristina Fernández de Kirchner, a agenda do presidente não incluía um encontro com Milei: “Três anos antes, em 2023, Lula já havia usado sua influência, tentando interferir diretamente em nosso país. Depois das primárias, ele enviou uma equipe de consultores brasileiros ligados ao Partido dos Trabalhadores (PT) para auxiliar a campanha de Sergio Massa”. Em entrevista, Milei afirmou que o governo brasileiro desempenhou um papel na campanha “anti-argentina” e o impediu de visitar seu “amigo” Jair Bolsonaro. O ministro das Relações Exteriores, Pablo Quirno, fez coro com essa opinião, comparando a recente gafe do presidente libertário a um artigo de 2023 do jornal La Nación, cujo título indicava que Lula da Silva estava colaborando com a campanha presidencial de Sergio Massa. Até o momento, não houve nenhuma declaração oficial tentando minimizar a última gafe cometida pelo presidente argentino.

Para Tokatlian, a imprudência de Milei "é um sinal claro de que um segmento da Argentina, representado por Milei e seus setores econômico e político de apoio, não tem absolutamente nenhum interesse em consolidar uma relação com o Brasil, como era o espírito original por trás da criação do Mercosul, entre outras coisas. Isso é mais uma prova de que Milei, que quer se apresentar como um suposto líder latino-americano, é na verdade quem acaba fazendo o trabalho sujo de Trump, particularmente na semana em que ele impôs unilateral e arbitrariamente tarifas adicionais ao Brasil."

Uma vergonha nacional

Milei ataca Lula, o presidente de uma nação irmã e principal parceiro estratégico do nosso país. O homenzinho que temos na Casa Rosada está sempre contra a Argentina. Enquanto isso, amanhã ele receberá os saqueadores do FMI com honras. O presidente mais anti-argentino que existe”, publicou La Cámpora nas redes sociais, acompanhado de uma foto de Lula da Silva com a ex-presidente Cristina Fernández de Kirchner.

Milei está nos envergonhando ao insultar e atacar pessoas por motivos ideológicos; ele não entende o papel que desempenha. Pior ainda: ele quer se tornar o ‘garoto de recados’ de Trump e Netanyahu, atacando e agredindo todos que se opõem à extrema-direita internacional ”, declarou o governador da Província de Buenos Aires, Axel Kicillof. “Esta manhã, entrei em contato com Mauro Vieira, Ministro das Relações Exteriores do Brasil, em nome do Partido Justicialista da Província de Buenos Aires, e disse a ele a mesma coisa que estou repetindo agora: ‘Não em nosso nome, Milei’”, concluiu.

As implicações comerciais, dado que o Brasil é o principal parceiro comercial da Argentina, vieram imediatamente à tona em condenações de todo o espectro político. "O que Milei está fazendo não é apenas imprudente, mas também errado e arriscado. O Brasil é nosso principal parceiro comercial, a principal fonte de comércio da Argentina. Ao se envolver nessas ações tolas e ridículas, ele está colocando em risco empregos, investimentos e os interesses coletivos do povo argentino para apoiar um candidato a mando de Trump", declarou Kicillof. Por sua vez, a Frente Renovação emitiu uma declaração de condenação semelhante: "O Brasil é nosso principal parceiro comercial, e a relação bilateral tem um impacto concreto na vida de milhares de pequenas e médias empresas, indústrias e trabalhadores argentinos. Exportações, cadeias produtivas e empregos em todo o país dependem dessa relação."

Em entrevista a este jornal, a Deputada Nacional e ex-Diretora de Migração, Florencia Carignano, declarou: “Acho que é uma vergonha internacional Milei fazer declarações tão ultrajantes, e isso é impróprio para o cargo de presidente. Acho que nos envergonha como país e prejudica as relações diplomáticas com nosso principal parceiro comercial. Os argentinos não são assim. Isso nos coloca novamente em uma posição desconfortável, neste caso com os brasileiros.”

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