15 Julho 2026
“Longe de ser um ato apolítico, o projeto de transformar a economia em um destino é, de fato, a expressão mais bem-sucedida da política do final do século XX e início do século XXI”, escreve Quinn Slobodian, no prefácio à edição estadunidense do livro de Pierre Dardot, Haud Guéguen, Christian Laval e Pierre Sauvêtre, The Choice of Civil War, Neoliberal Strategy and the Politics of the Enemy, Verso, 2026.
O texto é publicado por Terrestres, 16-06-2026. A tradução é do Cepat.
Quinn Slobodian é professor de história internacional na Escola de Estudos Globais Frederick S. Pardee da Universidade de Boston. Seu livro mais recente é Muskism: A Guide for the Perplexed, escrito em coautoria com Ben Tarnoff.
Eis o texto.
No final do livro A escolha da guerra civil. Uma outra história do neoliberalismo (Elefante, 2021), Pierre Dardot, Haud Guéguen, Christian Laval e Pierre Sauvêtre mencionam um encontro entre Napoleão e Goethe em 1808. Diz-se que Napoleão teria comentado: “Por que sempre falam de destino? Destino é política”. Essa afirmação teve grande repercussão, e o industrial alemão Walter Rathenau a adotou na década de 1920, transformando-a em “A economia é o destino”. Após a Segunda Guerra Mundial, Ludwig Erhard, ministro da Economia da Alemanha Ocidental e figura-chave na implementação de uma versão inicial do neoliberalismo alemão do pós-guerra, usou a mesma frase: “A economia é o destino”.
Essa reformulação reflete apropriadamente a oposição comum entre o neoliberalismo e seus oponentes. Há quem argumente que existe uma “lei da economia” em nome da qual burocratas irresponsáveis e instituições financeiras movidas por algoritmos determinam nosso destino de acordo com princípios abstratos extraídos das ciências sociais; enquanto alguns se recusam a se submeter às forças do mercado e, em vez disso, enfatizam o Estado, a soberania e o poder de um líder carismático – em outras palavras, o retorno do inesperado. Essa alternativa nos remete a ideias que circulam há uma década. Ouvimos falar do retorno de homens fortes, como tantos mini-Napoleões brandindo a bandeira da “política do destino”, também chamada de “política da eternidade” por Timothy Snyder, contra a lógica distributiva implacável do mercado.
É precisamente essa estrutura interpretativa que este livro busca questionar. Primeiro, porque nenhuma dessas duas opções oferece uma solução genuína e, segundo, porque a proposição é empiricamente falsa. O neoliberalismo não subscreve, na realidade, a ideia de que a economia é o “destino”. O neoliberalismo também é napoleônico, argumentam os autores. O universo conceitual em que Ehrard atuava na década de 1960 foi moldado por uma doutrina influenciada por Carl Schmitt, o jurista nazista. Os primeiros neoliberais compartilhavam, na medida do possível, com Schmitt a crença na necessidade de uma concentração do poder estatal acima dos interesses conflitantes do povo. Para eles, as decisões políticas tinham que ser tomadas considerando diferentes objetivos. Schmitt e Friedrich Hayek acreditavam que havia uma diferença fundamental entre a Lei (Recht), que estava acima do governo democrático, e a legislação (Gesetz) dos órgãos eleitos, que deveria sempre ser confinada a limites estritos. Eles compartilhavam o que os autores chamam de “demofobia”.
Quando Margaret Thatcher, durante a greve dos mineiros em meados da década de 1980, disse que os mineiros não conheciam a lei da terra e, portanto, a lei da economia, ela assumiu assim o direito de interpretar o que “a economia” significava, como Napoleão tinha feito com Goethe sobre política. As exigências econômicas estavam subordinadas a uma luta política mais ampla contra o socialismo e a organização dos trabalhadores. Um leitmotiv recorrente do neoliberalismo, dizem-nos os autores, “é recodificar esta luta de classes numa guerra civil para melhor posicionar o Estado neoliberal acima dos interesses particulares”.
Longe de ser um ato apolítico, o projeto de transformar a economia em um destino é, de fato, a expressão mais bem-sucedida da política do final do século XX e início do século XXI. Segundo os autores, trata-se de uma política que apresenta “suas próprias escolhas como não-escolhas e, portanto, proíbe qualquer alternativa na política econômica”. Não estamos testemunhando uma oscilação pendular da economia para a política, mas uma modulação no tipo de política adotada. Este livro nos mostra o que acontece quando adotamos uma forma de política que se recusa a reconhecer seu próprio status político. O que acontece é a lógica da guerra civil, porque, segundo os autores, se negarmos a existência da política como tal, o que ocorrer nesse vácuo resultante torna-se decisivo.
Os autores destacam uma semelhança fundamental entre a decisão do presidente francês Emmanuel Macron de reprimir o levante dos Coletes Amarelos e, nos Estados Unidos, a caracterização dos protestos antirracistas e internacionalistas como terrorismo. Em ambos os casos, os líderes políticos encontram-se num impasse: continuam a defender uma ordem econômica que mina as condições para a reprodução da sociedade e gera uma série de sintomas de raiva e frustração. À medida que o processo se agrava, os sintomas, inicialmente interpretados como sinais de alerta de uma situação que não foi abordada, acabam por ser vistos como prova da existência de um corpo estranho dentro da nação que deve ser controlado e expulso. Um clima de “suspeita generalizada” torna ilegítimo, de antemão, qualquer ato de descontentamento.
Houve um momento revelador no final da campanha presidencial estadunidense de 2024. Enquanto os democratas tentavam focar a campanha na “defesa da democracia”, descobriram que muitos eleitores compartilhavam suas opiniões, mas ainda assim votariam contra eles. Isso pode ter deixado estrategistas e consultores perplexos, mas a história contada neste livro explica tudo. Segundo Nancy Fraser, a partir da década de 1980, o neoliberalismo ganhou força em todo o espectro político. O Partido Democrata priorizou a eficiência e o crescimento em detrimento de princípios como a defesa da classe trabalhadora e a redução da desigualdade.
O neoliberalismo progressista ofereceu, como compensação para todos os que saíram perdendo, um discurso sobre meritocracia, acesso facilitado ao crédito e a promessa de ascensão social intergeracional. Dito isso, os autores corrigem Fraser ao observar que o distanciamento da centro-esquerda em relação à sua base da classe trabalhadora sempre foi acompanhado por tendências mais extremas em direção ao neoliberalismo autoritário. Ações afirmativas, o questionamento das narrativas históricas dominantes e novas regras contra assédio e discriminação no local de trabalho poderiam ter sido consideradas concessões marginais, típicas de uma esquerda preocupada com seu estilo de vida individual e que poupava as estruturas econômicas como um todo. Em vez disso, foram vistas como avanços adicionais em uma guerra contra a própria civilização.
Houve uma mudança de tática na direita, o que os autores chamam de uma transição do “medo paranoico das massas para a sedução mais cínica das massas”. Em 1992, o anarcocapitalista Murray Rothbard interpretou isso como um afastamento do modelo de Hayek, que consistia em “converter as elites intelectuais à liberdade, começando pelos filósofos mais eminentes e, em seguida, por meio de um lento efeito cascata ao longo de várias décadas, converter jornalistas e outros formadores de opinião na mídia”. A alternativa era a “mobilização dos rednicks” (1). Isso funcionaria de baixo para cima. Ele escreve: “Essa estratégia de duas frentes nos permite, por um lado, construir um grupo baseado em ideias sólidas com nossos amigos libertários – isto é, líderes de opinião pró-governo mínimo – e, por outro lado, incitar as massas a ignorar a grande mídia e as elites intelectuais, a inflamar as massas populares contra as elites que as saqueiam, enganam e oprimem social e economicamente”.
Com o Brasil de Bolsonaro e os Estados Unidos de Trump, vimos essa estratégia se desenvolver ao longo da última década. Questões da guerra cultural serviram como cortina de fumaça para eleitores revoltados, enquanto os think tanks elaboravam planos de ação política. Os autores observam que: “o neoliberalismo produz tanto o seu veneno (desfiliação, desigualdades sociais, insegurança econômica) quanto, em sua versão de direita, seu antídoto imaginário na forma de reencantamento de um ‘nós’ composto por pessoas simples e comuns, por pares silenciosos e trabalhadores, por bons cidadãos que obedecem às normas e respeitam a autoridade do Estado”.
Ao assistir a um documentário recente sobre os protestos de 1999 contra a OMC em Seattle (WTO/99, dirigido por Ian Bell), fiquei impressionado com o quanto as coisas mudaram em um quarto de século. Os confrontos com a polícia naquela época tiveram um efeito chocante e chegaram a representar uma ruptura na confiança pública nas instituições liberais. Em retrospectiva, percebo outras diferenças marcantes: primeiro, o fato de que os protestos eram permitidos perto dos locais em questão e, segundo, que técnicas hoje comuns, como o cerco policial, não foram utilizadas.
Os autores observam que a escalada da repressão violenta contra os manifestantes na cúpula do G8 em Gênova, apenas dois anos após Seattle, abriu caminho para o que se tornaria uma tendência na criminalização da dissidência. Os autores afirmam que “a guerra não é exclusivamente ou necessariamente militar; ela permeia todos os campos, todas as instituições, todos os discursos”. O segundo ponto que me chamou a atenção foi uma reportagem citada no documentário, que afirmava que o novo acordo da OMC abrangia mais de 90% do comércio mundial porque a China só havia aderido à organização dois anos depois. Portanto, era possível falar em 90% do comércio mundial excluindo a China. Na época, a participação da China no comércio mundial era de cerca de 3%; hoje, é aproximadamente cinco vezes maior. Sua participação na produção manufatureira global também quintuplicou, atingindo aproximadamente 30% do total, quase o dobro da dos Estados Unidos. Os trabalhadores de Seattle temiam perder seus empregos devido à globalização, e eles estavam certos. De fato, havia uma aliança entre sindicatos e jovens ativistas radicais, mas essa era acabou. A convergência entre eles agora parece tão improvável que é realmente de partir o coração pensar que possa ter existido tão recentemente.
A China não é o tema central deste livro. Pode-se considerar a China um elemento disruptivo na estrutura abrangente dos autores sobre as duas faces do neoliberalismo progressista/conservador. Acadêmicos como Isabella Weber apontaram que a questão de saber se a China é ou não neoliberal é um beco sem saída. A doutrina econômica do país foi moldada por fatores internos e externos, o que significa que as categorias consagradas de sociedade civil e Estado (para não mencionar as antigas categorias de imperium e dominium) têm aplicação limitada. A esperança que se pode ter ao terminar de ler este livro é que finalmente sejamos capazes de nos libertar das amarras de um neoliberalismo consagrado em lei, bem como de nossas próprias estruturas analíticas.
Segundo os autores, o slogan que contrapõe os 99% ao 1%, por mais famoso que seja, não abarca um mundo composto por: “coalizões de oligarquias, que defendem a ordem neoliberal por todos os meios do Estado (militares, políticos, simbólicos); classes médias comprometidas com o neoliberalismo ‘progressista’ e seu discurso sobre as virtudes da ‘modernização’; um segmento das classes trabalhadora e média cujo ressentimento é canalizado para o nacionalismo autoritário; e, finalmente, um último tipo de grupo formado em grande parte por meio de mobilizações sociais contra a ofensiva oligárquica, mantendo-se comprometido com uma concepção igualitária e democrática da sociedade”.
A impressão de complexidade também pode obscurecer uma conexão subjacente, observam os autores. Um arquipélago é formado por ilhas ligadas por uma base vulcânica submarina. É possível que, contrariando todas as expectativas, a transição da demofobia para uma demofilia tendenciosa e perversa abra caminho para um novo tipo de política como destino. Uma coisa é certa: não há volta.
Nota
1. Termo pejorativo para designar a classe trabalhadora nos Estados Unidos (Nota da tradutora do texto para o francês – Evelyne Méziani-Laval).
Leia mais
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