30 Agosto 2025
Ao transformar o “comum” de um substantivo plural em princípio político singular, Dardot e Laval propõem uma revolução cosmopolita. Seu projeto: substituir a soberania estatal e o neoliberalismo por um ecocomunismo libertário, construído a partir das lutas locais e da autogestão da vida.
O artigo é de Youness Bousenna, publicado por A Terra é Redonda, 26-08-2025. A tradução é de Fernando Lima das Neves.
Youness Bousenna é jornalista. Autor, entre outros livros, de Les Présences imparfaites (Costas).
Eis o artigo.
As palavras mais simples às vezes expressam os conceitos mais fortes. Comum: é uma dessas que surgiram na efervescência dos anos 2010. Enquanto na França uma “zona a defender” (ZAD) se forma em Notre-Dame-des-Landes (Loire-Atlantique) e o movimento efêmero Nuit Debout se espalha pelas praças, os “indignados” espanhóis manifestam-se em Madri e o movimento Occupy Wall Street protesta em Nova Iorque contra um sistema financeiro que, alguns anos antes, colocou o mundo de joelhos.
Se a teoria do “comum” acompanhou essa erupção social, foi em grande parte graças a uma dupla de intelectuais, o filósofo Pierre Dardot e o sociólogo Christian Laval: em 2014, eles publicaram Comum: ensaio sobre a revolução no século XXI. “Até então, a questão das coisas comuns era abordada a partir dos bens naturais, como os rios. Eles transformaram isso num princípio político de alcance revolucionário”, destaca Ferhat Taylan, professor de filosofia ambiental na Universidade Bordeaux-Montaigne.
A revolução intelectual deles não parou por aí. Em fevereiro, os dois filósofos lançaram seu nono ensaio, Instituir os mundos: por uma cosmopolítica das coisas comuns (La Découverte). Este livro também é anunciado como a expressão última de uma parceria singular no panorama intelectual francês, que, ao longo das 4.545 páginas de sua obra (contamos), contribuiu para renovar o pensamento da esquerda.
À imagem, justamente, de sua abordagem das coisas comuns. Até então, a noção estava associada à economista americana Elinor Ostrom (1933-2012), que tinha teorizado como certos recursos (uma floresta, uma espécie de peixes…) eram mais bem preservados quando tratados como bens comuns, de forma associativa. Um pensamento que se opunha à privatização generalizada defendida por uma corrente neoliberal dominante.
Pierre Dardot e Christian Laval radicalizam a abordagem, passando do plural para o singular: das “coisas comuns” como propriedade de certos objetos, eles pensam o “comum” como princípio de organização de toda a sociedade. Isso implica, argumentam eles em seu novo livro, que o “autogoverno dos meios de vida” pelos comuns se articula com um “ecocomunismo libertário” – ou seja, uma mistura de ecologia social e autonomia democrática.
“Substituímos a famosa fórmula altermundialista ‘Um outro mundo é possível’, pela fórmula zapatista: ‘Um mundo onde caibam muitos mundos’”, afirma Pierre Dardot, numa sala de reuniões de sua editora de sempre, La Découverte, onde nos encontramos com a dupla. Daí a ideia de uma “cosmopolítica”, essa forma de pensar vários mundos numa só Terra, cuja urgência é preservar a habitabilidade contra as forças que a destroem. Uma força que, para eles, tem um nome: o neoliberalismo, cujo auge no final do século XX levou a um impulso sem precedentes da dinâmica de financeirização e privatização dos bens.
Foi esse novo sinal dos tempos que cimentou uma amizade que poderia ter surgido vinte anos antes. A dupla encontrou-se sem se relacionar em 1972, na efervescente Universidade de Nanterre, no seio da recém-criada Liga Comunista de Alain Krivine. Eles se reencontraram graças ao acaso das mudanças do sistema nacional de ensino. Ambos jovens professores, foram nomeados em 1988 para o liceu François-Villon, em Les Mureaux (Yvelines).
Imediatamente, e quase instintivamente, eles inventaram um método de reflexão coletiva que se tornaria sua marca registrada, criando um “lugar autogerido” que combinava pedagogias de vanguarda, conferências, debates e apoio às revoltas secundaristas. “Foi o nosso primeiro comum”, lembram-se com risadas os dois intelectuais que regressariam tardiamente, no início da década de 2010, à Universidade de Nanterre, onde hoje estão ligados ao laboratório Sophiapol. Tratava-se então de um primeiro “gesto de resistência num momento em que o neoliberalismo começava a impor-se”.
Radicalidade política
Com que ferramentas intelectuais lutar contra esse neoliberalismo? Essa é a “grande questão” deles, no centro da virada que será a criação do coletivo Questão Marx em 2004. O objeto: “redescobrir um marxismo vivo”. Despojado dos abismos do século XX, adaptado ao capitalismo do século XXI. Em 2009, a dupla retirou dos trabalhos do seminário sua primeira grande obra, A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal (La Découverte, 2009), cuja importância está no subtítulo. Enquanto as análises até então resumiam o neoliberalismo a um modo de produção, eles veem nele uma “sociedade”.
Ou seja, uma arquitetura jurídica, social e até mesmo psicológica, que vai além da economia. Agora, seu desafio será reconstruir um pensamento de esquerda para contrapor a onda neoliberal que, da crise dos subprimes à crise da dívida grega, provoca choques brutais nas sociedades.
Comum foi publicado em 2014. “Naquele momento, todo mundo falava das coisas comuns, diante do neoliberalismo, percebido como um vasto movimento de enclosure [extensão da propriedade privada]”, lembra Pierre Dardot. “Era necessário elaborar uma síntese crítica que conferisse um corte político à noção”. O livro foi bem recebido, mas incomodou uma certa esquerda.
Em A vida das ideias, o pesquisador Sébastien Broca reconhece um “monumento de erudição”, mas lamenta que a radicalidade política prevaleça sobre uma “estratégia internalista de subversão”. Em outras palavras, que se prefira o apelo revolucionário à reflexão sobre uma utilização dos instrumentos jurídicos já disponíveis para fazer emergir uma sociedade do comum.
Eles acreditam na transformação, não na reforma. E nas lutas locais, não no Estado. Em 2020, publicaram uma nova obra, Dominar: estudo sobe a soberania do Estado no Ocidente (La Découverte, 2020), gigantesca arqueologia da soberania, noção que parte da esquerda, de Arnaud Montebourg a Jean-Luc Mélenchon, busca converter em ferramenta a serviço da transformação.
“À esquerda, muitos veem no recurso à soberania do Estado um princípio positivo a contrapor o neoliberalismo”, irrita-se Pierre Dardot. Uma esquerda que, a propósito, a dupla ironiza em vários ensaios em que enfrentam alguns dos totens revolucionários; de Salvar Marx? (com El Mouhoub Mouhoud, La Découverte, 2007), diretamente inspirado nos trabalhos do seminário “Questão Marx”, a Marx, prenome: Karl (Gallimard, 2012) e A sombra de outubro (Lux, 2017), eles aperfeiçoam sua abordagem libertária baseada no autogoverno.
A espontaneidade das lutas
Revolucionário e libertário, seu pensamento divide a esquerda. “A obra deles permitiu questionar o Estado como solução para a questão social e política e, sem inovar totalmente sobre o assunto, produzir uma análise pertinente sobre o neoliberalismo como força que molda também as subjetividades”, aplaude o filósofo Edouard Jourdain, especialista em anarquismo e nas coisas comuns.
Mas o historiador Jean-Numa Ducange, codiretor da revista Actuel Marx, que assinou, em 2025, um volume da série “Que sais-je?” sobre Os marxismos (PUF), lamenta sua “recusa de qualquer lógica de soberania” e uma confiança excessiva na espontaneidade das lutas para inventar a sociedade do futuro.
Essa característica condenaria a obra teórica à esterilidade política? “Sua resolução dos problemas é puramente conceitual, baseada em facilidades retóricas. Não é possível importar Chiapas para a Europa, e realmente tenho dificuldade em imaginar seu projeto em sociedades complexas como as nossas”, considera o filósofo e pesquisador Guillaume Fondu.
Este autor de O nascimento do marxismo (CNRS Editions, 2024) diz-se, no entanto, “admirado com a amplitude do esforço teórico deles, que permitiu ordenar o pensamento à esquerda”. Edouard Jourdain, mais próximo da dupla por sua veia libertária, matiza: “O que falha neles, como em muitos outros, diz respeito à questão de como passar do mundo atual para a ‘cosmopolítica das coisas comuns’ a que aspiram”.
Em vez de “esterilidade”, ele prefere falar de “impensados”, como no caso do papel da guerra ou da diplomacia. “É um pensamento das práticas, daí o volume impressionante de seus livros, pois eles mapeiam as lutas e só pensam o futuro a partir do terreno”, defende Ferhat Taylan, que também foi editor de algumas de suas obras na Turquia.
Este último lembra, em particular, que a tradução de A nova razão do mundo teve um “grande eco”, pois ressoou no movimento da Praça Taksim, em 2013, em Istambul. A obra deles também é muito apreciada na América Latina, para onde a dupla viaja frequentemente. A tal ponto que são “mais conhecidos na América Latina do que na França”, observa Ferhat Taylan.
Aliás, foi a eleição de Jair Bolsonaro para a presidência do Brasil em 2018 que os levou a criar o Grupo de Estudos sobre o Neoliberalismo e as Alternativas, do qual resultaria A escolha da guerra civil: uma outra história do neoliberalismo (com Haud Guéguen e Pierre Sauvêtre, Lux, 2021), que complementa A nova razão do mundo, enfatizando as “fortes ligações do neoliberalismo com o fascismo”.
Pierre Dardot e Christian Laval fazem dessa recusa em definir antecipadamente os contornos de um mundo futuro uma marca registrada, e não uma falha. “É o limite de nossa intervenção política: designar a bússola, mas deixar que a figura desse mundo futuro seja inventada pelas lutas”, afirma Christian Laval. Instituir os mundos resulta assim em “traçados estratégicos”, e não numa teoria pronta para usar.
Da Comuna de Paris em 1871 à criação da Casa Comum (um espaço de democracia local) em Brasília em 2024, a dupla busca inspiração em todas as épocas e lugares do mundo. Sem fronteiras, como o mundo novo que se imagina ao longo das 4.545 páginas de sua obra comum.
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