14 Julho 2026
"Isso é frustração, não estratégia", dispara Aaron David Miller. Em seguida, o ex-enviado do Departamento de Estado para o Oriente Médio explica o porquê: "Trump se colocou numa situação sem saída e não sabe como sair dela. Forçar a reabertura do Estreito de Ormuz exigiria uma operação longa e perigosa. A alternativa é negociar um acordo real com o Irã, que, no entanto, acredita estar em vantagem por ter um alto nível de tolerância e por ter demonstrado seu controle sobre o Estreito."
A entrevista é publicada por La Repubblica, 14-07-2026.
Eis a entrevista.
Por que Trump ordenou o restabelecimento do bloqueio naval e exigiu o pagamento de 20% dos navios que o atravessam?
Entramos em um ciclo de escalada, mas o limiar da dor dos iranianos é maior que o nosso. O presidente está frustrado e irritado porque iniciou a guerra para impedir que o Irã adquirisse armas nucleares, mas, ao fazê-lo, criou uma nova: o uso da geografia como arma por Teerã. Isso não é uma posição de negociação ou uma tática da República Islâmica; são os paquistaneses que decidem o que consideram ser do melhor interesse do país, com a aquiescência do Líder Supremo.
Como Trump pode responder?
Continuar o bloqueio naval, usar o poder militar para suprimir as defesas aéreas iranianas e minar sua capacidade de lançar mísseis e drones, ou ordenar ao Pentágono que reabra o Estreito à força, escoltando os petroleiros. Essa, porém, seria uma operação longa e custosa, com o risco de numerosas baixas americanas, sem resolver o problema estratégico subjacente, pois o Irã, com seus drones e mísseis de curto alcance, sempre poderia intimidar seguradoras e companhias de navegação, que estariam dispostas a pagar a Teerã por passagem segura. O presidente se encurralou e não sabe como sair.
Se você trabalhasse para ele, que conselho lhe daria?
Esqueçam a coerção militar e o bloqueio, e concentrem-se num acordo verdadeiramente abrangente sobre o Irã.
Por que o memorando de entendimento expirou?
É um documento terrível, fruto do desespero, que entrega todas as cartas aos iranianos. É o que acontece quando se confia as negociações ao melhor amigo e ao genro. Estas não são questões que se resolvem por telefone ou num guardanapo de coquetel, e os efeitos disso já se fizeram sentir na Ucrânia e em Gaza.
O que deve ser negociado?
Um pacto estratégico abrangente com o Irã, que exigiria sérias restrições e limitações à sua infraestrutura nuclear, bem como a diluição do urânio altamente enriquecido, em troca de milhares de dólares, alívio das sanções, o descongelamento de ativos apreendidos no exterior e a liberdade de vender petróleo.
E a reabertura de Ormuz.
Sim, mas mesmo que Teerã prometa livre navegação no Estreito, viveremos sob a espada de Dâmocles porque sabemos que pode fechá-lo quando quiser. A comunidade internacional jamais aceitará a formalização do controle iraniano sobre Ormuz, mas não há muitas alternativas.
Será que os iranianos aceitariam um acordo desses?
Eles não parecem inclinados a fazer isso, porque acreditam ter uma tolerância à dor maior do que a nossa. Se ambos os lados não concordarem que uma solução é necessária, esse estado de conflito permanente poderá durar muito tempo.
Com que consequências?
Os mercados têm absorvido a situação muito bem até agora, mas o FMI já afirmou que existe o risco de uma crise capaz de reduzir o PIB global em 3%.
A votação nas eleições de meio de mandato não pressiona Trump a encontrar uma solução?
O nome dele não está na cédula. Se ele perder, vai dizer que houve fraude ou que os republicanos escolheram os candidatos errados. Vai culpar alguém.
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