Calor extremo escancara desigualdades, inclusive nos países desenvolvidos

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10 Julho 2026

Onda de calor provocou corrida por ar-condicionados na Europa, mas nem todos têm recursos para adquirir o aparelho ou pagar a conta de energia.

 A informação é publicada por ClimaInfo, 09-07-2026.

O calor intenso registrado em vários países da Europa nas últimas semanas gerou cenas pitorescas, como pessoas nadando de madrugada no rio Sena, dormindo em praças em Paris e o uso de caminhões de dispersão de multidões da polícia de Berlim, na Alemanha, refrescando as pessoas em frente ao Portão de Brandemburgo. Mas por trás das imagens curiosas está um problema do qual nem mesmo a rica Europa consegue fugir: a crise climática, na prática, também é uma crise de desigualdade social.

O Guardian aborda como essa desigualdade está intensificando os impactos negativos do clima extremo entre os europeus. Em um continente onde o ar-condicionado nunca foi um item de primeira necessidade nas residências, poucas casas estão preparadas para suportar as altas temperaturas. Quem tem mais dinheiro consegue algum alívio, como um quarto de hotel com refrigeração. Já os despossuídos não têm muito o que fazer senão suportar o cada vez menos suportável calor. Ou seja: assim lá, como cá.

Na Inglaterra, essa desigualdade no acesso a uma casa fresca é mais brutal. Segundo Rory Jones, da Universidade de Reading, apenas 4,3% dos domicílios ingleses contam com condicionadores de ar. Os custos de compra, manutenção e de gasto de energia dos aparelhos estão gerando uma separação social clara: quem tem mais dinheiro tem mais conforto térmico.

“Famílias com renda mais alta têm mais que o dobro de probabilidade de possuir ar-condicionado em comparação com aquelas com renda mais baixa. Instalar e manter um ar-condicionado é caro, tornando-o muito mais acessível às famílias mais ricas”, destacou Rory Jones, em artigo no The Conversation.

Essa divisão também é percebida fora das casas. As pessoas mais pobres, que trabalham na maior parte das vezes ao ar livre, sofrem com o sol inclemente e contam com poucas oportunidades de alívio do calor. O transporte público até permite alguma sombra, mas suas estruturas pouco preparadas para temperaturas acima de 30ºC acabam transformando trens e ônibus em fornos.

“Nem todos estamos igualmente expostos, assim como nem todos somos igualmente responsáveis”, lembrou Mael Ginsburger, da Universidade Paris Cité, na Al Jazeera. “Nem todos têm a mesma capacidade de adaptação, e existem certos grupos que enfrentam múltiplas vulnerabilidades ligadas a problemas de saúde, por exemplo.”

Em tempo

Uma pesquisa recente feita na Austrália revelou que temperaturas mais altas estão impactando a saúde mental dos jovens. Segundo a análise, que examinou 720 mil internações hospitalares de pessoas com até 24 anos em Nova Gales do Sul entre 2001 e 2022, o calor intenso nos meses mais quentes dobra o risco de jovens serem admitidos em hospitais por problemas de saúde mental. Com o aumento da frequência de temperaturas extremas devido às mudanças climáticas, essas internações podem aumentar em até 7,7% até o final do século. Pesquisas anteriores citadas pelo Guardian mostraram que jovens chegam ao hospital com pensamentos e comportamentos suicidas com mais frequência em dias com temperaturas acima da média.

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